José Gonçalves, presidente da Accenture Portugal: “O talento não está apenas nas grandes cidades”

A Accenture celebra em 2020 o 30.º aniversário em Portugal e já tem mais de três mil trabalhadores. A prioridade é o talento, diz José Gonçalves em entrevista.

2020, 30 anos, três mil colaboradores. É com estes números que José Gonçalves, presidente da Accenture Portugal, prepara os próximos doze meses. Em entrevista ao ECO, antecipa as prioridades da consultora para 2020 e o que devem ser as fórmulas essenciais de o país para se afirmar internacionalmente.

Quais são os objetivos da Accenture para 2020?

Vamos continuar o crescimento rápido, que tem sucedido nos últimos anos e que explica os três mil colaboradores. E porquê? Uma das razões é que a Accenture é um parceiro end-to-end dos nossos clientes, não é apenas uma consultora como éramos no passado, ou só uma tecnológica. Somos uma consultora, uma tecnológica e uma empresa de outsourcing de processos, isto é, que permite conceber e implementar soluções. Também reforçado pelo facto de termos, hoje, uma posição muito mais homogénea em todos os negócios e, finalmente, a aposta na exportação de serviços.

A Accenture passou por um processo de transformação de negócio. Como é que se define hoje?

É um parceiro que entrega soluções que cria valor para o negócio, seja com pessoas de consultoria, tecnologia ou operações, marketing digital, as competências que forem necessárias. Não nos limitamos a recomendar soluções.

Está há três anos na liderança da empresa. O que mudou na organização?

Foi uma mudança brutal. A grande diferença é que deixamos de ter uma carreira única, com um tipo de talento único, o consultor, para termos uma diversidade de perfis muito grande, de consultores a criativos, a marketing digital e ‘data-scientist’, com carreiras diferentes. Agora, temos uma cultura de culturas.

Quais são as áreas mais relevantes? O digital?

O digital é transversal a todo o negócio. No início, criámos de facto uma área digital, porque os skills eram tão específicos que não existiam pessoas suficientes para todas as áreas de negócio, mas com a maturidade do digital, tanto a consultoria como na tecnologia e no outsourcing, tem de ter competências do digital…

Então, quais são as áreas de competências mais relevantes?

Esse é outro aspeto importante: há carreiras diferentes com salários diferentes, e isso pode criar desafio de gestão, porque pode levar determinadas pessoas a pensarem que são mais importantes do que outras. As pessoas têm de perceber que uma coisa é o que o mercado valoriza em termos de competências e num determinado momento, outra coisa é a importância que cada um tem dentro da empresa para que possamos ser tão relevantes no mercado… É uma transformação efetiva, porque todos somos importantes.

Hugo Amaral/ECO

O que é que o mercado está a pedir mais?

O mercado quer entidades que, mais do que fazerem recomendações ou projetos, se comprometam com resultados…

… é uma das críticas que se fazem às consultoras.

É uma exigência muito boa para a Accenture porque temos as capacidades que, sem arrogância, não vemos na nossa concorrência em consultoria, em tecnologia e em operações. É uma evolução do mercado, que ficou saturado de recomendações que não podiam ser implementáveis, não criavam valor.

Uma coisa é o que o mercado valoriza em termos de competências e num determinado momento, outra coisa é a importância que cada um tem dentro da empresa para que possamos ser tão relevantes no mercado.

O que é o negócio da exportações da Accenture?

São duas grandes áreas de negócio: exportações de serviços tecnológicos, isto é, desenvolvimento, manutenção e operação de soluções informáticas e é, por outro lado, exportação de outsourcing de processos que os clientes não consideram críticos e que podem ser realizados externamente, com mais qualidade. Em Portugal, estas duas atividades têm uma atratividade brutal porque temos um talento excecional a um custo muito competitivo. Os clientes apostam cada vez mais em Portugal para desenvolver este tipo de atividade, e temos muitos exemplos no mercado. O nosso mérito foi trabalhar em conjunto com a Accenture de outros países e fazê-los ver as nossas competências. Sempre que há grandes projetos de transformação tecnológica ou de outsourcing transformacional de processos, Portugal está no mapa.

É uma vantagem de preço ou de qualidade?

Não é uma resposta politicamente correta, mas a qualidade. Os portugueses têm qualificações, sei das críticas que se fazem às nossas universidades, mas as nossas pessoas saem bem preparadas e, depois, são profissionais e dedicadas, por um lado, e flexíveis. Depois, não sejamos hipócritas, o facto de termos um custo competitivo é também atrativo quando se apresenta um business case, mas o preço, o custo, não chegaria, as empresas iriam para outros países.

Qual é o peso da exportação no negócio da Accenture em Portugal?

Fechamos o último ano, que terminou em agosto, com os melhores resultados de sempre — quase 200 milhões de euros de faturação –, com mais de três mil pessoas das quais 85% com grau de ensino superior, dos quais mais de 40% em exportação. Também nos ajuda a crescer e a ter rentabilidade. Não é pela dimensão que nos vamos impor.

Quais são as prioridades?

