• Entrevista por:
  • Juliana Nogueira Santos

Lauren Simmons, a única mulher no floor da bolsa de Nova Iorque

Com 23 anos, a afro-americana é a única mulher neste mundo dos números e dos homens. Ao ECO conta como é ser trader na NYSE.

Lauren entrou pela primeira vez no floor do New York Stock Exchange como trader em 2017, mas nada no seu percurso fazia adivinhar que esse passo ia ser dado algum dia. A jovem de 23 anos licenciou-se em genética, tendo passado ainda por um curso de engenharia e um minor em estatística. Dos genes passou para os títulos, sendo agora a única trader do género feminino a tempo inteiro na bolsa.

“A oportunidade de estar no piso de negociação fez sentido por causa do meu passado com estatística e com os números, essa linguagem universal que toda a gente entende”, recorda Lauren Simmons em conversa com o ECO. “Na entrevista adoraram o percurso porque a genética também tem um lado muito analítico, porque há muita investigação e análise envolvidas.”

Já na Universidade Estatal de Kennesaw, onde se licenciou, afirmava ser uma das poucas mulheres entre homens, por estar numa área das ciências exatas que habitualmente é escolhida por estes. “Na maioria das cadeiras que fiz na faculdade, as que tinham a ver com matemática ou engenharia, fui sempre a única mulher de uma turma de 30, ou havia apenas outra”, continua.

Lauren é também a trader mais nova da NYSE.DR

Passou pelo comércio e pelo atendimento a clientes, tendo depois dado o primeiro passo na área das finanças. “O mais difícil foi conquistar o crachá, porque é preciso fazer um exame de corretora“, aponta Lauren. “Quando cheguei, diziam coisas como ‘nem toda a gente passa no exame’, que não era uma questão de inteligência. Já tinha sido contratada mas se não passasse não podia negociar.”

"O que acontece é que muitas mulheres não se candidatam a estas posições ou não têm a confiança de se verem a ocupar aquela posição algum dia. Se tivéssemos mais pessoas a encorajar as mulheres e as jovens, a dizer que podem ter sucesso em qualquer campo dominado por homens e trabalhar tal como eles, as coisas mudavam.”

Lauren Simmons

Aprovada no exame e com o crachá na mão, Lauren viveu os primeiros dias rodeada de olhares, como acontece sempre que há num escritório um novo colega. “Qualquer pessoa nova que chegue ao floor vai suscitar a curiosidade de toda a gente. Vão fazer muitas perguntas, mas isso diminui passado um mês”, aponta.

Lauren Simmons ao lado de Richard Rosenblatt na abertura da NYSE.DR

Lauren é também a trader mais nova, o que fez com que a curiosidade inicial fosse substituída pelo companheirismo. “Os meus colegas querem ver-me crescer, querem ensinar-me, querem que eu tenha muito sucesso no setor financeiro, não só naquele sítio. Todos têm sido meus mentores.”

“Tenho um ataque cardíaco todos os dias”

Pode nunca ter entrado num piso de negociação de qualquer bolsa mundial, mas por aquilo que nos chega dos filmes, das séries ou até das notícias, é local de grande stress e ansiedade. Aí funciona o coração dos mercados, dão-se as ordens de compra e venda, nascem monopólios e caem impérios. É uma sala onde os nervos estão à flor da pele, onde as palavras são trocadas por gritos e os corações nunca estão quietos. E o de Lauren para um bocadinho todos os dias.

“Os problemas surgem de um momento para o outro e têm de ser resolvidos muito depressa. Enquanto na maioria dos empregos, os empregados têm tempo para reuniões e discussões, ali temos de tentar utilizar a melhor parte do cérebro para resolver a questão. Os clientes não nos vão dar uma semana para falar sobre o assunto e apresentar soluções”, narra, entre risos, Lauren.

"Enquanto na maioria dos empregos, os empregados têm tempo para reuniões e discussões, ali temos de tentar utilizar a melhor parte do cérebro para resolver a questão. Os clientes não nos vão dar uma semana para falar sobre o assunto e apresentar soluções.”

