A internet desigual

A internet está prestes a chegar a metade da população mundial. Mas a história de como chega a quem chega é sintomática da desigualdade global que a própria tecnologia estimula.

Numa das poucas novidades verdadeiramente interessantes da Web Summit desta semana, Tim Berners-Lee propôs uma Magna Carta para a internet, numa ação chamada ForTheWeb. Aquele que é conhecido como o criador da World Wide Web quer livrar a internet da descriminação e da manipulação política que aumentam a desigualdade e colocam a democracia em perigo – e para isso anunciou um documento que vai ser lançado em maio de 2019, precisamente quando se espera que a internet chegue a metade da população do planeta.

A ideia é instituir um princípio de igualdade no acesso à net e na partilha de informação, recusando ao mesmo tempo a censura e assegurando o direito à privacidade. Em tese, isso permitiria reduzir as diferenças entre nações, reduzindo a desigualdade global. O problema, nesta como em muitas outras áreas da sociedade, é que aquilo que dizemos querer não é aquilo que fazemos por ter. E preferimos transformar uma ferramenta de conhecimento num produto cujo acesso é vendido a retalho, que é comprado por quem pode e usado como se manda – até porque não temos literacia digital que nos permita evitar fenómenos tão básicos como os da desinformação.

Se, como a teoria económica tende a afirmar, a desigualdade é consequência de disparidades na educação e nas competências, a limitação do acesso à internet é pura e simplesmente a condenação à miséria de quem a sofre. Permitir desigualdades no acesso à internet entre países – e entre as populações de cada país – é a receita para perpetuar uma desigualdade crescente, que se vai agravar com a transição digital da economia global. Não esqueçamos que esta é a desigualdade digital que as grandes empresas desejam.

O Facebook diverte-se a “oferecer” uma solução de internet aos países em desenvolvimento que na prática confina os utilizadores ao ambiente do próprio Facebook, excluindo o restante mundo digital. Já a Alphabet (mãe da Google) entretém-se a negociar com ditadores soluções mitigadas do seu motor de pesquisa, censurando o acesso a um sexto da população mundial. Tudo em nome do aumento dos lucros, sem contemplações com princípios como direitos humanos, democracia e outras mundanidades.

Claro que estas empresas se apressaram a assinar a Magna Carta de Berners-Lee. Mas estamos muito mais longe de conseguir que um verdadeiro compromisso de princípios se estabeleça nesta questão. Hoje a net é como qualquer outro bem: escasso, regulado, sujeito a regras de mercado e a supervisão política que limita a sua expansão. O que é, aliás, uma extensão de todo o modelo tecnológico: com a crescente digitalização das sociedades, estamos a criar um ambiente promotor da desigualdade, graças a algoritmos que favorecem os preconceitos de quem os programa e cujas decisões são tidas como boas, porque “a tecnologia não engana”. Infelizmente, engana-se e erra muito.

Ler mais: Sobre este tema sugiro não um, mas dois livros. O primeiro chama-se Automating Inequality e foi escrito por Virginia Eubanks, onde expõe as muitas formas como a viragem tecnológica das sociedades prejudica invariavelmente as minorias e os mais pobres, perpetuando um ciclo de desigualdade. Outro, já publicado em 2016, é incontornável nesta questão da desigualdade global: escrito por Branko Milanovic, chama-se Global Inequality e tem edição em português pela Actual.

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