Brasil em 2026

  • William Eid Junior
  • 9:44

Lula x Flávio Bolsonaro, algum dos dois e, principalmente, o sistema político que estará ao seu redor está realmente disposto a enfrentar os problemas do Brasil?

A questão central, pelo menos para mim, não é exatamente qual dos dois é mais simpático ou antipático, mais de esquerda ou de direita. É outra: Algum dos dois vai efetivamente melhorar a condição do Brasil?

O futuro é sempre incerto, mas temos alguma informação para tentar responder. Desde 2003, o PT governou o Brasil durante quase 16 anos. Jair Bolsonaro governou por quatro anos e seu filho Flávio apresenta-se explicitamente como continuador de seu projeto político. Antes de olhar para os candidatos, porém, vale tentar entender onde o Brasil está.

Onde está o Brasil?

Uma maneira relativamente objetiva de começar é olhar alguns rankings internacionais. No PISA, que mede a capacidade de alunos de 15 anos em matemática, leitura e ciências, o Brasil continua muito distante dos países desenvolvidos. Na edição de 2022, ficou em 65º lugar em matemática, 52º/53º em leitura e 61º/62º em ciências. São 81 países e economias avaliados.

No Índice de Percepção da Corrupção da Transparency International, o Brasil aparece em 107º lugar entre 182 países.

No último Doing Business do Banco Mundial, publicado em 2020, o país estava em 124º entre 190 economias. O Doing Business foi encerrado em 2021 e está sendo substituído pelo B-READY, cuja avaliação brasileira ainda não permite comparação direta com a antiga série.

Há também o Global Business Complexity Index, da TMF Group. Nele, o Brasil aparece como terceiro país mais complexo do mundo para fazer negócios, atrás apenas de Grécia e México. É um dado curioso. O problema brasileiro não parece ser falta de regras. Muito pelo contrário: temos regras, declarações, obrigações acessórias, tributos, normas trabalhistas e exigências administrativas em abundância. Entretanto, esse enorme aparato regulatório não produz necessariamente um ambiente mais simples, eficiente ou íntegro.

No ranking de competitividade do IMD, o Brasil ocupa 65º lugar entre 70 países. No índice de Estado de Direito do World Justice Project aparece em 78º entre 143. Em inovação, a situação é um pouco melhor: o Global Innovation Index coloca o país em 53º entre 139 economias. Já no Global Peace Index, que inclui violência e segurança, o Brasil aparece em posição bastante ruim: 130º entre 163 países.

No Índice de Desenvolvimento Humano, o IDH, está aproximadamente na 84ª posição entre 193 países e territórios.Não se trata de um país sem ativos. O Brasil tem um mercado interno enorme, extraordinários recursos naturais, agricultura altamente produtiva, algumas universidades e empresas de nível mundial, uma matriz energética relativamente limpa e uma capacidade razoável de inovação.

O problema parece ser outro: Há uma enorme dificuldade em transformar esses ativos em produtividade média, renda per capita elevada e serviços públicos de qualidade. Essa talvez seja a característica estrutural mais importante do Brasil contemporâneo.

E melhoramos nos últimos 25 anos? Muito menos do que seria razoável esperar. Houve avanços importantes. A pobreza diminuiu fortemente durante parte dos anos 2000. O acesso à universidade aumentou. A mortalidade infantil caiu. O país acumulou reservas internacionais e reduziu sua vulnerabilidade externa.

Mas, olhando os grandes indicadores estruturais — produtividade, qualidade da educação básica, ambiente de negócios, segurança, infraestrutura e qualidade institucional — a melhora foi surpreendentemente pequena. Isso é particularmente relevante porque, durante boa parte dos anos 2000, o Brasil viveu condições externas excepcionalmente favoráveis.

A ascensão chinesa elevou fortemente a demanda e os preços de commodities exportadas pelo Brasil. Soja, minério de ferro, petróleo e outros produtos passaram por um longo ciclo de valorização. Foi a década das commodities.

Seria incorreto dizer que a redução da pobreza naquele período foi apenas consequência desse fenômeno externo. O Bolsa Família foi um programa de baixo custo e razoavelmente bem focalizado. A valorização do salário-mínimo, o aumento do emprego formal e a expansão do mercado de trabalho também contribuíram.

