Da mão que salva o euro ao pulso firme sobre o futuro. Oito anos depois, liderança de Draghi no BCE chega ao fim

Mario Draghi liderou o BCE durante a maior crise financeira moderna da Zona Euro e sai como salvador. Mas as decisões que, para isso, tomou não foram consensuais e as divisões fazem sombra ao legado.

Nem era suposto vir a ocupar o lugar, mas acabou por ser o presidente do Banco Central Europeu (BCE) que revolucionou o euro e salvou a moeda única. Oito anos depois, um mandato marcados por uma crise global, cinco países europeus em risco de falência, instrumentos monetários nunca antes vistos e uma guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo, Mario Draghi está de saída. Passa a pasta a Christine Lagarde, mas o seu legado perdurará.

Axel Weber, presidente do alemão Bundesbank, iria suceder a Jean-Claude Trichet e todos o sabiam até porque a uma liderança francesa seguir-se-ia uma alemã. Em fevereiro de 2011, tudo viria a mudar quando Weber sai. Na altura, alegou razões pessoais, mas as incompatibilidades com a política monetária adotada pelo BCE e com Trichet lançavam suspeitas de que seria mais do que isso. A subsequente saída de Juergen Stark, economista-chefe e também alemão, confirmava as suspeitas.

A braços com uma crise financeira importada dos Estados Unidos e transformada em crise das dívidas soberanas que arrasava os países do sul, o BCE ainda sob a liderança de Trichet lançava as fundações para uma política monetária inovadora. Primeiro com a coordenação inédita entre Mervyn King, do Banco de Inglaterra, e com Ben Bernanke, da Reserva Federal, na altura de cortar juros e na disponibilização de divisas em euros, dólares e libras entre ao sistema financeiro. Mas com a Grécia perto da bancarrota no final da primavera de 2010, cortar juros já não chegaria e Trichet anunciava, em 2010, que o BCE iria comprar dívida pública.

Ficou assim o caminho aberto a um italiano, economista e banqueiro central, que não teria a vida facilitada e pegou na frincha entreaberta por Trichet para abrir, de par em par, as portas do BCE a políticas monetárias não convencionais.

“Draghi foi muito inovador ao explorar ao máximo a flexibilidade limitada dentro do mandato do BCE”, considera Éric Dor, diretor de estudos económicos da francesa IÉSEG School of Management. “Mario Draghi normalizou o BCE pelo que agora parece-se com outros bancos centrais. Quando ele chegou, este banco central usava um conjunto muito limitado de instrumentos em comparação com outros bancos centrais devido ao mandato legal muito restritivo e ao enquadramento operacional”, acrescenta.

26 de julho de 2012. Whatever it takes

As circunstâncias obrigaram-no a isso. Trichet tinha dado o mote, a Reserva Federal norte-americana atuava em força no mercado e a crise não lhe dava grande margem de manobra. Primeiro a Grécia e depois a Irlanda, ambos em 2010, mais tarde Portugal em abril de 2011, anunciaram que não tinham forma de fazer frente às responsabilidade financeiras e pediram ajuda externa. Draghi chegou e começou logo a cortar taxas de juro.

Nessa altura, a escala do problema ainda era vista como limitada aos países que não tinham feito o seu trabalho de casa, mas ainda assim pequenos e sem impacto sistémico no euro. Foi quando as fragilidades dos bancos em Espanha e Itália começaram a ameaçar atirar os dois países para fora do euro, que se deu o ponto de viragem. O Fundo Europeu de Estabilização Financeira garantia que não havia dinheiro para salvar as duas economias e os mercados atingiram o pico de stress no verão de 2012.

Mario Draghi normalizou o BCE pelo que agora parece-se com outros bancos centrais. Quando ele chegou, este banco central usava um conjunto muito limitado de instrumentos em comparação com outros bancos centrais devido ao mandato legal muito restritivo e ao enquadramento operacional.

Éric Dor

IÉSEG School of Management

Rui Serra, economista-chefe do Banco Montepio, lembra que o Sentix Euro Break-up Index, que mede a probabilidade de a Zona Euro terminar, atingiu um valor máximo de 73% em julho de 2012. “No dia 26 de julho de 2012, Draghi proferiu a mais famosa e determinante frase do seu mandato”, lembra. “Foi, claramente, o presidente do BCE que mais contribuiu para a preservação do euro”.

Foi a partir de Londres que Draghi proferia as palavras: “O BCE está preparado para fazer tudo o que for preciso para preservar o euro. E acreditem, será suficiente”. Tornaram-se famosas e foram as responsáveis por Draghi ser visto como salvador do euro. No mês seguinte, viria a confirmar-se que a garantia era para cumprir com o lançamento das transações em mercado secundário de dívida, OMT.

