Os jovens sabem o que é poupar? E como poupam?

Terão os jovens condições para poupar? De que forma gerem os seus rendimentos face às despesas? Para assinalar o Dia Mundial da Poupança, o ECO foi conhecer as estratégias de poupança dos jovens.

“No poupar é que está o ganho”, diz o ditado popular. Ainda assim, longe vão os tempos em que as taxas de poupança em Portugal superavam os 14% do rendimento das famílias. Há pouco mais de duas décadas, em 1995, a taxa de poupança era de 14,8%, mas atualmente é de apenas 5,9%, segundo os números do Instituto Nacional de Estatística (INE).

E se as gerações anteriores tinham maior facilidade em poupar, a situação parece tornar-se mais complicada para os jovens. Seja pelo valor dos rendimentos, pelos preços da habitação ou pela falta de literacia financeira nas escolas. No âmbito do dia Mundial da Poupança, assinalado esta quinta-feira, o ECO foi conhecer as estratégias de poupança dos jovens, de que forma controlam as despesas face aos rendimentos e como lidam com os imprevistos.

Como gerem os rendimentos?

“Acabei o 12.º ano com 17 anos e tentei entrar na faculdade. Na altura, os meus pais não tinham rendimentos para me pagar o curso e, por isso, optei por fazer melhoria de nota durante um ano e foi nessa altura que comecei também a trabalhar aos fins de semana numa padaria para juntar algum dinheiro”, conta ao ECO Pedro Queirós, trabalhador-estudante de 23 anos. No final desse ano letivo voltou a candidatar-se à universidade e foi colocado. No entanto, em casa “as coisas não melhoraram” e o dinheiro que tinha amealhado não era suficiente, por isso optou por adiar a ideia de ir para a Universidade e arranjar um trabalho a tempo inteiro.

Pelo meio ainda acumulou durante um mês o trabalho na padaria com o emprego que tem atualmente, onde trabalha no atendimento ao público numa empresa de administração de condomínios. No inicio deste ano letivo conseguiu entrar na faculdade e sublinha que as poupanças que fez ao longo deste ano são “suficientes” para pagar os três anos do curso em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. A viver em casa dos pais, em Freamunde, Pedro Queirós ajuda nas despesas de casa sempre que pode e é apenas um dos vários jovens que tem de conciliar a vida de estudante com a de trabalhador para obter um curso superior.

"Defino prioridades logo no início do mês, aquilo que preciso mesmo de gastar. O essencial são as despesas de casa, a deslocação no carro, a partir de setembro é pagar a propina e a prestação do carro”.”

Pedro Queirós, trabalhador-estudante, 23 anos

Tal como Pedro Queirós, Débora Lopes, de 26 anos, foi ensinada desde pequena a gerir o seu dinheiro, seja através de semanada ou mesada. A trabalhar como administrativa num hospital privado, a jovem partilha casa com mais três pessoas e refere que “se vivesse numa casa sozinha simplesmente não conseguia ter poupanças para nada”. Assim que recebe o ordenado paga as despesas fixas, como a renda de casa, passe dos transportes públicos ou as contas da casa. “Depois se é um mês em que eu preciso de comprar alguma coisa extra, tenho uma lista no telefone onde aponto as coisas que preciso de comprar e priorizo o que é mais importante para mim ou não”. Apesar de ter duas contas poupança e uma de certificados de aforro, para a administrativa, a prioridade é “evitar ao máximo tocar em qualquer dinheiro que estejam nas contas poupança”.

Entre definir prioridades e listas no telefone, as estratégias para organizar as despesas do mês são variadas. “Tenho um Excel onde em cada linha aloco as despesas do mês, ou seja, uma linha para jantares, outra linha para atividades culturais, outra com as despesas fixas, então já sei mais ou menos quais são os meus gastos e quanto é que posso gastar em atividades de lazer“, explica ao ECO Rita Gama, de 29 anos. A trabalhar em Marketing online para uma empresa estrangeira, confessa que o salário que recebe permite-lhe acumular mais poupanças, uma vez que é superior ao da maioria dos portugueses. “Como já tenho calculado o valor que sobra das minhas despesas retiro logo da conta à ordem e ponho numa conta poupança”.

Com uma situação económica mais complicada, Diogo Fonseca, de 28 anos, faz parte dos mais de 311 mil desempregados em Portugal, segundo as estatísticas mais recentes do INE. Sem emprego desde abril reconhece que nunca foi muito organizado a gerir os seus rendimentos, mas assinala que desde que foi viver sozinho melhorou um pouco. “Eu estava a trabalhar e no último trabalho que tive, a meio desse processo, mudei de casa e fui viver sozinho e isso mudou um bocado a minha forma de lidar com as coisas. Mas, ainda assim, como sou um bocado desorganizado nesse processo é ver o que tenho para pagar e pago“, atira.