Mas seria igualmente incorreto atribuir todo aquele progresso social exclusivamente à qualidade das políticas econômicas brasileiras. Houve uma combinação excepcionalmente favorável de boom de commodities, emprego crescente, salários reais em alta e políticas redistributivas.

O problema foi o que fizemos com essa bonança. Países que passam por períodos excepcionalmente favoráveis podem converter parte da renda extraordinária em infraestrutura, educação, poupança e aumento da produtividade futura. O Brasil fez isso muito menos do que poderia.

Estradas, ferrovias, portos, saneamento, educação básica e produtividade permaneceram como gargalos importantes. Distribuímos renda mais rapidamente do que aumentamos nossa capacidade produtiva. Enquanto as condições externas eram favoráveis, isso funcionou relativamente bem mas quando o cenário mudou, as fragilidades ficaram mais evidentes.

Universidade para todos?

Outra política frequentemente apresentada como grande sucesso dos governos do PT foi a expansão do ensino superior. Houve efetivamente democratização do acesso. Milhões de brasileiros que provavelmente nunca teriam frequentado uma universidade passaram a fazê-lo. Isso tem valor social e individual.

Mas existe uma pergunta diferente: quanto dessa expansão aumentou efetivamente o capital humano e a produtividade do país? Programas como FIES e ProUni aumentaram fortemente a demanda pelo ensino superior privado. O problema é que, quando o Estado financia a demanda sem disciplinar suficientemente a oferta, parte importante do subsídio pode ser capturada pelo fornecedor. Foi exatamente nesse período que grupos privados de educação cresceram extraordinariamente. E havia um incentivo econômico evidente: expandir principalmente cursos relativamente baratos de oferecer. Direito, administração e pedagogia exigem muito menos investimento que engenharia, medicina, ciência da computação ou áreas que necessitam de laboratórios e infraestrutura sofisticada. Não significa que advogados, administradores ou pedagogos sejam desnecessários. Significa apenas que a quantidade de diplomas universitários não é sinônimo de aumento equivalente de produtividade. O enorme volume de financiamentos estudantis posteriormente renegociados ajuda a mostrar que, para muitos alunos, o retorno econômico da formação recebida ficou abaixo do esperado. O recém-formado simplesmente não era foi pelo mercado de trabalho.

Mais importante ainda: talvez tenhamos tentado resolver no ensino superior um problema que começava muito antes. Se uma parcela enorme dos jovens brasileiros chega aos 15 anos sem domínio adequado de matemática e leitura, aumentar vagas universitárias não elimina a deficiência acumulada nos primeiros dez anos de escola.

Os governos Lula

Os dois primeiros mandatos de Lula coincidiram com esse ambiente externo extraordinariamente favorável. Houve crescimento, redução da pobreza, melhora do emprego, aumento das reservas internacionais e maior projeção internacional do Brasil.

Na política externa talvez esteja um dos pontos mais positivos daquele período. O Brasil manteve relações produtivas com Estados Unidos, Europa, China, América Latina, África e Oriente Médio. Tentava preservar uma tradição diplomática pragmática: conversar comtodos sem se transformar automaticamente em aliado ideológico de ninguém.

Por outro lado, o período também foi marcado por grandes escândalos. O Mensalão envolveu corrupção e pagamentos ligados à sustentação política da coalizão governista. Anos depois surgiu o enorme esquema de corrupção envolvendo Petrobras, grandes empreiteiras, operadores financeiros e políticos, popularmente chamado de Petrolão. Boa parte desse sistema foi revelada pela Operação Lava Jato. A Lava Jato posteriormente perdeu grande parte de sua legitimidade devido a graves problemas processuais e à atuação de seus próprios protagonistas. Isso, porém, não significa que os esquemas de corrupção descobertos não tenham existido.

Outro problema foi a ausência de reformas estruturais compatíveis com o momento excepcionalmente favorável. O país teve uma oportunidade rara para investir pesadamente em educação básica, infraestrutura, simplificação administrativa e produtividade. Fez muito menos do que poderia.