4 de setembro de 2014. A bazuca

“Mario Draghi cumpriu a promessa de fazer «tudo o que fosse preciso» para salvar o euro”, acredita Steven Bell, diretor-geral e economista chefe da BMO Global Asset Management. “Nesse processo, tornou o BCE inovador na política monetária. Levou o conselho de governadores a adotar políticas que foram especialmente benéficas para os países periféricos”.

“Para os seus críticos, ficou próximo de quebrar o princípio de não resgate e não financiamento de governos. Para os seus apoiantes, afastou os riscos de deflação e de desmembramento da Zona Euro“, sumariza Bell. É exatamente esta a dicotomia: salvador vs incumpridor, consoante os pontos de vista (que tendem a estar associados ao país de origem de quem fala). A razão para a diferença prende-se com todo o armamento que Draghi trouxe para o combate à crise.

Depois de ter colocado — pela primeira vez na história do BCE — a taxa de juro de referência em 0% e a taxa de depósitos em “terreno” negativo, Draghi anuncia em setembro de 2014 um programa de obrigações hipotecárias, a começar no mês seguinte. Este viria a ser alargado a dívida pública em 2015 e dívida privada em 2016.

Draghi levou o conselho de governadores a adotar políticas que foram especialmente benéficas para os países periféricos. Para os seus críticos, ficou próximo de quebrar o princípio de não resgate e não financiamento de governos. Para os seus apoiantes, afastou os riscos de deflação e de desmembramento da Zona Euro.

Steven Bell

BMO Global Asset Management

Depois do discurso de 2012, o segundo momento mais importante do mandato de Draghi foi o lançamento do quantitative easing (QE), na perspetiva de Jörg Krämer, economista-chefe do Commerzbank. “Isto, na minha opinião, foi exagerado”, defende.

“A inflação abaixo da meta do BCE é um problema menor, que reflete travões estruturais à inflação como a globalização ou a digitalização. Apesar disso, ele impôs a compra alargada de dívida com efeitos negativos significativos, incluindo retirar capacidade reformista aos países, causar uma subida significativa dos preços de ativos como o imobiliário — o que não acontece só na Alemanha e cria o risco de bolha a longo prazo — ou criar empresas zombie. O problema que queria resolver não justifica realmente estes efeitos negativos severos. É este o meu veredicto sobre Draghi”, sublinha Krämer.

A opinião não é única. Pelo contrário, é até bastante comum na Alemanha, sendo inclusivamente partilhada pelo atual presidente do Bundesbank, Jens Weidmann. O italiano é acusado de ter encontrado formas de contornar o tratado europeu e violar, por isso, o seu espírito. Desde 2015 que quase todos os anos o caso é levado ao Tribunal Constitucional da Alemanha e Draghi já se viu obrigado a defender as tuas decisões no Tribunal Europeu de Justiça.

Fotomontagem: Lídia Leão / ECO

22 de junho de 2016. Exclusão da Grécia

Mas a estratégia parecia estar a resultar. Com ajuda financeira externa e o impulso da retoma global, os países em maiores dificuldades começavam a recuperar. Portugal, que havia implementado duras medidas de austeridade que levaram milhares de pessoas a manifestarem-se nas ruas, conseguia sair do programa de ajustamento sem rede de segurança em 2014. A Irlanda já o tinha feito, enquanto o contágio nos bancos espanhóis e italianos parecia estancado.

A Grécia era, no entanto, o problema. Em profunda crise e revolta social, o país não conseguia eleger um novo Presidente e foi para eleições antecipadas quando parece que está finalmente a recuperar e já depois de ter testado os mercados pela primeira vez. Quando o Governo de esquerda radical Syriza chegou ao poder, rompeu com a austeridade imposta pela troika e com as imposições europeias.

O risco de uma cisão na união monetária voltou a aumentar e Draghi não demorou a agir. Em março de 2015, alargou o programa com compras mensais de dívida de 60 mil milhões de euros, durante um ano. Não chegava e viria a ser aumentado para 80 mil milhões por mês a partir de abril de 2016, mas com uma novidade: a Grécia ficava de fora.

A decisão agradou aos mais críticos que há muito reclamavam do apoio do BCE a Atenas. Isolado o problema, os restantes países da Zona Euro cresciam, permitindo ao BCE seguir novamente as pisadas da Fed e começar a normalizar a política monetária. A compra de ativos recuou em abril de 2017 para 60 mil milhões de euros, ano em que a economia mundial recuperou em bloco, e a tendência manteve-se: entre janeiro e setembro de 2018 foram apenas 30 mil milhões. E no último trimestre do ano passado, 15 mil milhões. Mas no meio, houve uma surpresa.

