A última lição do Professor Marcelo

O objetivo de qualquer partido que queira liderar um Governo deve ser o de conquistar os mais de 2.500.000 de Marcelo. Mas para isso convém ter a humildade de aprender com o Professor.

A “gritaria” em torno dos quase 500.000 votos de Ventura não pode abafar o essencial: o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa teve 60,70% traduzidos em 2.533.799 votos. Teve maioria absoluta em todos os distritos, ganhou em todos os concelhos e só não foi o mais votado em 9 freguesias. Ou seja, soube chegar a todo o tipo de eleitorado, dos mais pobres aos mais ricos, dos mais rurais aos mais urbanos. Seriam precisos 5 Venturas para bater Marcelo. Este não precisou de espalhafato, de gritaria, de promessas impossíveis e de extremismo para conseguir recolher a confiança da larga maioria dos portugueses. Foi humilde. Respeitou e debateu com todos os candidatos e não precisou de insultar ninguém para se impor. Sim, procura ser popular, carismático e de marcar o ritmo da comunicação diariamente nas televisões, mas não cede ao populismo. Nem sequer está nas redes sociais. No fundo, faz política com a inteligência que o caracteriza.

Uma vez mais, a larga maioria dos portugueses deu o sinal claro de preferir a moderação e a previsibilidade ao anti sistema histérico e vazio. Esta realidade não pode ser desvalorizada, pois não havia nenhuma garantia que o resultado tivesse que ser este. Especialmente em tempos de crise e desorientação, não faltam exemplos pelo mundo de sondagens defraudadas e de viragens políticas abrutas. Também não faltam exemplos de como o experimentalismo e a cedência à imoderação levam normalmente a resultados desastrosos para as comunidades, para a paz social e para a democracia.

Estamos, provavelmente, na pior crise das nossas vidas. Assistimos a trágicos recordes de mortalidade e aos hospitais a rebentar pelas costuras. Vivemos confinados, há desalento, há desorientação, há medo e, mesmo assim, venceu quem assumiu a responsabilidade máxima pela situação e apenas prometeu continuar a ser como foi até agora: um promotor da estabilidade do sistema e das instituições. Serão os portugueses estúpidos? Não! São sensatos na avaliação das diferentes alternativas que se apresentam. Essa sensatez deve servir de motivação para elevarmos a qualidade da nossa política e não nos deixarmos cair na tentação dos extremismos, sejam de esquerda ou de direita.

O Professor Marcelo tem dado lições a todos os políticos. Mas é preciso ter alguma humildade para aprender com ele. Talvez seja isso que esteja a faltar à liderança do PSD que continua a ter dificuldade em fazer-se entender pelo eleitorado moderado que normalmente decide eleições. Foi hilariante ver Rui Rio a “entusiasmar-se” com o magnífico resultado da extrema direita no Alentejo quando o que deveria ser objeto de júbilo e análise é a destacada maioria do candidato Marcelo. Católico assumido, confessadamente de direita (social), ex líder do PSD e filho de uma personalidade do antigo regime venceu, sem margem para dúvidas, na região conhecida por ser o bastião do partido comunista. Não é extraordinário?

Mais do que um problema da esquerda, a progressão da extrema-direita populista é um problema para a direita. Quanto mais flanco a direita moderada der ao Chega!, quanto mais assumir que está disposta a governar com a minoria ruidosa do “anti sistema”, mais a geringonça terá tendência para aguentar o PS no poder. Não nos podemos esquecer que a geringonça nasceu como uma reação à governação de Passos Coelho (que nunca se aproximou sequer do discurso do Chega!) e terá tendência para se alimentar no futuro com o “papão” de termos um Governo apoiado pela extrema direita.

Não se pode ignorar o fenómeno Chega! e é preciso enfrentá-lo com inteligência. Como se assistiu na recente campanha, todos os que, serena e convictamente, desmascaram as tremendas fragilidades da “ideologia” de Ventura, saem-se bem. Todos os que se limitam a insultar arrogantemente o seu eleitorado, a pretender silencia-lo na secretaria e se deixam enrolar na estratégia mediática de Ventura, caem na sua armadilha (veja-se, por exemplo, a publicidade extraordinária que o movimento dos lábios vermelhos lhe deram).

Vivemos tempos muito conturbados e é arriscado fazermos previsões políticas. No entanto, a evolução da democracia em Portugal tem revelado que a maioria dos portugueses é moderada e sensata. Não é possível convencer uma parte do eleitorado do Chega! a deixar de acreditar que não faria mal cortar mãos a quem rouba e de que os problemas do 3.º país mais seguro do mundo não se centram, certamente, numa etnia ultra minoritária. Todas as sociedades têm esse lado lunar. Mas é possível convencer uma parte desse eleitorado, que aproveitou esta eleição para legitimamente protestar, de que há um voto útil num modelo económico e de Estado diferente do que tem sido prosseguido pela atual governação. Que é possível ter políticas bastante mais amigas do investimento e da iniciativa privada; que é possível ter um Estado mais organizado e eficiente, mas que não desproteja quem realmente dele necessita; que é possível ter uma Justiça melhor sem ser necessário colocar as pessoas no pelourinho; que os melhores Sistemas de Educação e de Saúde são os que sem preconceitos ideológicos conjugam esforços entre público e privado.

Acredito que uma alternativa de direita carismática e afirmativa nesse sentido, pode mobilizar parte relevante dos 500.000 votos de Ventura. Em qualquer caso, mais do que ambicionar conquistar esses votos, o objetivo de qualquer partido que queira liderar um Governo deve ser o de conquistar os mais de 2.500.000 de Marcelo. Mas para isso convém ter a humildade de aprender com o Professor.

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