Dilma e a Nova Matriz Econômica

Com Dilma Rousseff, o problema ficou muito mais evidente. A política econômica passou a se apoiar no que posteriormente ficou conhecido como Nova Matriz Econômica. A ideia era estimular o crescimento através de juros mais baixos, crédito subsidiado dos bancos públicos, desonerações tributárias, controles de preços e maior intervenção do Estado em diversos setores. Na prática, o governo tentou aumentar o crescimento principalmente pela demanda sem resolver os problemas do lado da oferta.

Houve crédito barato do BNDES, intervenção em preços de combustíveis e energia, incentivos específicos a setores escolhidos pelo governo e deterioração gradual das contas públicas. O investimento e a produtividade não responderam como esperado.

Ao mesmo tempo acumularam-se inflação reprimida, distorções de preços e perda de confiança. Depois da eleição de 2014, o governo teve de fazer praticamente o movimento contrário: aumentou juros, corrigiu tarifas e iniciou um ajuste fiscal justamente quando a economia já estava enfraquecendo. O resultado foi a enorme recessão de 2015–2016.

Seria exagerado atribuí-la exclusivamente a Dilma. Houve queda das commodities, crise política e efeitos da Lava Jato, entre outros fatores. Mas a política econômica teve responsabilidade relevante.

O resultado agregado dos longos governos do PT, para mim, é ambíguo. Houve alguns avanços sociais mas eles não foram acompanhados por um aumento equivalente da produtividade, da qualidade educacional e da infraestrutura. Um grande indicador desse problema é o número de analfabetos funcionais. Em 2002 eram 26% da população, em 2026 29%. O Brasil não se tornou estruturalmente mais eficiente.

O governo Jair Bolsonaro

Então chegamos ao governo Bolsonaro. Na economia houve algumas reformas relevantes. Foi aprovada a autonomia formal do Banco Central. Houve o novo marco do saneamento, avançaram concessões, privatizações e algumas reformas regulatórias. A reforma da Previdência foi aprovada durante seu governo, embora tivesse sido preparada no período de Michel Temer, que também havia aprovado a reforma trabalhista e criado o teto de gastos.

Antes da pandemia, entretanto, o crescimento continuava modesto. E então veio a Covid.

A pandemia

A gestão da pandemia talvez tenha sido no mínimo complexa. Houve conflitos constantes com autoridades sanitárias, defesa de medicamentos sem eficácia comprovada, resistência a medidas de redução de transmissão e controvérsias na aquisição de vacinas.

Não é possível afirmar cientificamente que determinado número exato de brasileiros morreu “por culpa do governo Bolsonaro”. Mas diversos estudos acadêmicos estimam que dezenas de milhares e, em cenários mais amplos, mais de cem mil mortes poderiam ter sido evitadas com vacinação mais precoce, políticas de saúde pública mais consistentes e melhor coordenação nacional.

É curioso que um acontecimento dessa dimensão praticamente tenha desaparecido da campanha eleitoral de 2026. Como se não tivesse existido.Outro traço marcante do governo Bolsonaro foi o conflito permanente com instituições.

Houve ataques reiterados ao Supremo Tribunal Federal, ao Tribunal Superior Eleitoral e ao próprio sistema eleitoral brasileiro. A reunião de julho de 2022 com embaixadores estrangeiros, na qual Bolsonaro fez acusações sem provas contra o sistema eletrônico de votação, tornou-se posteriormente uma peça importante das investigações sobre suas tentativas de permanecer no poder.

A política ambiental também deteriorou a imagem externa do país. O desmatamento aumentou e a Amazônia passou novamente a dominar a percepção internacional sobre o Brasil.

A diplomacia brasileira também mudou. O pragmatismo tradicional do Itamaraty cedeu espaço, particularmente no início do governo, a uma política externa fortemente ideológica. Houve grande aproximação com Donald Trump, Viktor Orbán e Benjamin Netanyahu.

As relações com alguns países europeus deterioraram-se. O episódio em que Bolsonaro fez comentários sobre a aparência da esposa de Emmanuel Macron tornou-se emblemático de uma política externa muitas vezes conduzida através de manifestações pessoais do presidente. Vale lembrar que em resposta Macron recebeu Lula, na época sem nenhum cargo, com honras de chefe de estado em 17/11/2021.

