De Joe Berardo a Nuno Vasconcellos: Grandes devedores não admitem dívidas e atiram culpas para os bancospremium

“Quem tem dívidas é a Ongoing!”, atirou Nuno Vasconcellos aos deputados. Há dois anos Joe Berardo protagonizou episódio semelhante quando disse: “Eu, pessoalmente, não tenho dívidas”.

“Eu pessoalmente não tenho dívidas”. Faz dois anos que Joe Berardo deixou os deputados da comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos (CGD) com os cabelos em pé. O comendador madeirense recusou ter dívidas à banca em seu nome pessoal, sendo que as suas empresas deviam mais de mil milhões de euros. E lançou culpas aos bancos pela situação em que eles próprios se encontram. Esta semana, a audição de Nuno Vasconcellos não foi muito diferente. A diferença: desta vez, para salvaguardar a dignidade do Parlamento, os deputados recusaram dar “tempo de antena e palco” ao antigo presidente da Ongoing, que deixou por pagar créditos de 520 milhões no Novo Banco. E ao fim de 50 minutos deram por terminada a audição (com vídeo).

As últimas duas comissões parlamentares de inquérito à Caixa e ao Novo Banco trouxeram para a ribalta uma dezena de grandes devedores do sistema financeiro e não pelos melhores motivos: as perdas milionárias que provocaram à banca.

Pelo Parlamento passaram, em 2019, Joaquim Barroca (Lena), Matos Gil (Imatosgil), Manuel Fino (Investifino), Joe Berardo (Fundação Berardo) e Diogo Gaspar Ferreira (Vale do Lobo). Juntos, deixaram perdas de cerca de 1.200 milhões à Caixa. Agora, por conta do inquérito ao Novo Banco, foram ouvidos Bernardo Moniz da Maia (Sogema), Luís Filipe Vieira (Promovalor), João Gama Leão (Prebuild) e Nuno Vasconcellos (Ongoing). Juntos, deixaram perdas de cerca de mil milhões ao Novo Banco.

Além das dívidas e dos incumprimentos milionários, houve outra coisa em comum entre eles: as dívidas não são suas, mas das empresas que lideraram; depois, a crise financeira e os bancos foram os culpados pela situação calamitosa dos respetivos créditos.

Na sua audição que teve lugar na última semana, o governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, reconheceu que não são os melhores exemplos de empresários com quem a banca se associou nas últimas duas décadas. E preferiu que fossem destacados os "99% dos devedores da banca que são histórias de sucesso".

Mas o que disseram os grandes devedores no Parlamento?

Audição do Comendador José Manuel Rodrigues Berardo perante a II COMISSÃO PARLAMENTAR DE INQUÉRITO À RECAPITALIZAÇÃO DA CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS E À GESTÃO DO BANCO - 10MAI19
Joe Berardo teve prestação polémica no Parlamento no passado dia 10 de maio.Hugo Amaral/ECO

Berardo: “Eu pessoalmente não tenho dívidas”

Caixa Geral de Depósitos (CGD), Novo Banco e BCP têm ações em tribunal para reaverem 962 milhões de euros emprestados a empresas de Joe Berardo, mas o comendador disse no Parlamento a 10 de maio de 2019: “Eu pessoalmente não tenho dívidas".

A audição teria sido divertida, não fosse “a pipa de massa” que aquelas dívidas estão a “custar aos portugueses”, apontou a determinado momento o deputado do PSD Duarte Marques. “A mim não”, atirou Berardo, entre risos.

A deputada Cecília Meireles também chegou a acusar o comendador de viver à custa dos contribuintes que tiveram de colocar dinheiro na Caixa. “Tem de falar com os responsáveis que decidiram" esses financiamentos, respondeu Joe Berardo. "Acha que eu sou dono do banco também?”. Não foi a única vez que fez mira aos bancos: “Não souberam antecipar a crise”.

Foi também numa troca de palavras com a deputada centrista que Berardo deixou um riso largo “Ah ah ah” quando questionado sobre se os bancos podiam controlar as obras de arte se penhorassem os títulos da Associação Coleção Berardo.

Eu pessoalmente não tenho dívidas

Joe Berardo

Empresário

Caixa perdeu 90 milhões “por má gestão”

Ainda no inquérito à Caixa, Manuel Matos Gil, antigo acionista da La Seda Barcelona, chegou a atirar as responsabilidades para o banco público por perdas de 90 milhões de euros com um empréstimo de quase 100 milhões concedido à Selenis, uma sociedade detida a um terço pela Imatosgil e por “investidores reputados”.