Apesar de admitir que não é “uma pessoa muito poupada”, face à situação em que se encontra não tem “grandes condições para poupar”. Ainda assim, o licenciado em gestão do Desporto diz que falta uma aposta por parte das escolas em literacia financeira, por forma a “consciencializar os miúdos a pouparem desde pequenos e a relacionarem-se com alguns conceitos económicos”.

Entre certificados de aforro, mealheiros e contas-poupança, como poupam os jovens?

Entre contas de certificado de aforro, mealheiros e contas-poupança, as opções são múltiplas. Pedro Queirós tem uma conta poupança criada pelos pais quando era pequeno, mas em que “raramente mexe”. A única exceção é para “pagar as propinas e a prestação do carro” e em “luxos” pontuais, como férias com amigos. No futuro, quer utilizar esse dinheiro para comprar casa e, a longo prazo, para a aproveitar “na etapa final da vida”, referindo-se à reforma.

Desde novo que lhe foi incutido a importância de poupar, por isso, para o trabalhador-estudante o princípio é tentar “juntar sempre dinheiro para pagar a pronto“, mesmo que seja através da conta-poupança e caso não seja urgente tenta comprar “daqui a dois ou três meses”. Até agora tenho conseguido poupar para aquilo de que preciso. Nunca precisei de pedir emprestado e sempre consegui ter as coisas que quis, quando quis”.

Débora Lopes é ainda mais restrita no que toca a mexer em contas-poupança. Apesar de ter duas contas poupança e uma de certificados de aforro, para a administrativa, a prioridade é “evitar ao máximo tocar em qualquer dinheiro que esteja nessas contas”. Ensinada pelos pais a poupar desde criança, a conta de certificados de aforro foi criada pelos pais para arrecadar o dinheiro que recebia em datas festivas ou em prémios de mérito escolar, mas raramente a movimenta porque sempre lhe transmitiam que “rendia mais”. Por isso, decidiu criar duas contas poupança, sendo que numa delas transfere todos os mês automaticamente do seu salário pelo menos 100 euros. Caso no final do mês ainda lhe sobre dinheiro, transfere “esse dinheiro para essa conta”.

Eu tinha lá [casa dos pais] para aí uns cinco mealheiros em que só tinha tirado as notas e as moedas de 1 e 2 euros e guardei-os no armário em casa dos meus pais. Este ano roubaram o meu telemóvel e para comprar outro não queria estar a ir à conta poupança nem a tirar dinheiro do salário, então decidi ir a esses mealheiros ver. Só com esses mealheiros que, nunca liguei porque eram moedas de cêntimos, consegui metade do dinheiro do telefone.

Débora Lopes, admnistrativa, 26 anos

Estas poupanças servem-lhe maioritariamente para viajar, mas também como segurança face a imprevistos. No que toca a comprar casa, para já não é uma prioridade. “Eu penso em um dia comprar uma casa, mas também tenho perfeita noção que a facilidade de comprar uma casa já não é a mesma que era na geração dos meus pais. A minha prioridade neste momento é viajar e é nisso que eu gasto mais dinheiro”, atira.

Por outro lado, Diogo Fonseca tem uma conta-poupança, mas nunca a movimentou porque quando isso acontecer tem de “tirar tudo”. Até lá tenta pagar o que pode a pronto e recorre muito esporadicamente ao crédito, como é no caso das lojas em que vendem eletrodomésticos que “facilitam estas situações”. Quando há imprevistos mais graves “graças a deus ligo à minha mãe”.

E o futuro?

“Ainda vivo com os meus pais. Por isso é que consigo poupar, senão não conseguia morar em Lisboa e viver dos meus rendimentos”, afirma Gonçalo Lourenço, engenheiro informático, de 24 anos. Tal como grande parte dos jovens, gostava de ter casa própria, mas considera que “depende muito da situação profissional daqui para a frente porque a continuar como está não vou conseguir poupar muito”.

No caso de Diogo Fonseca valeu-lhe os pais que entraram com grande parte do dinheiro para a compra da casa e ele teve apenas de pedir um quarto do montante ao banco. “A minha vantagem foi que a percentagem que pedi ao banco foi muito curta, só 25%, e o resto da casa foi dinheiro que os meus pais guardaram ao longo destes anos para mim e para uma eventualidade destas”. Caso contrário seria “impossível”, refere.

No que toca em poupar para a reforma, grande parte dos jovens entrevistados pelo ECO admite que pensa no assunto, mas não muito. Segundo o Inquérito à Literacia Financeira, divulgado em 2016 pelo Conselho Nacional de Supervisores Financeiros, pouco mais de metade (54,1%) dos entrevistados revela estar pouco ou nada confiante no planeamento da sua reforma. A generalidade dos inquiridos prevê assegurar a reforma através dos regimes contributivos obrigatórios”, refere o relatório.

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