Depois da derrota de Trump nos Estados Unidos, a excessiva identificação com o trumpismo criou dificuldades adicionais na relação com o governo Biden. Não houve isolamento internacional completo — o Brasil continuou no G20, BRICS, Mercosul e manteve intenso comércio com China, Estados Unidos e Europa mas houve clara perda de capital diplomático.

O governo Bolsonaro também teve episódios controversos, ou escândalos. Houve o caso dos pastores que intermediavam acesso de prefeitos ao Ministério da Educação. A negociação da vacina Covaxin levantou suspeitas importantes, embora o contrato tenha sido cancelado e não tenha havido pagamento. Houve o chamado orçamento secreto, mecanismo de distribuição de verbas parlamentares com baixíssima transparência, que se tornou essencial para a relação entre Bolsonaro e o chamado Centrão. E houve o caso das joias sauditas, pelo qual Bolsonaro foi indiciado pela Polícia Federal. O uso frequente de sigilos de até cem anos sobre informações de interesse público também contribuiu para uma percepção de falta de transparência.

Não apareceu, durante o governo Bolsonaro, um esquema federal de corrupção comprovado com a dimensão sistêmica do Petrolão. Mas a promessa de uma administração radicalmente diferente da velha política brasileira também esteve longe de se realizar.

Assim como Lula teve controvérsias envolvendo seu filho Fábio Luís, a família Bolsonaro também aparece repetidamente no noticiário judicial. Flávio Bolsonaro esteve envolvido no caso das chamadas “rachadinhas” em seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Carlos Bolsonaro foi investigado no caso conhecido como “Abin paralela”. Eduardo Bolsonaro foi condenado pelo STF em 2026 por coação no curso de processo relacionado às investigações envolvendo seu pai. Jair Renan também esteve envolvido em investigações, algumas posteriormente encerradas.

Mais recentemente surgiu a investigação envolvendo Flávio Bolsonaro, o Banco Master e o financiamento do projeto de filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. O patrocínio acordadofoi de R$ 134 milhões. A título de comparação o filme Ainda Estou Aqui custou R$ 45 milhões e ganhou um Oscar.

É importante preservar a distinção entre investigação, indiciamento e condenação. Nem toda suspeita vira crime comprovado. Mas é igualmente difícil sustentar a imagem de uma família política permanentemente alheia a controvérsias desse tipo.

Jair Bolsonaro, por sua vez, cumpre pena decorrente de sua condenação pelos crimes relacionados à tentativa de ruptura institucional após a eleição de 2022.

E o Congresso?

É aqui que o problema brasileiro talvez fique ainda mais interessante. O Congresso Nacional tem 513 deputados e 81 senadores. Existem bancadas informais extremamente poderosas.

A bancada do agronegócio provavelmente continuará sendo uma das maiores. Atua em temas como financiamento agrícola, regularização fundiária, demarcação de terras indígenas, legislação ambiental, tributação e defensivos agrícolas.

Há uma enorme bancada evangélica, que concentra sua atuação em temas como aborto, família, educação, sexualidade e benefícios tributários a instituições religiosas.

Existe ainda a chamada “bancada da bala”, composta por muitos policiais, militares e parlamentares cuja agenda principal é segurança pública, endurecimento penal e flexibilização de armas.

Nada disso é ilegítimo. Agricultores têm interesses. Evangélicos têm interesses. Policiais têm interesses. A pergunta é outra: Onde estão as grandes bancadas da educação básica, da produtividade, da infraestrutura, da simplificação do Estado ou da competitividade?

Todos dizem que educação é importante. Mas não existe no Congresso um movimento político de dimensão semelhante voltado a elevar dramaticamente a qualidade da escola brasileira.

Todos dizem que infraestrutura é importante. Mas continua sendo muito mais fácil obter apoio político para uma obra localizada num município do que para uma reforma institucional cujo resultado aparecerá dez anos depois. Isso se relaciona diretamente ao crescente poder das emendas parlamentares.

Uma parcela cada vez maior do orçamento discricionário passou a ser direcionada por deputados e senadores. O problema não é necessariamente a existência das emendas.