“Esteve nas mãos da CGD a recuperação total do financiamento concedido”, referiu o empresário. “Fomos penalizados pela CGD”.

Caso tivesse seguido “as melhores práticas de gestão” e optado pela venda das ações da empresa catalã que tinham sido dadas como penhor em 2007, a Caixa teria recuperado o empréstimo. No final, só veio a recuperar oito milhões com a venda tardia do penhor em 2010. “Não se entende porque é que a Caixa só vendeu em 2010, três anos depois. Era porque era alguém a quem não lhe doía a perda. Ou alguém que tinha interesses”, disse, sem apontar nomes.

Manuel Fino observa o depoimento dos filhos, José e Francisco, na comissão de inquérito à CGD.ECO

“Decisão inusitada” no incumprimento de Fino

A Investifino devia 260 milhões à Caixa, mas já “não existe” hoje em dia, segundo disse o filho do empresário Manuel Fino no Parlamento em 2019 – entretanto, o banco público pediu a insolvência daquela sociedade e da Manuel Fino SGSP no final do ano passado.

Mas a culpa do incumprimento não foi da Investifino, foi do banco, disse José Manuel Fino aos deputados. Explicou que foi a decisão “inusitada” da Caixa de vender a posição na Cimpor (dada com penhor pelo grupo, que tinha opção de recompra) na oferta pública de aquisição (OPA) da Camargo Corrêa sobre a cimenteira, abaixo do preço justo, que gerou incumprimento da dívida da Investifino ao banco público.

A OPA do grupo brasileiro foi lançada em 2012, ao preço de 5,5 euros. “Havia bancos de investimento internacionais que diziam que o valor justo mínimo da ação da Cimpor era de 6,5 euros”, notou José Manuel Fino na comissão de inquérito à CGD, assegurando que, com base naquela avaliação, a Investifino podia pagar a totalidade da dívida ao banco público. “Com a recompra, tínhamos liquidado toda a dívida à Caixa”, disse José Manuel Fino.

Os larápios e o mercenário do banco na queda da Prebuild

João Gama Leão assumiu a dívida de mais de 300 milhões de euros ao Novo Banco, mas rejeitou culpas na queda do grupo Prebuild. “Vou ser direto: a dívida ao Novo Banco é da minha responsabilidade. A queda do meu grupo aí é que já desconfio da minha responsabilidade”, disse no início deste mês no Parlamento.

“O facto de o grupo estar na saúde dos portugueses não é culpa minha. Não fui eu que peguei num assalto do BES e o transformei num problema público. Não fui eu que peguei num problema de larápios, mudei o rei e mandei o problema para os contribuintes”.

O Novo Banco também foi acusado de o ter “liquidado” quando pediu a insolvência pessoal de Gama Leão, depois de ter aprovado um PER para a sua empresa. “Se foi liquidar-me porque eu era amigo dos Espírito Santo, não faço ideia. O que é facto é que me liquidaram”, referiu.

Gama Leão atirou-se ao administrador Vítor Fernandes, a quem acusou de “mercenário” nas negociações que tiveram para aprovar o PER.

"Não fui eu que peguei num assalto do BES e transformei num problema público. Não fui eu que peguei num problema de larápios, mudei o rei e mandei o problema para os contribuintes.”

João Gama Leão

Prebuild

E também deixou críticas duras ao mecanismo de capital contingente. “Perguntam ao Novo Banco, que tem o cofre público por detrás, se é mais fácil salvar esta empresa ou é mais fácil afundá-la de vez… eu não sei que contrato o Estado fez com o grupo americano, mas uma coisa é óbvia para mim: para o Novo Banco, é muito mais fácil ter problemas do que ter vantagens”.

O presidente do Conselho de Administração da Promovalor, Luís Filipe Vieira, fala perante a Comissão Eventual de Inquérito Parlamentar às perdas registadas pelo Novo Banco e imputadas ao Fundo de Resolução, na Assembleia da República, em Lisboa.António Cotrim/Lusa 10 maio, 2021

“Se não fosse Presidente do Benfica não estaria aqui”

O grupo de Luís Filipe Vieira tinha uma exposição de mais de 460 milhões de euros em 2015 junto do Novo Banco, dívidas contraídas sobretudo no tempo do BES e que o banco poderá recuperar daqui a 10 ou 15 anos. Só que, entretanto, a Promovalor deixou perdas por imparidade de 180 milhões ao Novo Banco, segundo a auditoria da Deloitte.

