O novo líder dos ismaelitas é uma fusão de várias influências distintas e, por cá, vai liderando a comunidade de milhões e aproveitando as ondas de Cascais, para surfar sempre que pode
Quando, a 5 de fevereiro deste ano, foi aberto o testamento de Aga Kahn IV, falecido pouco antes em Lisboa, a comunidade ismaelita não ficou surpreendida com a escolha do sucessor. Segundo a tradição, a sucessão é hereditária mas não é comunicada em vida pelo líder espiritual dos ismaelitas, que deixa escrito antecipadamente quem pretende que se lhe siga. Neste caso, a escolha caiu sobre Rahim Al-Hussaini, o filho mais velho, algo que sendo habitual não é obrigatório.
Na verdade, o próprio Aga Khan IV foi exemplo de uma decisão diferente, tendo recebido o poder através do testamento do seu avô, que decidiu deixar no documento a nomeação do neto, em detrimento do filho, por pretender alguém mais jovem a liderar a comunidade. Karim al-Husseini, em 1957, foi designado líder quando tinha apenas 20 anos, liderando os xiitas ismaelis durante quase 70 anos.
Estava doente há algum tempo e a questão da sua sucessão era natural tema de curiosidade. Para os membros da comunidade mais próximos do núcleo familiar, as apostas dividam-se entre o filho mais novo, Aly, e o filho mais velho, Rahim. Estes contam ainda com outro irmão, Hussain, e uma irmã, Zahra, a mais velha dos quatro, mas que sendo mulher estava afastada da primeira linha de sucessão. À medida que Aga Khan IV se foi aproximando do fim da vida, foi reforçando a responsabilidade – nomeadamente de representação – no seu filho Rahim. Foi, assim, sem surpresa, que chegou a notícia da subida deste ao lugar de Imam, aos 53 anos.
Das imagens das cerimónias fúnebres e de designação do novo Imam fica uma figura naturalmente afetada pela perda do pai, mesmo que de certa forma esperada, mas também pelo peso da responsabilidade que acabava de assumir: liderar uma comunidade religiosa de entre 12 e 15 milhões de pessoas, espalhadas por mais de 30 países.

Conhecidos pela sua riqueza e pela filantropia, os ismaelitas têm, na base e no centro, uma longa tradição religiosa, que retrocede séculos até ao próprio profeta Maomé. Segundo esta fé, os muçulmanos xiitas ismaelitas seguem um líder, o Imam, que é descendente direto de Maomé. Tudo começou há 1400 anos, quando o primo do profeta, Ali, casou com a filha daquele, Fatima, a sua única descendente. O novo Aga Khan é, portanto, o último descendente desta linha a liderar os ismaelitas. Por curiosidade, Rahim é o 50º Imam mas apenas o 5º Aga Khan, uma vez que este título só começou a ser utilizado na primeira metade do século XIX, quando o rei persa Fath-Ali Shah Qajar o atribuiu a Hasan Ali Shah, que passou a usar o título de Aga Khan.
O núcleo central dos ismaelitas tem origem no Médio Oriente, nomeadamente no Irão, mas no século XIX a família teve bases no Afeganistão, no atual Paquistão e na Índia. É dessa altura o estreitamento de relações com os ingleses e um processo de “ocidentalização” que se acelerou com Aga Khan III, que na altura da I Guerra Mundial se mudou para a Europa. Este movimento é importante porque moldou a personalidade dos Aga Khan seguintes, e também do atual, Rahim.
Este nasceu a 12 de outubro de 1971, em Genebra, cidade suíça que continua a ser uma importante base da vida familiar e na qual o seu pai também havia nascido. Estudou na Philips Academy Andover, nos Estados Unidos, e formou-se em 1995 na Universidade Brown, do mesmo país, com um bacharelato em Literatura Comparada, antes de concluir um programa de desenvolvimento executivo em gestão e administração na IESE Business School da Universidade de Navarra, em Barcelona, Espanha.
Tem dois filhos da sua ex-mulher, a princesa Salwa: os príncipes Irfan e Sinan, nascidos em 2015 e 2017, respetivamente. A princesa Salwa é uma cidadã norte-americana, nascida Kendra Irene Spears, e uma ex-modelo.

