2023: o ano dos headwinds?
Um contexto económico pouco estimulante não significa que todos os setores, nem todas as empresas, estejam em crise.
Passando em revista apenas uma ínfima parte de recentes artigos europeus e americanos em torno das previsões para a atividade de M&A em 2023 a palavra comum a todos eles, sem exceção, é headwinds – ventos contrários ou desfavoráveis.
Não há dúvida que as atuais condições macroeconómicas não são animadoras: subida da inflação, aumentando custos de forma transversal, subida das taxas de juros, encarecendo o financiamento, incertezas agravadas face às cadeias de fornecimento. A isto acrescem todas as consequências (e incertezas) da guerra na Ucrânia, também, mas não só, causadora em parte daquelas condições.
Mas o reverso desta medalha reside na circunstância de cada crise gerar oportunidades únicas na resposta a necessidades extraordinárias, como se viu no auge da pandemia – o que, aliás, já devíamos ter aprendido com outras crises -, pelo que a crise de 2023 não deverá ser exceção. Um contexto económico pouco estimulante não significa que todos os setores, nem todas as empresas, estejam em crise.
Assim, como exemplo, o setor energético mantém-se pressionado pela necessidade de implementar práticas destinadas a assegurar a neutralidade carbónica e o incremento de políticas e investimentos no domínio da sustentabilidade, ainda que num registo não tão acelerado como desejável, pelo que o setor das renováveis deverá permanecer particularmente ativo e ser intensificada a aposta no hidrogénio verde.
Por outro lado, empresas performantes sentem que, em tempos incertos (e por causa deles), a adoção de estratégias de crescimento e inovação, implementada através de aquisições -, seja dos seus concorrentes ou das respetivas áreas de negócio, seja em áreas complementares -, lhes trarão vantagens competitivas, o que poderá ser particularmente relevante no caso das tecnológicas, mas não só.
Mas, em paralelo, essas empresas performantes poderão igualmente sentir outro tipo de necessidade: a de otimizar os seus negócios, focando-se nos mais rentáveis e colocando no mercado os que o são menos ou que, de um ponto de vista estratégico, deixaram de ser prioritários. Estes negócios, a par dos que são vendidos por pura necessidade, continuarão a constituir outro potencial foco de interesse do M&A.
Haverá ainda que ter presente que, uma vez definitivamente virada a página da pandemia, os setores que por ela mais foram afetados tiveram, entretanto, um novo fôlego (veja-se o caso do turismo, entre outras áreas), sendo expectável que outras áreas, como a da saúde, continuem a crescer.
Já as preocupações com a ciber-segurança, uma tendência crescente e impossível de descurar nesta nova modernidade, deverão continuar a tornar especialmente atrativas as empresas fornecedoras de soluções neste domínio.
Numa perspetiva puramente de M&A, e porque os headwinds geram incerteza e falta de confiança nos mercados por parte tanto de vendedores como de compradores, será de esperar, por exemplo, uma intensificação das preocupações de due diligence, em todas as áreas, incluindo o ESG (cada vez mais relevante), um gap cada vez maior no que toca à valorização dos negócios entre vendedor e comprador, tornando quase inevitável, por exemplo, o recurso a earn-outs e estruturas similares, assim como um foco acrescido nas cláusulas MAC. Nada de muito novo, na verdade.
Seja como for, condições (ou ventos) desfavoráveis tipicamente retardam a tomada de decisões, podendo reduzir o volume de transações e dificultar negociações, mas também trazem novas oportunidades de negócio e, sobretudo, permitem crescimentos acelerados e saltos de competitividade para os que dispõem de condições que lhes permitam navegar à bolina cerrada.
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