Editorial

A tragédia da Glória. Por onde podemos começar, mesmo?

Carlos Moedas tem uma responsabilidade política: Não é apenas mudar a administração da Carris já hoje, isso é elementar, tem de impor um novo modelo de governação da sociedade.

Exatamente 45 dias depois do trágico acidente do Elevador da Glória que vitimou 16 pessoas, sabe-se com detalhe o que todos já tínhamos percebido com base na primeira nota informativa sobre o descarrilamento. A Carris falhou em toda a linha na garantia de segurança dos passageiros. E perante estas falhas, obviamente técnicas, mas que resultaram, obviamente, de mão humana, do topo da hierarquia à manutenção do próprio elevador, exigem-se responsabilidades (e não pode ser do porteiro).

O que diz o relatório preliminar do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF)? O cabo que unia as duas cabinas do elevador da Glória não respeitava as especificações da Carris, nem estava certificado para o transporte de pessoas. Lê-se e não se acredita. É que a rotura física do cabo foi apenas o sintoma final de uma rotura moral e organizacional — um serviço público a operar à margem da sua própria norma técnica que falhou em toda a linha, e durante muito tempo.

Por onde podemos começar?

  • O cabo instalado não estava conforme com a especificação interna da Carris.
  • Foi comprado num processo administrativo em que se usou, por engano, a ficha técnica de outro equipamento (Elevador de Santa Justa).
  • O gestor do contrato, o departamento de logística e a direção de manutenção elétrica não detetaram a desconformidade — nem na consulta aos fornecedores, nem na receção do material.
  • O cabo não podia ser usado com destorcedor, condição crítica ignorada pela Carris, apesar de expressamente declarada no certificado do fabricante.

Haveria muito mais a detalhar. Morreram 16 pessoas, há feridos, um desastre. Mas há outro, e não foi ‘apenas’ o rompimento do cabo. Foi o rompimento de toda uma cadeia de responsabilidade na Carris. O relatório preliminar expõe uma falha sistémica que atravessa a hierarquia da Carris, a cultura técnica do país e a fiscalização pública. A corda partiu-se, literalmente e metaforicamente, no ponto onde se cruzam negligência, desorganização e complacência institucional.

A Carris aceitou e utilizou material não conforme com as suas próprias regras, o prestador de manutenção executou tarefas críticas com procedimentos empíricos e a regulação pública limitou-se a observar um sistema centenário operar com padrões do século passado. O resultado foi o previsível colapso de um modelo onde ninguém verificava, ninguém certificava e todos confiavam. Poderia ter acontecido antes, poderia ter acontecido depois, era uma questão de tempo.

Já passaram as eleições, Carlos Moedas ganhou-as de forma reforçada, e tem uma responsabilidade política: Não é apenas mudar a administração da Carris já hoje, isso é elementar, mas manifestamente insuficiente. Como acionista da Carris, tem de impor um novo modelo de governação da sociedade, para garantir o mais básico dos princípios, que está agora em causa: A segurança dos passageiros.

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