Eles trabalham de casa e não é por causa do coronavírus. As vantagens do teletrabalho

Foco, definição de espaço, ferramentas tecnológicas e muita, muita disciplina: são estes os desafios e vantagens de trabalhar de casa, em tempos de coronavírus... e não só.

“É a nossa praia”, brinca Liliana Castro quando, nas primeiras palavras por telefone, lhe falamos de trabalhar remotamente. Fundadora da consultora de comunicação FES Agency, Liliana pode, todos os dias, trabalhar de um sítio diferente. Quando começou a trabalhar a partir de casa, na altura como freelancer, há mais de sete anos, o primeiro argumento era uma “questão de tempo”.

“Sempre foi uma forma de trabalhar com que me identifiquei, sobretudo porque sempre consegui produzir muito mais à noite”, conta à Pessoas, do ECO. E se um dos desafios desta dinâmica é ter bem claras “as metas a cumprir e as coisas a entregar”, outro foi crescer com pessoas que pensam da mesma forma. “Não é complexo, é só questão de mindset“, sublinha.

Atualmente, a FES Agency conta com uma equipa de dez pessoas — metade das quais a tempo inteiro e a outra metade a trabalhar por projeto — e uma certeza da sua fundadora. “Há mais pessoas a gostar do que a não gostar disto. Mas não têm a possibilidade de escolher”, assinala.

Não é complexo [trabalhar de casa], é só questão de mindset.

Liliana Castro

Fundadora da FES Agency

Entre os principais desafios, Liliana Castro destaca, como gestora de equipa, as tarefas ligadas à coordenação. “Sem um espaço comum, é preciso andar atrás das pessoas para ver se está tudo ok”, conta. A nível geral, para toda a equipa, trata-se de uma adaptação a uma nova forma de estar que implica “momentos solitários e a boa gestão de ferramentas” de comunicação.

“Tento dar o máximo de autonomia às pessoas”, detalha. Também por isso, se o local de trabalho é escolhido por cada elemento da equipa — muitas vezes, encontram-se por plataformas como o Slack ou o Trello [que acaba de lançar o manual “Como abraçar o trabalho remoto”], mais do que pessoalmente –, há um dia na agenda em que o ponto de encontro é sempre o mesmo: o escritório da empresa, que serve de palco à reunião semanal com todos os elementos.

As vantagens são as óbvias e imediatas: a flexibilidade de horários e de localização. E, sendo nós uma equipa jovem e tech, a possibilidade de fazer a otimização de ferramentas, interagir com outras pessoas que nos servem de inspiração e com as quais, se trabalhássemos sempre no mesmo sítio, não estaríamos em contacto, são outros pontos a considerar”, assegura.

Sair para cozinhar

Joana Limão teve de passar por experiências em restauração e hotelaria para perceber que a sua estabilidade laboral era menos importante do que o seu tempo. “Há sempre o reverso da moeda”, assinala a designer e formada em culinary arts, de 28 anos.

É para “cozinhar” que Joana sai de casa. É que o trabalho de backoffice — a preparar receitas, a enviar de orçamentos e a preparar sessões — culmina em sessões de fotografia gastronómica a cada tanto. E rodeada de equipas muito diversas, tantas como as suas agendas alinhadas.

“Posso trabalhar menos dias mas aproveitá-los melhor, estar mais focada, conseguir ter o tempo que preciso para descansar e ser mais produtiva”, defende. Os desafios? São as vantagens. “A questão de poder fazer os meus horários, também é um desafio. Posso ficar a trabalhar até às tantas mas, por outro lado, também posso ficar agarrada à preguiça de não querer sair da cama”, assinala. Por isso, trabalhar de casa é uma oportunidade de dedicar-se a projetos diferentes, com foco numa produtividade cujas contas são prestadas a ela mesma.

“É ótimo por um lado, por outro é um desafio. Como trabalhas para ti, depende de ti seres produtiva e apresentar resultados, porque não tens ninguém a pedir-te coisas e a reclamar”, salvaguarda.

