A ilusão do retorno imediato

  • Pedro Barata
  • 20 Outubro 2025

O fascínio pelo lucro rápido continua a seduzir investidores, mas na maior parte dos casos não passa de uma ilusão.

Quem nunca sonhou em ganhar o Euromilhões, em herdar uma fortuna inesperada ou fazer aquele investimento que multiplica de valor em poucos meses? Se este é o seu caso, saiba que não está sozinho. A possibilidade de enriquecer rapidamente, sem um esforço contínuo, faz parte do imaginário coletivo. Porém, para a grande maioria das pessoas, esta expectativa nunca se concretizará.

O caminho para o bem-estar financeiro raramente se faz de grandes saltos, mas de passos firmes, sustentados pela resiliência, pela disciplina e por hábitos financeiros saudáveis.

Tudo começa com uma regra muito simples: gastar menos do que se ganha. Sem essa base, não há poupança possível e, sem ela, não há investimento. Mesmo rendimentos muito elevados esgotam-se se forem acompanhados por despesas ainda maiores.

A adrenalina dos mercados em alta alimenta a ilusão de competência e reforça a convicção de que se domina o jogo, mas, na maioria dos casos, trata-se apenas disso – uma ilusão.

No entanto, há quem ainda acredite que o processo de criação de riqueza pode ser acelerado: “Porquê ficar rico lentamente se posso ficar rico rapidamente?”. São normalmente exemplos de ganhos imediatos, contados por outros, que leva os investidores menos literados a acreditar que é possível driblar o tempo e alcançar rapidamente o sucesso financeiro.

Estas são pessoas que tendem a procurar o retorno imediato em tudo o que fazem. Acreditam que, acelerando o processo, conseguem alcançar mais rapidamente o seu objetivo e dessa forma transformar as suas vidas. Assim, quando compram um ativo, estão sempre à espera que este valorize imediatamente obtendo dessa forma uma rápida confirmação de que as decisões que tomaram foram as corretas. Se tal não acontece, mudam de rumo repetindo o ciclo numa “dança” constante entre esperança e frustração.

Essas constantes compras e vendas mostram que estes investidores se comportam no mercado financeiro como se comportam num casino – intuição apenas, decisão emocional, sorte e azar.

No curto prazo, esta dinâmica até pode ser excitante. A adrenalina dos mercados em alta alimenta a ilusão de competência e reforça a convicção de que se domina o jogo, mas, na maioria dos casos, trata-se apenas disso – uma ilusão.

Para estes investidores, o objetivo não passa por saber se estão a comprar caro ou barato, mas sim em saber se conseguem encontrar alguém que pague pelo ativo que compraram mais do que eles pagaram por ele. Infelizmente, muitas vezes isso não acontece e múltiplas poupanças se têm perdido na tentativa de o conseguir.

Assim, obter um ganho rápido num negócio por um golpe de sorte pode parecer entusiasmante, mas é muitas vezes a pior forma de ganhar. A repetição emotiva destas decisões pode levar a uma sequência de perdas que podem vir a ser fatais.

Esta tendência é particularmente visível entre investidores com menor literacia financeira, mais propensos em “ir na onda”. Especular passa muitas vezes por seguir o sentimento dominante e, quando todos parecem fazer o mesmo, o conforto psicológico substitui, geralmente, a análise racional. Porém, tal como num casino, as probabilidades de conseguirem vencer de uma forma consistente são reduzidas, pelo que o resultado final tende quase sempre a ser mau.

Muito poucos são aqueles que conseguem contrariar esta regra e é por isso que os conhecemos. Porque são a exceção. Todos os outros, os derrotados, não passam de uma massa enorme de investidores/jogadores que alimenta a riqueza dos outros.

Ben Carlson no seu livro “A wealth of common sense” afirma que “investir com sucesso tende a ser uma tarefa monotona e aborrecida. É um ato que pressupõe uma constante evolução, sabendo de antemão que nem todos os investimentos correm bem e que por isso nunca se conseguirá alcançar a perfeição. Criar riqueza requer paciência e disciplina.”

Assim, obter um ganho rápido num negócio por um golpe de sorte pode parecer entusiasmante, mas é muitas vezes a pior forma de ganhar. A repetição emotiva destas decisões pode levar a uma sequência de perdas que podem vir a ser fatais.

No final de contas, o segredo não é novo nem glamoroso: gastar menos do que se ganha, investir o que sobra e fazer disso um hábito.

O verdadeiro investidor sabe que criar riqueza é um processo, não um momento pontual. Ele investe de uma forma ponderada, procurando aprender sempre. Não só através dos negócios que correm bem, mas principalmente daqueles que correm mal. Na maioria das vezes, são estes últimos que lhe vão transmitir os melhores ensinamentos.

No final de contas, o segredo não é novo nem glamoroso: gastar menos do que se ganha, investir o que sobra e fazer disso um hábito. Automatizar a poupança, manter a disciplina e evitar tentar adivinhar o futuro.

O mercado financeiro pode ser fascinante no curto prazo, mas tende a ser bastante enganador. Já no longo prazo, ele pode chegar a ser maçador, mas em contrapartida é confiável e quase previsível.

  • Pedro Barata
  • Economista

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