Curiosamente, também aqui o Príncipe Rahim está a seguir os passos do pai, cuja primeira mulher (e mãe de Rahim), a princesa Salima, era uma cidadã britânica, nascida Sarah Croker-Poole, e uma antiga modelo.
O Aga Khan V é, assim, uma mescla de várias influências. Por um lado, vem de uma longa descendência eminentemente religiosa, com origens no Médio Oriente mas com a base da sua liderança na Europa, nomeadamente em Portugal a partir de 2015. Por outro, tem também o lado do jet-set internacional, pelo qual os seus antecessores mais próximos ficaram conhecidos, recebidos por todas as grandes figuras mundiais, frequentadores de círculos ricos e exclusivos. E, claro, milhões de fiéis espalhados um pouco por todo o mundo, alguns em zonas deprimidas, ao mesmo tempo que tem uma fortuna avaliada em mais de 10 mil milhões de dólares (embora não exista uma fonte certa que o possa certificar).
Da mesma forma, concilia em si um lado mais cultural – como atestam os seus estudos em literatura – com o lado religioso e de gestão, essencial para assegurar a liderança da comunidade.
O papel da rede Aga Khan
A face mais visível do impacto dos ismaelitas no mundo é a Rede Aga Khan para o Desenvolvimento, composto por várias agências e centenas de iniciativas. O trabalho de todas as agências da AKDN está concentrado em mais de 30 países, principalmente em áreas carenciadas da Ásia Meridional e Central, África Oriental e Ocidental e Médio Oriente. Outros programas, nomeadamente no setor da educação e da cultura, funcionam na Europa e na América do Norte, assim como na Ásia e em África, de acordo com o site da organização. O financiamento de todas estas atividades tem várias fontes. Parte vem de parcerias estabelecidas com entidades públicas ou privadas locais; parte vem de uma dotação do Aga Khan e outra parte vem de uma rede de empresas – com fins comerciais – que têm como objetivo financiar as atividades filantrópicas da comunidade.
O Príncipe Rahim está ativamente envolvido na gestão da Rede Aga Khan para o Desenvolvimento há mais de 20 anos, na qual integra vários órgãos. Era até aqui presidente do comité executivo do Fundo para o Desenvolvimento Económico (AKFED) e supervisionava o ciclo anual de planeamento orçamental da instituição.
Rahim Aga Khan presidiu também ao Comité para o Ambiente e o Clima, que lidera o trabalho da rede na proteção ambiental e mitigação dos efeitos das alterações climáticas, o que inclui um compromisso em garantir que as operações globais da rede atingem zero emissões líquidas de carbono até 2030.
A (nova) vida em Lisboa
Neste seu primeiro ano enquanto Imam, Aga Khan V tem andado quase sempre em trânsito. As suas bases mais estáveis são Genebra, onde os seus filhos estão na escola, e Lisboa, onde está a tão ansiada sede do Imamat Ismaili. A 3 de Junho de 2015, o Imamat Ismaili e a República Portuguesa assinaram um importante acordo que permitiu a criação de uma sede formal do Imamat Ismaili em Portugal, assinalando assim um marco histórico para uma comunidade dispersa e que nunca teve realmente uma “casa”.
Esta casa é Palácio Henrique de Mendonça, na Rua Marquês de Fronteira, em Lisboa, a partir do qual funciona toda a gestão das atividades da Rede Aga Khan. Essa propriedade não serve, porém, como casa do Aga Khan, que tem uma residência privada na capital portuguesa.
O Príncipe Rahim conhece e frequenta Portugal há vários anos, com natural reforço desde a instalação da sede mundial em Lisboa. Nos últimos anos, com a doença de Aga Khan IV a impedi-lo de viajar com a frequência de antes, tanto Rahim como os irmãos foram passando mais tempo na capital portuguesa, muitas vezes revezando-se: enquanto uns iam pelo mundo em visitas aos projetos locais da Rede Aga Khan, havia quase sempre alguém que ficava junto do pai.
Para já, Rahim não tem tido muito tempo livre, uma vez que este início do seu mandato obrigada a constantes viagens, que servem para se apresentar nas várias representações e projetos da Rede Aga Khan pelo mundo mas também para a apresentação de cumprimentos formais às autoridades desses países. Esteve recentemente, por exemplo, com Emmanuel Macron, com o Presidente moçambicano ou com o presidente do Banco Mundial, entre outros líderes mundiais.
Ainda assim, pelo que o ECO apurou, Aga Khan V gosta muito de Portugal, em particular Lisboa e Cascais, que conhece melhor. E aproveita, no raro tempo livre que tem por cá, para fazer surf numa das praias da zona de Cascais, atividade naturalmente impossível na Suíça. Tem, aliás, um professor de surf português, que o acompanha nessas horas, no mar. Tem também dois ou três amigos portugueses, com quem costuma conviver socialmente.
Muito ligado aos seus dois filhos, faz questão de passar tempo com eles sempre que pode, trazendo-os para Portugal enquanto eles estão de férias escolares.

Afável e reservado
Do pai, Rahim herdou algumas características, como a extrema afabilidade no contacto direto, o que se verifica tanto na relação com dirigentes políticos como com todas as pessoas com quem se cruza e trabalha. Esta “gentileza” e “acessibilidade”, apontada por quem tem experiência direta no trato com Aga Khan V, dá lugar a uma certa contenção em momentos e contactos oficiais. Isto contrasta com o extremo à-vontade que tinha o seu pai, conhecido pela extrema simpatia. No entanto, Rahim tem também essas características embora alguma timidez e falta de experiência a este nível mais elevado possam passar uma imagem mais institucional.
A missão do líder dos ismaelitas não se alterou, naturalmente, continuando a focar-se na melhoria das condições de vida das pessoas (de todas, e não apenas as que partilham a mesma fé) e numa postura de diálogo político, cultural e inter-religioso. No entanto, o mundo mudou nas últimas décadas e tal acelerou nos últimos anos. O Aga Khan V já vinha dedicando boa parte do seu tempo e atenção às questões do clima e do seu impacto sobre as comunidades humanas, nomeadamente as mais desfavorecidas. Este é um tema cada vez mais atual e deverá continuar a estar no topo das suas prioridades. No dia a dia, são notadas internamente algumas mudanças no estilo de gestão e condução dos trabalhos face ao pai, fruto de ser uma pessoa mais nova e de uma geração diferente.
Mas as prioridades continuarão a ser as mesmas e Lisboa continuará a ser o centro da decisão.
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Aga Khan V, uma junção de dois mundos nas ondas de Cascais
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