À (Há) Procura de Capacidade
Nuno Oliveira Matos teme que a economia fique reduzida na capacidade de aceitar riscos. Se não forem as seguradoras quem será?
Apesar de invisível, o seguro é uma das mais poderosas infraestruturas da economia. Permite construir fábricas, financiar infraestruturas, expandir cadeias logísticas, conceder crédito, desenvolver comércio internacional e acelerar o investimento.
O setor segurador nunca teve apenas a função de pagar sinistros. Tem uma função muito mais importante. Tornar o crescimento possível.
Mas a natureza dos riscos está a mudar. As alterações climáticas, a crescente interdependência tecnológica, os riscos cibernéticos, a fragmentação geopolítica, as cadeias globais de abastecimento, estão a criar o fenómeno dos riscos já não surgirem isoladamente. Como estão correlacionados, existe cúmulo de riscos. E quando os riscos se tornam sistémicos, a questão deixa de ser apenas atuarial. Torna-se estratégica.
Porque uma economia pode funcionar sem muitos produtos. Mas dificilmente funciona sem capacidade de transferência de risco.
É precisamente por isso que o debate mais relevante para o futuro do setor talvez não seja a inteligência artificial. Nem a distribuição digital. Nem os seguros paramétricos. Nem sequer o preço.
A questão verdadeiramente decisiva é que papel terão as empresas de seguros numa economia onde uma parte crescente dos riscos se aproxima da fronteira da não segurabilidade?
Historicamente, quando um risco deixava de ser aceitável para um determinado operador, outro encontrava uma forma de o tarifar e subscrever.
Hoje, em vários segmentos, observamos algo diferente. Estamos a assistir a uma redefinição dos próprios limites da oferta de seguros.
Se as empresas de seguros recuarem de determinados riscos, quem avança? O capital privado? Os mercados financeiros? Os contribuintes? Ou ninguém.
Porque quando um risco deixa de ser segurável, ele não desaparece. Permanece na economia. Permanece nos balanços das empresas. Permanece no património das famílias.
Talvez, por isso, o verdadeiro desafio estratégico do setor já não seja decidir quais os riscos que quer subscrever. Talvez seja decidir quais os riscos que a economia precisa que continuem a ser subscritos. A diferença é enorme. A primeira é uma discussão de apetite ao risco. A segunda é uma discussão de relevância.
As indústrias mais relevantes são normalmente aquelas que resolvem os problemas que mais ninguém consegue resolver. É aqui que surge uma segunda reflexão.
O desafio dos próximos anos não será apenas prever eventos. Será compreender interdependências.
A História mostra que as grandes transformações das indústrias raramente acontecem porque a tecnologia muda. Acontecem porque muda a forma como essas indústrias criam valor. Oxalá estejamos precisamente num desses momentos.
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