Licença sabática. Às vezes é preciso deixar sair para reter o melhor talentopremium

Contratar a longo prazo supõe um acompanhamento da evolução dos colaboradores, tanto na vida pessoal como profissional. E, profissionalmente, essa evolução pode ser dentro ou fora da porta da empresa.

Nenhuma organização quer ver os seus melhores colaboradores a atravessarem a porta de saída, seja por motivos pessoais ou porque decidiram abraçar um novo desafio. Retê-los, mantendo-os motivados, felizes e dedicados, é o objetivo e isso pode ser feito de várias formas. A licença sabática é uma das medidas que algumas empresas já implementaram e promovem entre as suas pessoas. E, apesar do retorno não ser óbvio, existe aqui um crescimento, tanto do colaborador como da empresa, bem como um reconhecimento.

Os profissionais saem da organização, desconectam completamente do trabalho, perseguem os seus sonhos ou avançam até com projetos pessoais "na gaveta", mas com a certeza de que as portas estão abertas para voltarem assim que a licença chegue ao fim. Ciente de que o fator "tempo" é determinante, a Farfetch implementou o Boomerang há quase dois anos, um programa que dá acesso a uma licença sabática de até oito semanas, paga pela empresa. "Acreditamos que devolver tempo para que as nossas pessoas se possam dedicar ao que mais gostam é fundamental para o seu bem-estar", afirma Ana Sousa, VP People na Farfetch.

Já a everis tornou a licença sabática oficial em 2017, muito em parte devido a um caso concreto de uma pessoa da empresa. "Houve um caso de um colaborador que tinha a vontade expressa de fazer um projeto lá fora durante alguns meses e, para isso, ia cessar o seu contrato. Na altura, para nós, não fez sentido nenhum que isto acontecesse", recorda Joana Almeida, head of talent management na everis.

"Acreditamos profundamente que temos as melhores pessoas e os melhores profissionais e contratar a longo prazo implica acompanhar a evolução dos colaboradores", tanto na vida pessoal como na profissional, podendo ser dentro ou fora das portas da empresa.

Para a líder, apesar de, normalmente, as pessoas tentarem separar o pessoal do profissional, a verdade é que "todas as esferas da nossa vida se tocam e influenciam" e, por isso mesmo, "faz todo o sentido que as pessoas possam usufruir de licenças sabáticas". É uma etapa nas suas vidas da qual a empresa não precisa de estar excluída, podendo ser uma facilitadora disso mesmo.

Joana Almeida é head of talent management na everis

Um tempo para viajar, estar com a família ou gerir um negócio

Inês Alves e Simão Castro fazem parte dos cerca de 15 colaboradores da everis em Portugal que já usufruíram da licença sabática. Embora tenham aproveitado esse período de forma muito distinta, os colegas de trabalho, que assumem a mesma função de business consultant, estão de acordo quando dizem que voltaram à everis com mais energia, motivação e satisfação.

"Fui direto ao sócio da nossa unidade e disse-lhe que queria viajar (...) Falei, falei, estava quase a tentar ultra justificar-me, e o nosso partner sempre a ouvir. No final, ele disse-me: 'Não há tema. Só preciso que me digas quando e quanto tempo vais estar fora'.”

Simão Castro

Business consultant na Everis

Simão Castro recorda o dia em que abordou a chefia pela primeira vez sobre o tema: "Com uma postura muito defensiva, fui direto ao sócio da nossa unidade e disse-lhe que queria viajar". "Não queria prejudicar a empresa, queria viajar e voltar. Falei, falei, estava quase a tentar ultra justificar-me, e o nosso partner sempre a ouvir. No final, ele disse-me: 'Não há tema. Só preciso que me digas quando e quanto tempo vais estar fora'", conta, acrescentando que se tratava de uma licença sabática de cinco meses. E nem isso levantou problemas para a empresa que, normalmente, oferece licenças com duração de dois meses.

A ideia de tirar um tempo para viajar e alargar horizontes já pairava na cabeça de Simão Castro e partiu da inspiração de dois amigos, de outras empresas, que se despediram para dar uma volta ao mundo. "Um deles despediu-se imediatamente, outro propôs à empresa tirar uma licença e a empresa disse 'nem pensar', e ele foi na mesma. Entretanto eles voltaram, em pouco tempo estavam os dois a trabalhar, bem alocados e muito felizes. De alguma forma, isso inspirou-me bastante", relembra.

Assim deu o primeiro passo, abordou a empresa, organizou a sua ausência durante cinco meses e preparou uma viagem pela Ásia, muito diferente dos mais tradicionais 15 dias de férias. "Para além do turismo, decidi juntar um conjunto de atividades e desafios físicos e mentais", afirma, recordando alguns dos que mais o marcaram: trekkings de vários dias na Malásia, a subida de parte da montanha Annapurna, no Nepal, um curso num mosteiro budista e um retiro de dez dias de silêncio e meditação, na Índia. A experiência foi tão positiva que voltar a fazê-lo, desta vez por África, por exemplo, não está fora dos seus planos.

