Paulo Macedo: “A Caixa tem liquidez, rácios de capital e quer dar crédito”

Paulo Macedo diz que a Caixa tem disponibilidade e vontade de dar crédito às famílias e empresas. E considera que tem de manter dimensão relevante para desempenhar o papel de banco público.

A Caixa Geral de Depósitos tem liquidez e rácios e quer emprestar dinheiro aos portugueses, assegura o presidente Paulo Macedo, em entrevista ao ECO24. Justifica a quebra na concessão de crédito com a redução do malparado do balanço e diz ainda que o banco público não quer voltar a ter uma exposição tão grande aos setores da construção e imobiliário como teve no passado.

As suas expectativas são hoje melhores do que aquelas que tinha quando aceitou o convite para liderar a Caixa há um ano?

As expectativas são melhores. Além da conjuntura económica, também existe o trabalho das pessoas da Caixa.

Então porque houve uma redução do crédito às famílias e às empresas?

Há desde logo uma menor procura de crédito em Portugal do que existia em 2008 e 2010. Por outro lado, os bancos grandes não estão a ver o crédito a crescer suficientemente para compensar a amortização das suas carteiras, designadamente de crédito à habitação, que tiveram picos em 2008, 2007 e 2006.

É preciso fazer um forcing na concessão de crédito?

Temos uma mensagem muito clara: a Caixa tem liquidez, rácios de capital e quer dar crédito. E temos dito isso todos os meses, de Norte a Sul do país, aos empresários.

Mas não deu tanto como deu em 2016. O que verificamos é que a concessão de crédito para as empresas caiu em 2017 entre 2.000 a 3.000 milhões de euros. A Caixa tem provavelmente menor quota de mercado no financiamento às empresas do que tinha no final de 2016?

Não necessariamente. Os bancos de grande dimensão reduziram todos o seu crédito entre 1.000 a 2.000 milhões só pela redução do malparado. Só através de write offs e vendas de créditos. Assim que faço um write off ou a venda de um crédito non performer, eu estou a abater esse crédito ao ativo. Portanto, o que é de esperar é que ao longo de um tempo uma parte desse crédito seja abatido ao ativo dos bancos.

Se a Caixa tem liquidez, não empresta porquê?

As empresas estão a pedir crédito, mas não em quantidade compatível com o clima de confiança económica que os empresários têm evidenciado. O que faz a formação bruta de capital fixo em Portugal? Está fortemente dependente da construção. O que tivemos foi uma redução muito significativa na construção, no imobiliário ao longo destes anos. Foi um dos objetivos da economia diminuir a exposição de crédito aos setores ditos não transacionáveis. Isso aconteceu. É muito difícil o crédito voltar para níveis significativos sem algum investimento na parte da construção e na parte do imobiliário, porque são setores de arrastamento da economia.

Não corremos o risco de termos uma nova bolha com a exposição dos bancos ao imobiliário e construção?

A Caixa não tem vontade de ter uma tão grande exposição aos setores da construção e imobiliário como já teve. Agora, a Caixa tem vontade de acompanhar os bons riscos, os bons projetos.

Mas esses todos têm.

Mas há aqui uma nova componente: há uma componente de procura externa que está muito acentuada e que não existia há alguns anos. Na parte residencial do Porto e Lisboa, tem havido muito investimento estrangeiro. Até agora este investimento estrangeiro tem sido muito em termos de requalificação.

É expectável que surjam esses novos projetos face à dinâmica do setor?

Se houver mais oferta, em princípio os preços baixam. Portanto, há esse intuito para não haver essa tal bolha. Por outro lado, em termos de crédito, eu penso que há por regras limites muito mais prudentes do que no passado. Até estas novas regras do Banco de Portugal e que passam a ser aplicadas a partir de junho, a Caixa vê com muito bons olhos.

Os clientes que contraem agora empréstimos estão cientes de que as taxas de juros vão começar a subir nos próximos anos?

Eu penso que sim e é por isso que a Caixa tem ofertas de crédito a taxa fixa a três, a cinco, a 12 e a 15 anos. Aconselhamos os clientes que querem cortar com o risco, que querem evitar oscilações durante um período muito longo, a poder pagar algo mais agora e ter proteção no futuro.

A Caixa fica confortável com o nível de concessão global de crédito em torno dos 50 mil milhões de euros? É um valor confortável para a Caixa?

Temos vários objetivos. Para desempenhar o seu papel de banco público, a Caixa tem de ter uma dimensão relevante. Uma das características é poder suprir eventuais falhas do mercado. Para isso, não é com uma quota de 4% a 7% que isso se faz. Tem de ter relevância. Por outro lado, independentemente do valor do crédito, há indicadores base, nomeadamente o peso entre depósitos e crédito. Para nós, é importante estarmos acima dos 90%. Não ficar com os rácios de 120% ou 140% ou até mais como aconteceu no passado, mas o rácio de transformação entre 90% e 100% seria o nosso objetivo.

Disse no Parlamento que havia necessidade de a Caixa manter uma liderança de mercado. As recentes fusões e aquisições poderiam levar a Caixa a perder essa liderança. É fundamental que mantenha a liderança de mercado?

A Caixa para se justificar como banco público, para poder desempenhar a sua missão como banco público tem de ser uma instituição relevante no sistema financeiro português. Se a quota de mercado é 21%, 22% ou 23%, não é nada de mágico aí. Mas a posição que a Caixa tem no crédito de médio e longo prazo, quer junto das famílias no crédito à habitação, quer junto das empresas através das linhas capitalizar a médio e longo prazo, isso para nós é algo que é essencial.

A Caixa quer ser líder na captação dos depósitos e ter a sua principal fonte de financiamento, não no mercado de capitais, mas junto das poupanças dos portugueses. É algo que para nós é muito relevante, tal como é poder servir as famílias e as empresas não só nesta relação de longo prazo. Mas queremos também a relação de curto prazo, queremos a tesouraria das empresas, poder trabalhar com os pagamentos, na parte internacional, por exemplo, a Caixa tem uma clara vantagem competitiva em estar em Angola e em Moçambique.

Está mesmo a vender Espanha?

Estamos num processo de venda de Espanha. Foi publicado um decreto-lei nesse sentido. E a África do Sul.

  • Paula Nunes
  • Fotojornalista

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