20 de janeiro de 2017. Efeito Trump

Os populismos não se cingiram à Grécia. Ameaçaram toda a Europa entre 2016 e 2018, a começar com a votação do Brexit e alastrando às eleições em países como Itália, França, Espanha, Áustria, Eslováquia ou República Checa. Se na Zona Euro, o risco pareceu contido, o mesmo não aconteceu nos Estados Unidos. O magnata do imobiliário Donald Trump chegou à presidência da maior economia do mundo e lançou uma onda de protecionista global.

O primeiro alvo numa guerra comercial, que ainda dura, foi a China, mas a União Europeia também se viu envolvida, tal como o Japão e vários países no continente americano, prejudicando o comércio global como um todo. “Não sabemos o tamanho final disto, mas sabemos que será grande e devemos estar preparados para isso”, dizia Draghi no Parlamento Europeu, em setembro do ano passado. O “protecionismo” passou a estar presente nos discursos do presidente do BCE como uma das principais ameaças à região.

Foi exagerado. O problema que queria resolver não justificava realmente estes efeitos negativos severos. É este o meu veredicto sobre Draghi.

Jörg Krämer

Commerzbank

O impacto da guerra comercial na economia global e o fim de ciclo de crescimento — com a Zona Euro a desacelerar desde o final de 2017 — começaram a pesar nos pensamentos do BCE. A normalização já não era tão certa e, desde o início deste ano, que se percebeu que afinal não haveria inversão na política monetária europeia.

Em junho, Sintra foi o palco escolhido por Draghi para o confirmar. A cinco meses de terminar o mandato à frente do BCE, e com muitos dos potenciais sucessores na audiência, o italiano declarou: “Na ausência de melhorias, de tal forma que o regresso sustentado da inflação à nossa meta é ameaçado, serão necessários estímulos adicionais“. No mês seguinte, dizia-se “preocupado” com a economia e anunciava que o BCE estava a preparar um pacote de estímulos.

Prometeu e cumpriu. Para dar resposta à necessidade de ajudar a economia do euro, o BCE decidiu em setembro cortar a taxa de depósitos para um nível ainda mais negativo, passando-se para -0,50% (do anterior -0,40%), mas criando dois escalões para mitigar o impactos nos bancos. Ao mesmo tempo, relançou a compra líquida de ativos no valor de 20 mil milhões de euros por mês a partir de novembro.

1 de novembro de 2019. E agora?

É este o cenário que irá encontrar a sucessora de Draghi, a ex-presidente do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde. Pode não ser tão pessimista quanto o que o italiano encontrou, mas a francesa poderá ter igualmente de lidar com uma nova crise. Com duas nuances: já tem o caminho inicial traçado e encontra um BCE dividido.

Após as decisões, uma série de Governadores falaram publicamente contra a decisão imediatamente após a decisão — algo inédito –, entre eles os governadores do Banco Central da Alemanha, da Holanda e da Áustria. Anonimamente, houve mesmo quem acusasse Mario Draghi de ter ignorado quem discordou das medidas, apesar de ter anunciado a decisão como unânime, chegando mesmo a dizer que o Comité de Política Monetária emitiu um parecer contra, algo que este grupo composto por dois membros de cada banco central nem sequer faz.

“A desvantagem do ativismo e da tenacidade de Draghi é que as suas ações dividiram crescentemente os representantes dos diferentes países”, explica Éric Dor. “Neste momento em que será substituído pela sua sucessora, a divisão dentro do conselho de governadores está em máximos”, diz.

A sucessora de Draghi estará obrigada a aplicar o que já está desenhado. Tem alguma flexibilidade para calibrar os parâmetros, mas as principais direções já estão decididas por um período relativamente longo.

Éric Dor

IÉSEG School of Management

A divisão não é só dentro do conselho, mas também na opinião pública e entre economistas. Por um lado, o britânico Steven Bell considera que as recentes decisões são “necessárias para responder ao enfraquecimento da economia e falha em reavivar a inflação” e o português Rui Serra acrescenta que “o legado é muito positivo” para ser ofuscado pelas críticas.

Por outro lado, o alemão Krämer faz jus na principal mudança que espera de Lagarde: “Comunicar uma alteração política e depois pressionar o conselho de governadores a aprová-la, o que Draghi fazia regularmente“.

Certo é que Lagarde, cujas funções se iniciam a 1 de novembro, terá pouco espaço para mudanças nos estímulos, enquanto terá de lidar com uma economia em desaceleração. “De facto, a sucessora de Draghi estará obrigada a aplicar que já está desenhado. Tem alguma flexibilidade para calibrar os parâmetros, mas as principais direções já estão decididas por um período relativamente longo“, acrescentou Dor.

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