Firmas não cortaram contratações. Mas estão “cautelosas”

A Advocatus esteve à conversa com seis sociedades de advogados sobre o impacto que a crise pode ter nas contratações e prémios atribuídos. Todas garantem que, para já, nada se alterou.

O tema da faturação das sociedades é um tema tabu no mercado português, apesar de no país vizinho, em Espanha, as firmas divulgarem anualmente os valores obtidos. Já relativamente à divulgação de novas contratações, as sociedades de advogados portuguesas não se inibem, mas será que estão abertas a falar sobre a redução de profissionais? Sobre a não atribuição de prémios? Ou até sobre o congelamento de salários?

A Advocatus foi sondar algumas firmas sobre o impacto que a crise causada pela pandemia está a tentar nas suas contas e, mais concretamente, se vai levar a um corte de pessoal. Garrigues, Uría Menéndez-Proença de Carvalho, Vieira de Almeida e SRS não comentaram o tema, mas ainda assim seis sociedades aceitaram o desafio.

Todas foram seguras na sua resposta, a pandemia Covid-19 não afetou possíveis novas contratações e até existe algumas que se mantiveram bastante ativas.

“Temos estado até bastante ativos nesse domínio e reforçado áreas-chave com a contratação de novos advogados e mesmo de um sócio. Até agora, não sentimos necessidade e por isso não mudámos os nossos planos nem a estratégia que havíamos traçado antes do Covid-19”, conta Martim Krupenski, consultor e diretor de operações, recursos humanos e formação da Morais Leitão.

Martim Krupenski, consultor e diretor de operações, recursos humanos e formação da Morais Leitão

Na Abreu Advogados foi necessário revisitar e adaptar o business plan, mas não foi sinónimo de corte nas contratações previstas.

“As integrações de advogados que tínhamos em planeamento estratégico respondem a objetivos previamente definidos: fortalecer e afirmar a nossa prática em áreas-chave e continuar em paralelo a apostar no crescimento orgânico através de integração de jovens talentos. Em algumas áreas, como o contencioso, o corporate e o imobiliário, as recentes contratações vieram mesmo contribuir positivamente para a resposta aos desafios acrescidos trazidos pela pandemia”, refere Duarte de Athayde, managing partner da Abreu Advogados.

Já na Miranda & Associados, apesar de não afetar as contratações já fechadas, levou a fossem “menos ativos” e “mais cautelosos” nos processos de contratação.

“A nossa política de contratações não se alterou com o atual contexto nem olhamos para este tema numa lógica de custo. A captação de talento é antes um investimento no presente e no futuro da PLMJ e em 2020 temos vindo a fazer contratações de peso: trouxemos três novos sócios que são referências no mercado nas suas áreas e com especialização em setores que são críticos para o crescimento da economia portuguesa e um conjunto de advogados reconhecidos que vieram somar ao talento que já temos in house”, assegura à Advocatus Bruno Ferreira, co-managing partner da PLMJ.

Bruno Ferreira, Managing Partner da PLMJ, em entrevista à Advocatus - 11MAI20
Bruno Ferreira, co-managing partner da PLMJHugo Amaral/ECO

Para além destas apostas, na PLMJ têm decorrido ainda promoções internas, oitos novos associados séniores e seis associados coordenadores.

Também na Cuatrecasas a crise proveniente da pandemia não foi impeditiva na aposta de novos talentos, tendo contratado desde o início do ano 13 profissionais para os escritórios de Lisboa e Porto. “Ao nível dos profissionais de organização, foram reforçados os departamentos de Controlo de Gestão, Recursos Humanos e Serviços Gerais, com sete novos profissionais”, refere fonte oficial da sociedade.

Apesar de até ao momento não terem cortado nas contratações, no futuro as firmas não preveem que possa a vir a ser um mecanismo acionado como forma de reduzir custos.

Por um lado, as contratações respondem a necessidades específicas, e mantemos necessidades nalgumas áreas. Por outro lado, a renovação, sobretudo, mas não só, com a entrada de advogados mais jovens, é absolutamente crucial numa sociedade de advogados. Tentamos que a conjuntura não interfira demasiado na estrutura”, assegura Martim Krupenski da Morais Leitão.

Diogo Xavier da Cunha, presidente do conselho de administração da Miranda

Diogo Xavier da Cunha, presidente do conselho de administração da Miranda, defende que o congelamento de contratações não se traduz numa redução de custos, “salvo se for acompanhado da saída de advogados”, no máximo contribui para conter um aumento dos custos.

