A química do bem-estar profissional

  • Teresa Ayres Pereira
  • 28 Maio 2026

O que distingue os bons líderes, capazes de cultivar um ambiente de trabalho saudável e equilibrado, é a capacidade de deixar de ser reféns da sua própria química e passar a trabalhar com ela.

O nosso cérebro, na sua enorme complexidade, é muitas vezes palco de personagens dramáticas, elencos fascinantes e cenários perfeitos para o desenrolar de uma verdadeira novela. No mundo profissional, os argumentistas são, muitas mais vezes do que imaginamos, as nossas hormonas – e não as nossas decisões racionais.

Comecemos pela dopamina, responsável pela motivação, pela sensação de recompensa e pelo prazer que muitos de nós sentimos ao riscar tarefas da nossa to-do list. À medida que esta personagem ganha protagonismo, surge também o achiever: aquele que consegue manter todos os pratos no ar, que concretiza e que está sempre em ação.

Contudo, este herói pode facilmente passar para o “lado negro da força”. Isto acontece quando decide abrir o e-mail às 23h00 “só para ver se chegou alguma coisa”, quando se torna excessivamente dependente de si próprio ou quando assume o papel de caçador incessante de resultados. O diálogo repete-se: “só mais uma meta”, “só mais um KPI”, “só mais um e-mail”. A verdade é que o “só” nunca chega.

Em cena entra também a oxitocina, a verdadeira diretora de relações públicas. Esta hormona está associada à confiança, à empatia e à conexão social. Transborda em equipas saudáveis e em líderes humanos, que caminham lado a lado com as suas pessoas, reconhecendo que cada indivíduo, na sua singularidade, contribui para o todo que é a equipa e a organização.

Como em todas as novelas, a oxitocina é por vezes negligenciada, dando origem a culturas organizacionais frias e distantes, onde tudo funciona. No entanto, ninguém quer permanecer.

A serotonina, a hormona do bem-estar, do respeito e do equilíbrio emocional, também integra este elenco. Ajuda-nos a sentirmo-nos valorizados, tranquilos e seguros, permitindo uma presença mais clara e evitando que interpretemos divergências como ataques pessoais. Na maioria das vezes, quando alguém discorda de nós em contexto profissional, é muitos mais pela sua especificidade de pensamento, organização interior e decisão, do que por estar “contra nós”.

Quando, ainda assim, nos sentimos ameaçados, o stress aumenta e entra em cena o cortisol, o verdadeiro rei do drama. Essencial para nos manter alerta e preparados para enfrentar desafios, torna-se problemático quando assume o controlo da narrativa. Nesses momentos, qualquer pequeno problema se transforma num episódio digno de um Óscar de melhor drama: tudo parece urgente, importante e assustador. Há lágrimas, irritações, levantar de voz ou suspiros a meia voz, que apesar se não se ouvirem tão bem, são tantas vezes mais acutilantes a cortar um ambiente do que o berro mais alto que se possa dar.

No dia a dia profissional, é comum existir um desalinhamento entre aquilo que planeamos fazer (impulsionado pela dopamina) e o que efetivamente conseguimos concretizar. Quanto maior esse desfasamento, mais a dopamina perde espaço e maior é o protagonismo do cortisol. De repente, instala-se o “tsunami” emocional e tudo parece mais grave do que realmente é. O resultado é inevitável: decisões impulsivas, comunicação passivo-agressiva e um ambiente de trabalho menos saudável.

A felicidade no contexto profissional depende, por isso e em grande parte, do equilíbrio funcional entre estas hormonas. Numa “novela” bem gerida, deveríamos ter dopamina suficiente para garantir direção e motivação; serotonina equilibrada para confiar em nós, nas nossas capacidades e na nossa missão; oxitocina ativa para fortalecer as relações; e cortisol controlado, evitando que os dias se transformem numa sucessão de crises existenciais.

Assim sendo, acredito que é seguro dizer que os líderes mais eficazes não são aqueles que não têm emoções, mas sim aqueles que não permitem que uma única hormona domine toda a narrativa.

Algumas dicas para bem gerir este elenco poderiam ser:

  • Reduzir picos artificiais de dopamina, como desligar notificações não urgentes durante o dia de trabalho.
  • Criar picos reais de oxitocina através de conversas humanas, genuínas e interessadas ou de sessões de coaching bem orientadas.
  • Proteger a serotonina, revisitando o propósito do que fazemos sempre que necessário.
  • Gerir o cortisol, lembrando que nem tudo é urgente ou precisa de ser resolvido de imediato.

No final do dia, todos temos dentro de nós este elenco caótico, sensível e altamente reativo. O que distingue os bons líderes, capazes de cultivar um ambiente de trabalho saudável e equilibrado, é a capacidade de deixar de ser reféns da sua própria química e passar a trabalhar com ela, abandonando os dramas e tornando-se autores do seu próprio guião.

  • Teresa Ayres Pereira
  • Codiretora do programa de Direção de Empresas e Coach Executiva na AESE Business School

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