2026 não será confortável: E é melhor aceitarmos Isso

2026 não será um ano de resolução, mas de clarificação. Não desaparecerão os riscos, ficará apenas mais evidente quem está preparado para operar num mundo instável.

Janeiro é, por tradição, o mês das previsões e dos cenários mais ou menos otimistas. Em 2026, esse exercício exige maior prudência. O novo ano começa menos com promessas de viragem e mais com a consciência clara de que a economia global entrou numa fase estruturalmente mais instável. Saímos de 2025 não com a habitual euforia de início de ciclo, mas com a sobriedade forçada de quem finalmente compreendeu que a “normalidade” de outrora é agora uma peça de museu, coberta de pó e nostalgia.

Comecemos, pois, pelo paquiderme que se instalou no centro da sala de negociação: os Mercados de Capitais. Este não será um ano de adivinhação sobre a ação tecnológica do momento; será antes um exercício de sobrevivência no caos, executado com a elegância possível de quem tenta não entornar o cálice de Porto num convés açoitado pela tempestade.

Se algo aprendemos nos últimos anos, foi que o mercado abdicou de ser reflexo da economia real para se metamorfosear num casino global, gerido por algoritmos maníaco-depressivos. Em 2026, a variável dominante já não será a inflação (essa velha senhora ranzinza com quem aprendemos a coexistir após o Covid-19), mas sim a volatilidade estrutural. Esqueçam a confortável falácia da soft landing; estamos a bordo de uma aeronave em que o piloto automático (a Inteligência Artificial) discute acaloradamente com o copiloto (os Bancos Centrais) sobre quem tem, de facto, os comandos.

O investidor de 2026 terá de professar um saudável agnosticismo financeiro: desconfiar dos rallies eternos e ignorar os profetas do apocalipse iminente. A chamada “bolha da IA”, que inflacionou os índices até à estratosfera, entra agora na sua fase de adolescência rebelde. Já não basta prometer disrupção; é preciso arrumar o quarto e apresentar lucros palpáveis que justifiquem avaliações que fariam corar uma start-up de 1999. Será um ano de saneamento de expectativas, em que o capital mais especulativo se evapora e o “dinheiro velho” regressa, cauteloso, aos ativos reais.

Se os gráficos bolsistas se assemelham a eletrocardiogramas de um taquicárdico, a Geopolítica transformou-se num tabuleiro de xadrez onde alguém, num acesso de fúria, decidiu incendiar as peças.

Na Ucrânia, 2026 encontra a guerra numa fase particularmente insidiosa, aquela que as chancelarias descrevem com eufemismo clínico como “conflito congelado de alta intensidade”. Já não se mede o avanço em quilómetros conquistados, mas na resistência dos materiais e, sobretudo, na paciência e resiliência dos ucranianos e europeus. A fadiga dos doadores tornou-se a nova frente de batalha. A Europa, em contorcionismo permanente entre a despesa em Defesa e a preservação do Estado Social, observa Kiev com um misto de obrigação moral e exaustão fiscal. Moscovo aposta no tempo; os ucranianos e os seus aliados, na tecnologia. O resultado é um impasse sangrento, em que a vitória não se contabiliza em mapas redesenhados, mas na capacidade de manter as luzes acesas em Kiev e a coesão política em Bruxelas.

Mais a Oriente, o ‘pas de deux’ entre a China e Taiwan mantém-se como uma das dinâmicas geopolíticas mais perigosas do planeta. Não se deve esperar uma invasão clássica ao estilo do Dia D: Pequim é demasiado sofisticada, e demasiado enredada na economia mundial, para uma rutura abrupta dessa natureza. O que 2026 promete é o aprofundamento da chamada “estrangulação de veludo”: exercícios navais que funcionam como bloqueios parciais, ciberataques cirúrgicos e uma pressão diplomática constante e asfixiante. Para as empresas globais, o nervosismo é estrutural. A tentativa de diversificar cadeias de abastecimento avança lentamente, revelando que desvincular-se da China é uma quimera logística. No centro desta equação está a TSMC, responsável por cerca de 60% da produção mundial de semicondutores por contrato e por mais de 90% dos chips avançados. Esta concentração transforma Taiwan num verdadeiro ponto de estrangulamento da economia digital global: os semicondutores são o novo ouro, e a TSMC a infraestrutura crítica que sustenta setores tão diversos como tecnologia, defesa, automóvel e inteligência artificial; um ativo que todos procuram proteger, embora poucos estejam dispostos a assumir explicitamente o custo político e militar dessa defesa.