Temos de crescer acima da média da Accenture, temos de ser mais rentáveis, e isso depende da exportação de serviços, e finalmente temos de fazer trabalhos para a Accenture global. Quando fazemos parte da fábrica de entrega de serviços tecnológicos ou de processos para grandes clientes a nível global, tornamo-nos relevantes.

A Accenture trouxe para Portugal uma agência de publicidade digital, a Fjiord, e abriu em Braga um centro tecnológico. E para 2020, quais são os planos?

Acabámos de comprar uma empresa digital em Espanha que queremos ter em Portugal, a Shackleton, mais uma vez com uma perspetiva: quando queremos resolver os problemas dos clientes, temos de ter as competências necessárias e, às vezes, há problemas que passam pela comunicação, pela publicidade, de experiência… E, por isso, a Shackleton será uma realidade. Também estamos sempre à procura de oportunidades de crescimento inorgânico. Não queremos crescer por dimensão, mas queremos incorporar competências. Em Portugal estamos um pouco atrás na cloud mas é um mundo que vai acelerar e que poderá trazer oportunidades de aquisição.

O que nos falta? Mais talento. Há falta de talento. É preciso a coragem para apostar na formação de talento profissional e tecnológica. Um exemplo: Portugal precisa de programadores, e sinceramente não é preciso ter licenciados para programar. Em segundo lugar, temos de atrair e reter inteligência e talento internacional.

José Gonçalves

O que falta para que Portugal se torne competitivo?

O índice de rotação digital compara o contributo do digital para a economia dos países. Há dois anos, estimou-se que o digital contribuiu para 20% do PIB em Portugal, enquanto noutros países, leading edge no digital, o impacto era superior a 30%. O que nos falta? Temos de aumentar drasticamente a produtividade portuguesa, e isso passa por ter mais capacidade de investimento e por remunerar o trabalho de forma diferente…

Como é que isso se faz?

Isso só vai ser possível em indústrias de valor acrescentado e por isso é que o digital é uma oportunidade, porque é, por definição, de valor acrescentado e com pessoas qualificadas. Falta-nos capacidade de investimento na transformação digital, falta capital…

Como é que Portugal é visto pelos líderes internacionais da Accenture?

Um ponto positivo e outro menos positivo. Dada a dimensão do país e a abertura das pessoas, é possível fazer trabalhos inovadores e com mais agilidade, com um ecossistema. Por exemplo, temos trabalhos nos seguros e na energia que são reconhecidos internacionalmente. O que falta? Falta a capacidade de escalar essas soluções, investir para que sejam impactantes em todo o negócio e não apenas em algumas áreas mais restritas da empresa, sem impacto no P&L. E, por outro lado, falta-nos a ambição de olhamos para o mundo como o nosso mercado, vemos o nosso mercado como a nossa geografia. Mas temos bons exemplos, como a Farfetch.

"Temos de aumentar drasticamente a produtividade portuguesa, e isso passa por ter mais capacidade de investimento e por remunerar o trabalho de forma diferente…”

E como se vende o país?

Do ponto de vista do turismo, não é preciso fazer nada, basicamente. A nossa luta é mostrar que Portugal é muito mais do que o turismo e as provas que damos ao nível da exportação são um bom exemplo. O que nos falta? Mais talento. Há falta de talento. É preciso a coragem para apostar na formação de talento profissional e tecnológica. Um exemplo: Portugal precisa de programadores e, sinceramente, não é preciso ter licenciados para programar. Em segundo lugar, temos de atrair e reter inteligência e talento internacional.

Qual é a relação das universidades com as empresas?

Em primeiro lugar, a qualidade dos nossos alunos é do melhor que há, e a nossa métrica passa pela exportação de serviços e pela transferência de pessoas para outras ‘Accenture’ no mundo e que têm bons desempenhos. É preciso mais quantidade, mas tenho de voltar ao tema, temos de apostar no ensino técnico, porque temos um gap enorme. De programação, por exemplo.

E como é que se retém talento?

É muito difícil, é um grande desafio, e o que temos de perceber é que o talento não está apenas nas grandes cidades. Há uma parte sociológica que explica essa dificuldade de retenção, porque estão mais disponíveis para mudar de emprego e de país. Reconhecendo essa dificuldade, há cidades em Portugal, perto de grandes universidades, com excelente talento e onde as pessoas têm mais interesse em permanecer nesses locais. A Accenture apostou em Braga, com uma universidade que é de referência. E é talento que valoriza o trabalho que faz na Accenture em Braga. Temos de descentralizar o talento.

E quais são os resultados do centro tecnológico em Braga, inaugurado há dois anos?

O centro em Braga tem dois mundos: um de grandes soluções empresariais, de relação com os clientes, e outro de soluções digitais, mais focado em use cases concretos. Há cerca de dois anos, tínhamos 50 pessoas e o objetivo de chegar a 100 colaboradores, e chegámos aos 300, pessoas qualificadas, a maior parte a trabalhar em projetos de exportação. E também permitiu criar competências que servem o mercado nacional que não poderíamos fazer sem essa massa crítica das exportações. Os clientes já aceitam fazer projetos em Lisboa ou no Porto a partir de Braga. E para 2020, o talento continuará a ser uma prioridade.

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