Antes do fogo

  • Nuno Oliveira Matos
  • 13 Setembro 2026

Nuno Oliveira Matos explica que o grande desafio colocado pelos incêndios florestais não é tecnológico, nem climático, nem regulatório. É conceptual.

Durante demasiado tempo, os incêndios florestais foram encarados pelo setor segurador como uma variável externa. Um risco natural que surgia ciclicamente, provocava perdas mais ou menos previsíveis e regressava depois ao seu estado de latência. Hoje, essa visão tornou-se perigosamente obsoleta.

Os incêndios já não são apenas um fenómeno climático. Como vemos no exemplo californiano, são uma força económica capaz de redefinir a geografia da segurabilidade, alterar o custo do capital e desafiar alguns dos pressupostos fundamentais sobre os quais a indústria construiu os seus modelos de risco.

Em Portugal, contudo, a maioria das discussões sobre o tema continua centrada na frequência dos eventos. Quantos incêndios ocorreram? Quantos hectares foram destruídos? Quantas habitações foram afetadas?

Embora relevantes, estas métricas podem estar a ocultar a verdadeira questão.

O problema não é apenas o aumento do número de incêndios. É a crescente capacidade de um único evento concentrar perdas, gerar impactos em cascata e comprometer a sustentabilidade de carteiras inteiras. O que aconteceu em Madrid e Almería este verão são, disso, exemplos ilustrativos.

O conceito de diversificação, um dos pilares históricos do seguro, está sob pressão. À medida que secas prolongadas, temperaturas extremas e alterações nos usos do solo se tornam mais frequentes, aumenta também a correlação entre riscos que anteriormente pareciam independentes. O resultado é um cenário em que a volatilidade cresce mais rapidamente do que a capacidade tradicional de a absorver.

Neste contexto, talvez seja necessário abandonar uma ideia que durante décadas orientou o pensamento da indústria, a de que a função do segurador é apenas medir, tarifar, gerir e transferir risco.

A nova realidade sugere algo diferente. O futuro poderá pertencer às empresas de seguros que conseguirem influenciar o risco antes de este se materializar.

Quando uma companhia utiliza análises geoespaciais para identificar padrões recorrentes de perdas, não está apenas a aperfeiçoar a subscrição. Está a procurar compreender onde o risco se reproduz e porque se reproduz. Quando ajusta preços em função da resiliência construtiva de um imóvel ou reconhece iniciativas comunitárias de mitigação, está a enviar sinais económicos que influenciam comportamentos. Quando promove práticas de reconstrução mais resistentes após um sinistro, está a atuar sobre a probabilidade e a severidade das perdas esperadas futuras.

Estas iniciativas são frequentemente descritas como boas práticas de gestão de riscos. Talvez seja mais correto vê-las como uma redefinição do papel do seguro. A fronteira entre proteção financeira e prevenção está a esbater-se.

Esta transformação levanta uma questão interessante. Se a principal função do seguro sempre foi oferecer resiliência financeira após um desastre, poderá a sua função futura passar também por criar resiliência física antes do desastre acontecer?

A resposta poderá determinar quais os intervenientes que prosperam num contexto climático cada vez mais desafiante.

Existe, contudo, um paradoxo particularmente relevante. As estratégias de mitigação mais eficazes produzem resultados que dificilmente se conseguem observar. Uma habitação que não arde devido aos materiais utilizados na sua construção não gera estatísticas impressionantes. Uma comunidade protegida por sistemas avançados de deteção precoce não aparece nas imagens dramáticas que dominam os ciclos mediáticos. Um incêndio controlado numa fase inicial não produz prejuízos suficientes para captar atenção.

O sucesso da prevenção mede-se, muitas vezes, pela ausência de acontecimentos. E é precisamente essa invisibilidade que dificulta a criação de incentivos adequados. O mercado tende a valorizar mais facilmente aquilo que consegue observar do que aquilo que consegue evitar. Talvez por isso muitos investimentos em resiliência continuem a ser vistos como custos, quando na realidade deveriam ser encarados como mecanismos de preservação de capital.

A evolução do mercado de resseguro reforça esta reflexão. O aumento dos custos associados a eventos catastróficos está a obrigar seguradores de todo o mundo a reavaliar a forma como gerem exposição, capacidade e rentabilidade ajustada ao risco. Num ambiente caracterizado por maior incerteza, a mitigação deixa de ser apenas uma questão operacional e reputacional. Passa a ser uma questão estratégica.

As empresas de seguros que conseguirem demonstrar reduções mensuráveis na severidade e agregação das perdas poderão beneficiar não apenas de melhores resultados técnicos, mas também de uma utilização mais eficiente do capital. A mitigação deixa de ser uma atividade periférica para se tornar uma componente essencial da gestão financeira.

Talvez a implicação mais profunda seja o facto de os incêndios florestais estarem a alterar a própria definição de vantagem competitiva no setor segurador.

Historicamente, as organizações distinguiam-se pela sua capacidade de avaliar risco com maior precisão do que os concorrentes. No futuro, essa capacidade poderá continuar a ser necessária, mas já não será suficiente. A verdadeira diferenciação poderá residir na capacidade de moldar a evolução do risco, reduzindo a distância entre aquilo que é segurável hoje e aquilo que continuará a ser segurável amanhã.

No fundo, o grande desafio colocado pelos incêndios florestais não é tecnológico, climático nem regulatório. É conceptual.

Durante décadas, o setor foi desenhado para responder a acontecimentos extremos. Agora está a descobrir que, para preservar a sua relevância, terá também de participar na sua prevenção.

Porque num mundo onde os riscos são cada vez mais interligados, a questão decisiva poderá já não ser quem consegue pagar melhor os prejuízos. Mas sim quem consegue evitar que eles aconteçam.

  • Nuno Oliveira Matos
  • Founder & Managing Director, Fortior Advisory

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