A dependência da Europa tem um preço
Os efeitos a longo prazo [da guerra no Irão] na economia e na transição ecológica da Europa, na segurança alimentar e em tecnologias vitais como os semicondutores podem ser catastróficos.
A guerra é o caos. Tem consequências devastadoras para as vidas das pessoas e os seus meios de subsistência, para as economias e para o ambiente. Desta vez, o caos a que assistimos no Médio Oriente está a propagar-se rapidamente por todo o mundo e o encerramento do estreito de Ormuz teve efeitos imediatos e graves. Desde o início deste conflito, a fatura da UE com as importações de combustíveis fósseis aumentou mais de 24 mil milhões de euros. Mas a energia não é o único setor afetado. O impacto sobre os produtos de base essenciais, como os fertilizantes, está a ser sentido pelos agricultores em toda a Europa. O abastecimento de matérias-primas como a nafta, a espinha dorsal da indústria química, é muito limitado. E temo que este caos possa não ficar por aqui. Os efeitos a longo prazo na economia e na transição ecológica da Europa, na segurança alimentar e em tecnologias vitais como os semicondutores podem ser catastróficos.
Não é a primeira vez que a Europa é afetada pela sobrexposição a cadeias de abastecimento vulneráveis e pela dependência excessiva de outras economias. A pandemia de COVID-19, o bloqueio de seis dias do canal de Suez em 2021 e a invasão da Ucrânia pela Rússia também atingiram os cidadãos e as indústrias europeias. Recentemente, assistimos à instrumentalização das cadeias de abastecimento num ambiente internacional cada vez mais hostil. No ano passado, a China bloqueou a exportação de elementos de terras raras, forçando temporariamente os fabricantes de automóveis europeus a encerrar as suas fábricas. Embora estes choques estivessem, em grande medida, fora do nosso controlo, as consequências eram inteiramente previsíveis. Todas estas crises, das guerras reais e comerciais a uma pandemia mundial, expuseram a Europa e, na situação atual, estamos à mercê do próximo choque inevitável.
A UE tem duas lições claras a tirar. Em primeiro lugar, ainda estamos demasiado dependentes do gás, do petróleo e dos produtos dele derivados. Os combustíveis fósseis podem fornecer energia às nossas sociedades neste momento, mas estão a prejudicar-nos em termos geopolíticos, económicos e ambientais. Temos de acabar com esta dependência tóxica. O barril de petróleo mais barato é aquele que não utilizamos. Em segundo lugar, precisamos urgentemente de reduzir a nossa dependência relativamente a outras economias e a exposição a cadeias de abastecimento frágeis. A transição para uma economia circular que recupere e reutilize materiais críticos e estratégicos em vez de os eliminar reduziria substancialmente a necessidade de novas importações e contribuiria para libertar-nos de eventuais restrições nas cadeias de abastecimento.
O potencial é tremendo. Uma tonelada de componentes de telemóveis pode fornecer aos recicladores as quantidades de ouro e de cobre normalmente obtidas a partir de 2 000 toneladas de rocha extraída. Numa Europa circular, a valorização de materiais das baterias poderá satisfazer metade da procura de cobalto da UE até 2040. Grande parte das nossas importações de fósforo, incluindo as provenientes da Rússia, poderia ser substituída por fósforo recuperado das águas residuais. O biogás poderia satisfazer 10 % das necessidades de gás da Europa e a bionafta pode compensar insuficiências de combustíveis fósseis. Medidas como estas são uma escolha óbvia numa Europa escassa em recursos. Menos petróleo e menos dependências externas significam mais autonomia estratégica, mais segurança económica e mais competitividade. Por este motivo, precisamos de retirar o máximo valor de cada tonelada de material. Tal implica aumentar a eficiência da produção, da conceção e da utilização, além de uma melhor simbiose industrial, em que as empresas trocam materiais, energia, água e resíduos.
A transição para uma Europa circular está em curso, mas avançamos de forma demasiado lenta e intermitente. Apenas se realiza a recuperação de um por cento de determinados elementos de terras raras, a reutilização de um por cento dos materiais de demolições de edifícios e a reciclagem de um por cento do vestuário usado, muito do qual de base petroquímica. Mas a UE está a trabalhar para alterar esta situação. Ainda este ano, um ato legislativo sobre economia circular virá reforçar o mercado único das matérias-primas secundárias e um ato legislativo sobre biotecnologia virá criar mercados para materiais de base biológica, nomeadamente transformando os resíduos em energia e fertilizantes. A indústria tem igualmente um incentivo para agir. Da economia circular do plástico à bionafta, as indústrias europeias dispõem de capacidades significativas não utilizadas e podem aumentar rapidamente a produção. A opção por abastecimentos circulares ou de base biológica europeus tornará as empresas mais resilientes e menos vulneráveis às contingências da geopolítica ou dos mercados mundiais.
Tal como as crises que o precederam, o conflito no Médio Oriente pôs em evidência os pontos fracos do nosso sistema linear com uso intensivo de carbono. Mas também nos mostrou, uma vez mais, o que temos de mudar. Chegou o momento de escutarmos os sinais e de encararmos a verdadeira natureza da circularidade: uma oportunidade para sermos mais prósperos, para investirmos no nosso futuro e para nos protegermos da próxima crise.
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