Na América Latina, 2026 trouxe um episódio que poucos ousavam prever com tal frontalidade: a detenção de Nicolás Maduro, na sequência de uma operação desencadeada pelo governo norte-americano a 2 de janeiro. O momento foi sísmico. Mais do que a captura de um chefe de Estado em funções, tratou-se de um sinal inequívoco de que Washington abandonou qualquer pretensão de ambiguidade estratégica face ao regime venezuelano. As repercussões fizeram-se sentir de Caracas a Havana, reacendendo debates sobre soberania, direito internacional e precedentes perigosos. Para uns, foi o colapso final de um regime sustentado pela inércia diplomática; para outros, a abertura de uma caixa de Pandora que fragiliza ainda mais a já instável arquitetura geopolítica regional.

E, inevitavelmente, o Irão. Se a geopolítica fosse uma orquestra sinfónica, Teerão seria o percussionista que insiste em tocar em contratempo, apenas para testar os nervos do maestro. A questão nuclear, neste ano da graça de 2026, deixou de ser uma hipótese remota para se tornar uma iminência desconfortável. O regime, pressionado internamente, projeta força externamente para garantir a sua sobrevivência. Preparem-se para ver o preço do crude oscilar ao ritmo de cada suspiro no Estreito de Ormuz. É um jogo de nervos em que o erro de cálculo é a única certeza.

Regressando à nossa jangada de pedra, Portugal enfrenta o seu próprio drama shakespeariano com as Eleições Presidenciais.

Após uma década marcada por uma Presidência que confundiu proximidade com onipresença e magistratura com comentário televisivo, 2026 surge como o ano da ressaca mediática. O papel do Presidente da República, essa chave-mestra do sistema semipresidencialista, foi progressivamente banalizado entre selfies e indiscrições, esvaziando a solenidade de Belém. O eleitorado, exausto de afetos performativos, procura agora algo quase revolucionário: o silêncio competente. Estas eleições não se decidirão por quem grita mais alto ou distribui mais beijos, mas por quem consegue restaurar a gravitas institucional. Num país que precisa de revigorar de forma sustentada o seu modelo económico, a governação não pode assentar na negociação anual de orçamentos, mas antes de políticas verdadeiramente reformadoras e regeneradoras, e para tal é urgente um árbitro que saiba quando apitar, e não um comentador que está constantemente a “invadir o relvado”.

No plano do quotidiano laboral, o Mercado de Trabalho transformou-se num laboratório social de contornos distópicos. A disputa entre remoto e presencial terminou num armistício confuso; a verdadeira fratura passa agora entre quem domestica a IA e quem é domesticado por ela. A classe média de colarinho branco enfrenta a sua maior crise existencial. As empresas clamam pelo “toque humano” (criatividade, empatia, negociação complexa), enquanto automatizam impiedosamente tudo o que é processual. Em 2026, a mediocridade é uma sentença profissional. Ou se é excecionalmente humano, ou se é mais caro do que um servidor na nuvem. E, por suprema ironia, os ofícios manuais tornar-se-ão ativos de luxo. Quem diria que chegaríamos ao momento em que um canalizador teria maior segurança laboral e pricing power do que, por exemplo, um analista de dados júnior?

Para anestesiar esta realidade, sobra-nos o Mundial de Futebol. O ópio do povo regressa em escala industrial, espalhado por estádios colossais na América do Norte. O Mundial de 2026 será o triunfo definitivo da logística sobre a paixão. Com 48 seleções e distâncias continentais, a variável crítica será o jet lag. O evento é a metáfora perfeita da economia global: excessiva, dispendiosa, logisticamente insana e patrocinada por conglomerados que simulam preocupação ambiental enquanto fretam esquadras de jatos privados. Ainda assim, cinismo à parte, será o momento em que o planeta suspende a respiração para ver 22 milionários correr atrás de uma bola. Num mundo à beira de tensões nucleares, gritar “Golo!” continua a ser a única linguagem verdadeiramente universal e isenta de tarifas.

Em suma, 2026 não será um ano para amadores nem para espíritos frágeis. Não será o ano em que os problemas desaparecem, mas aquele em que aprendemos a coexistir com eles sem perder a sanidade mental. A economia avançará aos solavancos, ora claudicante, ora galopante, movida por essa força inesgotável que é a ambição humana e pela ganância, a sua prima menos apresentável, mas essencial na dose certa.

Em suma, 2026 não será um ano de resolução, mas de clarificação. Não desaparecerão os riscos, nem regressará à normalidade perdida, ficará apenas mais evidente quem está preparado para operar num mundo instável e quem continua a agir como se o ciclo anterior ainda estivesse em vigor. A economia avançará de forma desigual, penalizando a complacência e premiando a adaptação, a disciplina e a leitura fria da realidade. A verdadeira questão, no final, não é se 2026 será um bom ou mau ano, é se estaremos dispostos a ajustar expectativas, decisões e políticas a um contexto que já mudou. Porque insistir em modelos antigos, num mundo estruturalmente novo, não é prudência: é ilusão.

  • Colunista convidado. Economista e professor na FEP e na PBS

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