Lauren Simmons

A instantaneidade e a adrenalina são o ambiente do piso das 9h30 às 16h, como nos diz a trader: “Os últimos cinco minutos do dia são os mais stressantes, mas acho que tenho um ataque cardíaco todos os dias. Mas uma das lições que me ensinaram é desligar assim que saio, para conseguir equilibrar a minha vida pessoal e profissional.”

Ainda assim, Lauren afirma que é uma das mais calmas do floor, não por ser mulher mas pela sua naturalidade. “Sou do sul dos Estados Unidos e a nossa personalidade é muito calma, não como no norte onde as pessoas têm muita pressa. Sempre que as coisas ficam muito stressantes, eu sou uma das mais calmas”, diz.

Uma mulher num piso de… robôs

Lauren pode até ser a única mulher a trabalhar a tempo inteiro no floor da NYSE, mas até os homens estão a desaparecer. A modernização dos processos e a concorrência entre gestores está, como acontece em tantos outros setores, a deixar as funções antes levadas a cabo pelos humanos nas mãos dos computadores.

“Há pessoas que estão lá há muito tempo e que vão continuar a estar, que têm já um legado”, conta Lauren. Mas para além de as vagas estarem a ser ocupadas pelos robôs, a ambição dos traders mais jovens não se fica por ali. “Ficam dois ou três anos lá e depois começam a fazer outras coisas. Ganham as ferramentas que não podem ser adquiridas em mais nenhum lugar” e partem depois para novos desafios.

A trader no floor da New York Stock Exchange.DR

Ainda assim, a NYSE orgulha-se de ser uma bolsa que “não descarta a influência humana”, como afirma um dos responsáveis pela gestora de Nova Iorque, citado pelo Quartz. “Queremos assegurar que existe já um acompanhamento apropriado.”

Já Justin Schack, sócio do banco de investimento que emprega Lauren, afirma que a intervenção humana é imprescindível numa hora de crise. Ao mesmo site, recorda do caso da Knight Capital, uma gestora que, em 2012, teve um bug num dos seus computadores que fez desaparecer 440 milhões de dólares dos seus clientes em apenas 30 minutos.

No meio de humanos ou máquinas, a trader de 23 anos afirma que a possibilidade de ter uma voz numa sala tão forte é, para si e para os seus colegas “uma lufada de ar fresco”.

Setor financeiro precisa de mais mulheres

Por existir apenas uma mulher a trabalhar no floor da NYSE, é visível uma tendência que não está só nos mercados. Está no setor das finanças em geral. E a culpa está de que lado, nos empregadores ou nas mulheres? Lauren afirma que está nos dois.

Espero que, daqui para a frente, as pessoas se apercebam de que as mulheres podem e devem estar em lugares de liderança

Lauren Simmons

“O que acontece é que muitas mulheres não se candidatam a estas posições ou não têm a confiança de se verem a ocupar aquela posição algum dia”, detalha. “Se tivéssemos mais pessoas a encorajar as mulheres e as jovens, a dizer que podem ter sucesso em qualquer campo dominado por homens e trabalhar tal como eles, as coisas mudavam.”

Como exemplo deste encorajamento, a trader vê como exemplo a nomeação de Stacy Cunningham para a liderança da bolsa em que trabalha. “Está a ser um grande ano para as mulheres, e é para ela uma grande plataforma, um grande marco. Espero que, para a frente, as pessoas se apercebam de que as mulheres podem e devem estar em lugares de liderança.”

Já na bolsa concorrente, a Nasdaq, Adena Friedman entrou em 2017 para o lugar de Bob Breifeld, que foi presidente da gestora durante 14 anos. Adena entrou para a Nasdaq em 1993, como estagiária, e desde então não parou de avançar.

Assim, Lauren deixa a porta do piso de negociação bem aberta, sem tetos de vidro ou escadas a subir. “As mulheres que queiram vir para o setor financeiro, ou mesmo para o piso de negociação, vão ter a capacidade de liderar uma sala, primeiro porque nos vamos juntando e depois, sempre que falarmos, temos muito a dizer e seremos ouvidas.

  • Juliana Nogueira Santos
  • Redatora

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