Cada firma terá que avaliar as suas necessidades em cada momento e é natural que em algumas firmas possa haver um decréscimo de trabalho como consequência da pandemia e dos seus efeitos económicos. Porém, importa também não perder uma visão de médio ou mesmo longo prazo e assegurar que a firma não deixa de ter e até de melhorar a sua capacidade de servir os clientes, seja durante a crise ou quando esta seja superada”, explica Diogo Xavier da Cunha.

Na Abreu Advogados as contratações são entendidas como “parte estratégica” e pretendem dar resposta aos desafios futuros dos clientes. Logo, para Duarte de Athayde “dificilmente” congelaram contratações, até porque estar atento ao talento e a oportunidades de juntar ao projeto advogados com talento e qualidade “faz parte do ADN”.

O plano de contratações é feito em função das necessidades de cada área de prática. Uma diminuição de atividade, que ainda não aconteceu, terá naturalmente impacto em contratações futuras”, explica José Luís Arnaut, managing partner da CMS Rui Pena & Arnaut.

Para já prémios e aumentos não são um problema

No que concerne a bónus, prémios e aumentos atribuídos pelas sociedades aos seus profissionais também não estão previstos qualquer tipo de cortes, pelo menos para já.

“Avançámos com um conjunto de medidas de prudência orçamental para acomodar o impacto económico que a atual crise pudesse trazer”, assegura Bruno Ferreira, co-managing partner da PLMJ. Relativamente à compensação dos advogados da firma não existe qualquer impacto para já, apesar de ter sido suspenso o pagamento de uma parte dos prémios aos associados coordenadores.

Na Miranda ainda não existe nenhuma decisão tomada.Havendo uma quebra nos resultados na firma, é normal que essa quebra tenha algum reflexo no montante global afeto a prémios. Os aumentos não obedecem à mesma lógica e estão em geral associados à progressão na carreira”, refere Diogo Xavier da Cunha.

José Luís Arnaut, managing partner da CMS Rui Pena & Arnaut

Segundo o managing partner, as decisões de aumentos são condicionadas também pelas perspetivas económicas do ano seguinte, uma vez que têm impacto direto nos custos fixos da firma e nos resultados.

Também na Morais Leitão e na CMS Rui Pena & Arnaut não estão previstos cortes nos prémios, apesar de na firma liderada por José Luís Arnaut terem “consciência” que o último trimestre de 2020 e o ano de 2021 podem alterar as circunstâncias pelo que este é um tema em avaliação permanente.

Qualquer gestor prudente e criterioso não pode deixar de acrescentar que estamos a trabalhar com os dados de produção e faturação e tesouraria existentes à data. É evidente que, se os financials mudarem significativamente, teremos que repensar as medidas de gestão – mas até à data não temos quaisquer dados de gestão que apontem nesse sentido, salvo, naturalmente, os dados macroeconómicos”, explica o consultor e diretor de operações, recursos humanos e formação da Morais Leitão.

Duarte de Athayde, managing partner da Abreu Advogados

A Abreu Advogados prevê que se em 2021 continuarem no mesmo rumo, “as pessoas que contribuíram para o nosso sucesso podem esperar a mesma atitude da Abreu, reconhecimento e partilha de resultados com todos os que contribuem para esse mesmo resultado”. Ainda assim, a decisão dos aumentos só será tomada no fecho do ano.

Estágios mantêm-se firmes

Dezenas de advogados são contratados por cada firma, por ano. Sem previsão de corte nas contratações, os estagiários também não ficam de fora dos planos das sociedades.

Com uma média de 20 novos advogados por ano, a Abreu aumentou o número de estagiários, recebendo em outubro mais 13 novos talentos. Para 2021 deverão “manter o número”, diz Duarte de Athayde.

Apesar de não avançarem com números, na Morais Leitão não possuem um número pré-definido de novos advogados por ano. “Contratamos essencialmente ou para suprir necessidades de determinados departamentos ou quando surge uma oportunidade no mercado, já que, independentemente das necessidades, haverá sempre lugar na Morais Leitão para um grande advogado”, conta Martim Krupenski.

Na firma liderada por Nuno Galvão Teles, o número de estagiários também manteve-se.

“A CMS Rui Pena & Arnaut tem tido, até à data, em média, um crescimento de 15% no que toca à contratação de advogados”, explicou José Luís Arnaut, managing partner.

Já na Miranda também não houve uma redução de estagiários, mas adiaram a integração por uns meses. “A decisão foi essencialmente motivada por razões operacionais associadas à maior dificuldade de integração sem presença física nas instalações”, nota Diogo Xavier da Cunha, presidente do conselho de administração.

No que concerne à integração de novos advogados, o valor na Miranda varia, sendo que a tendência dos últimos três anos crescente. “Em 2019, por exemplo, entre Lisboa e Porto contratámos 32 novos advogados, incluindo estagiários. A integração de equipas teve um peso importante neste número”, acrescenta.

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