A coragem comunicacional e o confronto direto com o individualismo são os pilares inegociáveis do sucesso.

Há momentos no futebol, e na vida empresarial, que definem irremediavelmente quem somos. Não é a grandeza do palco que nos expõe, mas a forma como reagimos quando o guião não nos coloca no centro das atenções. A triste sina de quem não aceita que ficou de fora de uma vitória por opção expressa do treinador é um espetáculo doloroso, mas profundamente revelador.

Para decifrar este comportamento, recorro frequentemente a Patrick Lencioni e ao seu pequeno, mas magistral livro “As Cinco Disfunções de uma Equipa”. Lencioni identifica esta atitude como a disfunção que coroa a pirâmide do fracasso coletivo: a desatenção aos resultados. É o triunfo letal do ego e do estatuto individual sobre o sucesso do grupo. A incapacidade de compreender que a vitória da equipa está acima dos minutos em campo destrói a coesão de qualquer organização.

Aquando do Mundial, quando escrevi sobre a liderança de Roberto Martínez, sublinhei que a fraqueza da comunicação, o modelo de jogo assente na proteção das debilidades do número 7 e um discurso de baixa exigência era o sintoma mais impactante e devastador de um projeto que não era capaz de ganhar nos grandes palcos. À luz do modelo de Lencioni, esta hesitação comunicacional não nasce do acaso; é o resultado direto das duas primeiras disfunções: a falta de confiança e o medo do conflito. Um líder que hesita na mensagem, que contorna as arestas do balneário com eufemismos para não ferir suscetibilidades, está a promover uma “harmonia artificial”. Num grupo sem a confiança necessária para ser vulnerável, evita-se o debate aberto e honesto. Sem coragem para o conflito construtivo e para as conversas difíceis, a liderança dilui-se, a autoridade esvazia-se e o talento individual transforma-se numa manta de retalhos, unida por conveniência e não por convicção.

O efeito cascata deste vazio de liderança é implacável. Quando as decisões não são discutidas de forma frontal nem assentes em critérios transparentes de mérito, instala-se a terceira disfunção de Lencioni: a falta de compromisso. Os jogadores podem até acenar com a cabeça no balneário, mas a ambiguidade impede que “comprem” a ideia. Sem um compromisso genuíno, surge a quarta e fatal disfunção: evitar a responsabilização (ou ausência de cobrança). Se as regras não são claras e iguais para todos, os membros da equipa baixam os padrões de exigência e deixam de cobrar aos seus pares. Ninguém exige ao colega do lado que corra mais ou que recupere a posição, e a equipa afunda-se na mediocridade da complacência.

Em contrapartida, o panorama que hoje observamos na seleção nacional demonstra que um líder nato rompe este ciclo destrutivo. É aqui que emerge a força de ser “Apenas JJ”. Mais do que as iniciais de um nome, JJ deve ser lido como um conceito de gestão de excelência: o verdadeiro “Jogar Junto”, ancorado naquilo que podemos apelidar de Jam Joy. Tal como numa jam session de jazz, onde há uma estrutura rigorosa que permite o improviso genial, a verdadeira liderança cria a fundação para que a alegria do jogo (Joy) surja da união e do compromisso partilhado (Jointness). Liderar, como nos ensina Lencioni, não é agradar a todos os egos da sala; é alinhar vontades em torno de uma missão comum, exigindo sacrifício e garantindo a responsabilização mútua.

Esta nova Seleção Nacional lusa é o reflexo prático, no relvado, da superação das cinco disfunções. Hoje, Portugal joga livre. Contudo, percebemos agora que essa liberdade não se confunde com anarquia; é o resultado de uma equipa altamente comprometida. A Seleção apresenta, finalmente, uma intensidade constante e o seu bloco de pressão alto é o antídoto perfeito contra a falta de responsabilização: os jogadores reagem à perda da bola de forma agressiva e coordenada, encurtando espaços desde a primeira linha, porque sabem que se um elemento falhar o compromisso, toda a estrutura colapsa. Cobram-se mutuamente, num sinal de suprema saúde coletiva.

O mais extraordinário neste processo é constatar como a imensa qualidade técnica dos jogadores portugueses está, finalmente, devidamente colocada ao serviço exclusivo da Seleção. Já não vivemos reféns de rasgos isolados ou da dependência de salvadores da pátria. Há dinâmicas fluídas, ocupação racional dos espaços e uma solidariedade que potencia a criatividade dos nossos executantes.

A grande lição deste percurso, tão válida para o desporto como para as empresas, é profunda: a coragem comunicacional e o confronto direto com o individualismo são os pilares inegociáveis do sucesso. Ao aplicar a filosofia do “Apenas JJ”, destrói-se o egoísmo, exige-se compromisso e celebra-se a responsabilização. E quando a equipa confia e o coletivo se sobrepõe ao ego, o talento puro acaba, inevitavelmente, por ditar a sua lei.

  • Colunista convidado. Economista e professor na FEP e na PBS

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Apenas JJ

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