Vieira foi ao Parlamento há duas semanas e assegurou aos deputados da comissão de inquérito ao Novo Banco que não estaria lá a depor “se não fosse presidente do Benfica”. E atirou ao Governo, reguladores e também ao banco. “É muito cómodo para muita gente colocar o presidente do Benfica como grande devedor da banca que não cumpriu. É cómodo para os poderes políticos, cómodo para a supervisão bancária, cómodo para uma sociedade que precisa de encontrar culpados pelas suas insuficiências”, disse Vieira.

Também disse que quem assinou a venda do banco ao fundo americano Lone Star devia ser “enforcado”. “Quem assinou esse contrato, pendurem-no. Devia ser enforcado, uma pessoa que assina uma coisa destas… Não se podem fazer…”, atirou o presidente do Benfica.

Luís Filipe Vieira disse ter uma vida desafogada financeiramente. “Tenho outros negócios, uma boa reforma. Vivo bem”.

Quem assinou esse contrato, pendurem-no. Devia ser enforcado, uma pessoa que assina uma coisa destas… Não se podem fazer…

Luís Filipe Vieira

Promovalor

Moniz da Maia culpa banco pela queda do grupo

Para Bernardo Moniz da Maia, a sua família é completamente “alheia” à situação em que se encontra atualmente o grupo. Com dívidas de 500 milhões de euros por saldar, a Sogema também caiu por causa do Novo Banco, acusou o empresário numa audição marcada por muitos lapsos de memória

“Após a queda do BES e já como interlocutor o Novo Banco, iniciámos conversas para manter o acordado e levar a bom porto os nossos compromissos. Tivemos inúmeras reuniões que nada deram. A resposta foi sempre a mesma: o Fundo de Resolução não responde ou não aprova”, disse no Parlamento há cerca de três semanas.

Nos negócios no Brasil, que a família esperava serem a tábua de salvação do grupo, aconteceu o mesmo. “O Novo Banco de forma incompreensível decidiu-nos retirar da operação no Brasil”. Com isso, o projeto esvaziou-se imediatamente, “perdendo-se todos os ativos existentes”, explicou Moniz da Maia.

E as outras empresas operacionais tiveram o mesmo destino traçado pelo Novo Banco: foram “afogadas” e “estranguladas” financeiramente. Palavras de Moniz da Maia.

http://videos.sapo.pt/kGj0hbLog3aqs6dYGQzW

E os culpados são os empresários?

Na audição da passada quinta-feira, os deputados perderam a paciência com aquilo que consideraram ser a "narrativa" de defesa de Nuno Vasconcellos, do grupo Ongoing, que não admitiu a dívida de 520 milhões ao Novo Banco. “Essa dívida foi provisionada. Quem tem de pagar é a Ongoing, que tinha contrato no BES”. “A pergunta foi feita no pessoal, mas é a Ongoing que tem de pagar”. “Quem tem dívidas é a Ongoing”. Foram estas as respostas dadas pelo empresário.

E também fez mira aos Governos e aos partidos políticos. “Sempre que os bancos precisam de dinheiro, lá vem a lenga-lenga de que a culpa é dos empresários. As pessoas não se podem esquecer que os bancos estavam cheios de dívida pública, (…) e os bancos tiveram de provisionar. E a culpa é dos governos que geriram mal. Não é dos empresários”, atirou Vasconcellos, a partir do Brasil, onde vive há mais de dez anos.

“Ainda no outro dia estive a ouvir audições dos empresários. O presidente do Benfica é um homem que se fez, é um grande empresário. Outras famílias há mais de 150 anos no negócio e passaram a ser péssimas? (…) Nos últimos 10 anos houve uma crise mundial terrível, o país não escapou, os partidos políticos também não escaparam, alguns partidos políticos falidos há sete anos, e ninguém fala. Mas só se fala em dois ou três empresários, como se tivessem culpa disto tudo”, declarou ainda.

Face a estas declarações, Fernando Negrão deu por terminada a audição 50 minutos depois do seu início.

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