“Trabalho de casa e não trabalho de casa porque, como freelancer, posso trabalhar de onde quiser: de um café, de um espaço de cowork”, explica. Como a fotografia de comida acaba por ser uma parte significativa do seu trabalho, a fundadora da Please Consider pode mudar de “escritório” todos os dias: ora trabalha na sua sala de estar como num espaço de cowork, numa mesa de um café ou numa secretária emprestada de outro escritório qualquer.

E, talvez por nunca ter querido trabalhar “das 9 às 5” veja que, muitas vezes, são as pessoas nessa condição que mais “invejam a sua”. E essa foi uma das coisas a que mais tempo levou a habituar-se. “Há pessoas que invejam essa liberdade, acham que posso ir à praia quando quiser. E uma das maiores aprendizagens que fiz neste processo foi saber que tenho direito a descansar. Porque há dias em que, apesar de não estarmos com ninguém nem a trabalhar fora de casa, continuava a responder aos emails”, recorda.

“Presidente-remoto”

“Em minha casa vou estar sozinho, não entra nem sai ninguém. Só entraram as três pessoas para fazer o teste”, disse Marcelo Rebelo de Sousa. “Além do trabalho normal, uma pessoa tem de tratar da casa. (…) Lavo a loiça, ponho a roupa a lavar e faço as refeições.”

Esta segunda-feira, o Presidente da República explicou que vai isolar-se em casa nos próximos 14 dias, apesar do teste negativo ao Covid-19. “Era importante, em termos de saúde pública, saber que o Presidente não tinha um resultado positivo”, explicou, a partir do terraço de sua casa, em Cascais, onde passará as próximas duas semanas “por precaução”.

Até Marcelo já é nómada digital“, brinca Diogo Reffóios Cunha, 33 anos e há um a trabalhar de casa. O especialista em marketing e nómada digital aproveita pequenas pausas no trabalho para tratar de afazeres mas destaca que uma das grandes vantagens de trabalhar a partir de casa é conseguir “comer melhor”.

“Sinto que o trabalho não manda em mim, sou eu que mando na minha vida”, assegura. Outra das principais diferenças que sentiu quando, há pouco mais de um ano decidiu trabalhar a tempo inteiro para um cliente, no Dubai, foi o tempo que perdia em transportes. E isso reflete-se noutras dimensões. “Vou ao supermercado nas horas mortas, não vou nos picos de afluência. Não como a despachar, como com tempo. Aproveito o tempo de ações mecânicas como o tempo em que deixo a massa do almoço a cozer, por exemplo, para responder a emails”, enumera.

O trabalho em equipa também beneficia da dinâmica: as reuniões começam sempre a horas e os assuntos em discussão saltam, de imediato, para cima da mesa. Por isso, “passamos imediatamente ao ponto que temos de discutir”, assinala.

"Porque não estás num ambiente de trabalho, é preciso organizar bem para conseguir um ambiente de trabalho dentro de casa.”

Diogo Reffóios Cunha

Nómada digital

Mas também há desafios: entre os maiores estão a organização e o foco, dois fatores que contribuem para uma “maior produtividade”, sublinha. “Porque não estás num ambiente de trabalho, é preciso organizar bem para conseguir um dentro de casa”, diz. Algumas das dicas úteis passam por montar um escritório ou pedir aos colegas de casa que não interrompam.

A propósito da experiência de trabalho remoto, Diogo organiza, na semana entre 14 e 18 de abril, a Nómada Digital Summit, uma conferência 100% online sobre trabalho remoto, freelancing e nomadismo digital. Entre os convidados estão Pedro Oliveira, cofundador da Landing.jobs, Gonçalo Hall, consultor de trabalho remoto, Catarina Campino, detail master da Academia de Código e Flávio Ludgero, fundador da Officeless.cc, entre outros.

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António Costa

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