Quem repete a licença sabática com mais frequência é Inês Alves. Após um ano muito exigente, a business consultant relembra que estava a organizar os dias que tinha ainda por gozar e à procura de uma forma de alargar as suas férias. Acabou por ir diretamente falar com os recursos humanos da empresa para perceber que possibilidades tinha ao seu dispor e a sugestão da licença sabática partiu daí: "Foram eles que me disseram 'e porque não tirar uma licença?'. A empresa percebeu que eu precisava disto para poder regressar, em setembro, com outra energia e organização", refere.

"Desde aí que todos os anos tiro uma licença. Junto, tipicamente, mais duas semanas das minhas férias e consigo estar muito com a família e dedicar-me a outras atividades.”

Inês Alves

Business consultant na Everis

Assim foi. Pela primeira vez, Inês Alves juntou a licença de um mês a alguns dias de férias que tinha por gozar e conseguiu desconectar completamente do trabalho. "Desde aí que todos os anos tiro uma licença. Junto, tipicamente, mais duas semanas das minhas férias e consigo estar muito com a família e dedicar-me a outras atividades, nomeadamente a um negócio paralelo que tenho com a família", conta.

Ainda que, no caso de Inês Alves, as reuniões e o trabalho continuem durante a licença, devido a esse negócio que aproveita para avançar nesses períodos, o trabalho na everis "desaparece" por completo. Essa é, aliás, uma regra da própria empresa.

Durante o período sabático, existe uma cessação de pagamento, o que é "levado muito a sério". "Tiramos os acessos do colaborador a tudo o que possa ser profissional. Não queremos que as pessoas fiquem ansiosas e nervosas com a caixa de entrada do email ou com as muitas mensagens a entrar nos grupos de WhatsApp", diz Joana Almeida. Durante a licença, "as pessoas têm de focar-se naquilo que é importante: em si", acrescenta.

Uma medida para a atração contínua

Na Farfetch, as condições para tirar uma licença sabática são um pouco distintas. Em primeiro lugar, apenas os colaboradores que estejam na empresa há, pelo menos, cinco anos podem beneficiar do programa Boomerang, renovando essa possibilidade a cada cinco anos. Em segundo lugar, no que diz respeito ao salário mensal, a empresa continua a pagar aos colaboradores durante o período em que estão fora. "A empresa paga até 80% do salário bruto", refere a responsável pela área de recursos humanos na Farfetch.

Até agora, e em dois anos, o Boomerang já regista 125 pedidos, um número que, para Ana Sousa, é "significativo", tendo em conta que a Farfetch tem pouco mais de 12 anos. "Ao proporcionarmos essa possibilidade estamos também a reconhecer o comprometimento que as pessoas têm com a Farfetch. É a oportunidade de recarregar baterias, de terem mais tempo pessoal e, porque não, realizar um sonho antigo", continua.

Reconhecer as pessoas que trabalham na empresa é o principal objetivo do Boomerang. Se isso for um estímulo para que os colaboradores permaneçam na organização, melhor. "Eu acredito que a única forma de reter talento é apostar na atração contínua, que vai muito além do pacote de benefícios ou do salário", salienta Ana Sousa.

Para a responsável de recursos humanos do unicórnio com ADN nacional, a missão e os valores de uma empresa são cada vez mais valorizados pelos profissionais, que querem identificar-se com o propósito da organização para a qual trabalham, bem como sentir que podem desenvolver-se, tanto a nível profissional como pessoal, através da empresa. "Sentimos que, com o Boomerang, as nossas pessoas entendem que isto é um investimento da empresa em cada uma delas, dando-lhes um período de tempo pessoal, para que cumpram os seus propósitos de vida, os seus objetivos e sonhos antigos, para que descansem e regressem renovados e mais completos como pessoas e até como profissionais", explica.

Ana Sousa é VP People na Farfetch

Também a Everis considera que a licença sabática pode ser enriquecedora, tanto para o colaborador, como para a empresa. "Ter experiências deste género pode desenvolver algumas competências enquanto líder e enquanto profissional. Muitas vezes, e se viajam para outros sítios, vêm com novas ideias, com a criatividade mais aguçada", afirma a líder de pessoas da tecnológica, acrescentando que há, no entanto, uma série de pontos que não conseguem medir. "Mas também não queremos", salienta

"A nossa vontade é que as pessoas venham felizes e que permaneçam na Everis. Elas sabem que podem estar aqui, mas também podem ir para as Maldivas durante um mês ou podem ir fazer um retiro espiritual se assim o quiserem", remata.

E desengane-se se ainda pensa que este tipo de medidas é exclusivo para tecnológicas ou empresas mais recentes. Na banca, a licença sabática também já começa a fazer parte dos planos. Em janeiro, o Citigroup começou a oferecer licenças sabáticas de 12 semanas (a 25% do salário) aos colaboradores da América do Norte que estejam na empresa há cinco anos ou mais.

De acordo com a Bloomberg, Michael Corbat, que foi diretor executivo do Citigroup até fevereiro de 2021, não está convencido de que o trabalho à distância se torne a regra após a pandemia, mas acredita, sim, na necessidade de um maior equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional dos colaboradores da área financeira. Além desta licença de 12 semana, o banco também implementou no início do ano uma licença de um mês, totalmente paga, para qualquer pessoa que queira trabalhar pro bono para uma instituição de caridade.

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