Em Portugal falta a cunha decisiva para transformar o país numa nação onde possa prevalecer a prosperidade mais o reconhecimento da decência mais a valorização do mérito mais o predomínio da justiça.

Há a ideia estabelecida de que a democracia serve para eleger os melhores. Na realidade, a democracia é o regime que permite que os piores não se perpetuem no poder. A vantagem é óbvia – A democracia é um mecanismo político que permite seleccionar os medíocres numa escala de progresso até ao cidadão ideal. A redução do factor medíocre abre assim o espaço político para a ascensão do mérito. A conclusão é paradoxal e vai contra as convenções do género que apresentam a democracia como o espaço político da cidadania do mérito.

Vem esta reflexão a propósito do labirinto de cunhas no caso das gémeas. Temos uma mãe e duas crianças próximas de um amigo de um amigo, um filho de um Presidente da República em contacto com um Secretário de Estado da Saúde na tutela de um Administrador Hospitalar. Esta sequência informal no interior da formalidade democrática custou ao Estado e aos portugueses 4 milhões de euros. As razões para tal comportamento não se prendem com a consciência do factor cunha, conceito repudiado por todos os intervenientes de elevada extracção democrática. A corrente de influências representa na circunstância a lógica de um Regime que se pretende próximo dos cidadãos e vinculado a valores humanitários. Vamos respeitar as regras que impõem uma eternidade ou vamos agilizar os processos em nome de um bem maior? Mate-se a regra democrática, mas salvem-se as crianças.

Muito se tem escrito sobre a cultura da cunha em Portugal. Mas nunca se sublinha verdadeiramente que a cunha é um mecanismo de subversão que apenas leva ao privilégio dos privilegiados. Por que razão se aceita a subversão em proveito dos mais desfavorecidos e não se reconhece a subversão na promoção dos privilegiados? Para um privilegiado a instituição da cunha é a prova do regular funcionamento das instituições. Para um desfavorecido a instituição da cunha é um factor de ascensão social. Para o privilegiado a cunha faz parte do estatuto social. Para o desfavorecido a cunha representa o horizonte de um novo estatuto social. O equívoco político está na consideração deste novo estatuto social da cunha como a prova da superioridade e eficácia do regime democrático. É a visão de que a democracia é a generalização da cunha que se transforma numa espécie de direito social.

Em matéria de cunhas e de privilégios, a democracia não fica a dever nada a qualquer ditadura. Talvez apenas em matéria de hipocrisia possa existir uma imensa distinção – A ditadura assume o pressuposto da cunha e do privilégio político enquanto a democracia se esconde para além da transparência igualitária dos discursos sobre o mérito dos direitos constitucionais.

A cunha estabelece uma espécie de rede de protecção garantida no deserto de uma democracia em que o privilégio é a negação de uma lógica de igualdade de oportunidades e a negação de uma lógica de igualdade de resultados. Neste sentido, a cunha não é de esquerda nem de direita pois é uma prática cultural estabelecida num país habituado ao “pessoalismo” como ideologia natural – As relações pessoais são o centro de uma qualquer concepção de justiça.

Para a esquerda a cunha é o predomínio da solidariedade internacionalista. Para a direita a cunha é o predomínio da solidariedade nacionalista. Quando a cunha se confunde com a democracia, para a extrema-esquerda a cunha transforma-se num factor de dominação e de opressão. Quando a cunha se disfarça de democracia, para a extrema-direita a cunha representa a corrupção de um sistema que privilegia a superioridade de uma vinculação progressista. Seja pelo nepotismo, pelo puro compadrio ou pelo clientelismo, a cunha representa sempre a existência de um país esquecido e eternamente à espera de um futuro sempre melhor e sempre adiado.

A cunha é a cultura política da autoridade exercida no silêncio dos gabinetes e longe do escrutínio público. A cunha é a cultura social do subalterno que obedece a uma autoridade superior para poder manter um estatuto profissional e financeiro. A cunha é a afirmação de que a igualdade é uma quimera democrática e um valor político que se aplica sempre aos outros e nunca aos nossos.

Em Portugal falta a cunha decisiva para transformar o país numa nação onde possa prevalecer a prosperidade mais o reconhecimento da decência mais a valorização do mérito mais o predomínio da justiça. Esta cunha sofre do delírio das expectativas e da desilusão de um país que insiste em ignorar os melhores e em promover os medíocres. Alguém tem o contacto para o gabinete dos amanhãs que cantam? Os portugueses agradecem.

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Gémeas em cunha

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