O problema é que elas reforçam uma lógica política essencialmente local e de curto prazo. A visão em geral é de curto prazo e eleitoreira. Vide o efeito das emendas parlamentares ao orçamento. Elas somam algo próximo a 0,5% do PIB. Parece pouco, mas quando olhamos para os gastos discricionários do governo, gastos livres para investimento e custeio, elas representam praticamente 25% do total. Lembrando que do orçamento o Governo Federal tem uma parcela minúscula para investimento.

Cada parlamentar tem incentivo a mostrar uma estrada, uma ambulância, uma escola ou uma praça para seu eleitor. Poucos têm incentivo eleitoral para passar dez anos reformando a educação básica brasileira.

A eleição de 2026

A direita obteve enorme avanço no Congresso. O PL de Flávio Bolsonaro deverá ter 121 dos 513 deputados e 28 dos 81 senadores. Isso altera significativamente o equilíbrio político brasileiro. Uma eventual vitória de Lula, portanto, significará governar diante de um Congresso consideravelmente mais conservador. Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro significará algo diferente: um presidente com uma base parlamentar muito mais alinhada politicamente.

Isso aumenta a capacidade de aprovar reformas. Mas também aumenta a capacidade de aprovar agendas ligadas ao conflito com o Judiciário, anistia a Jair Bolsonaro e pautas de costumes.

A pergunta passa a ser: Qual dessas agendas terá prioridade?

A direita é realmente fiscalista? A direita brasileira associa-se, no discurso, a Estado menor, disciplina fiscal, reforma administrativa, privatização e desregulamentação. Durante Bolsonaro houve alguns resultados compatíveis com isso.

Em 2022 houve superávit primário e a dívida bruta caiu como proporção do PIB. Os salários do funcionalismo federal ficaram congelados por um período e o salário-mínimo teve aumentos mais contidos. Mas o quadro é bem mais complexo.

O teto de gastos foi alterado diversas vezes. Algumas alterações eram claramente justificáveis, como as relacionadas à pandemia. Outras tiveram motivação muito mais discutível. A chamada PEC Kamikaze, aprovada poucos meses antes da eleição de 2022, autorizou cerca de R$ 41 bilhões em benefícios adicionais. Lembrando que kamikaze foi o nome dado à PEC pelo ministro Paulo Guedes, olhando para a credibilidade fiscal e contas públicas. Também houve postergação de precatórios, transferindo despesas de dezenas de bilhões de reais para exercícios posteriores. Portanto, tivemos uma combinação de medidas de contenção com outras de expansão de gastos.

A grande pergunta permanece: A direita brasileira acredita realmente em disciplina fiscal quando essa disciplina passa a ter custo eleitoral? Essa pergunta será especialmente importante caso Flávio Bolsonaro seja eleito.

O que esperar agora?

Talvez este seja o ponto mais importante. Independentemente de Lula ou Flávio Bolsonaro, o próximo presidente receberá um país com alguns problemas que não podem mais ser escondidos pela retórica eleitoral.

  • Primeiro: a questão fiscal

A dívida bruta brasileira está atualmente próxima de 83% do PIB. Isso não significa que o

Brasil esteja à beira de uma crise argentina. A maior parte da dívida é denominada emmoeda nacional. O país tem elevadas reservas internacionais, câmbio flexível, sistema bancário relativamente sólido e não depende fortemente de financiamento externo em moeda estrangeira. Mas a combinação de dívida elevada e juros reais muito altos produz um problema crescente. E existe uma enorme rigidez orçamentária. A esmagadora maioria das despesas federais é obrigatória: Previdência, salários, benefícios e transferências. Isso significa que a promessa aparentemente simples de “cortar desperdício” está longe de ser suficiente. Uma consolidação fiscal real exigirá decisões politicamente desagradáveis. E isso valerá para qualquer presidente.

  • Segundo: finalmente temos uma grande reforma tributária

Aqui existe uma razão real para algum otimismo. O Brasil aprovou uma reforma profunda dos tributos sobre consumo. O emaranhado de PIS, COFINS, ICMS, ISS e outros tributos começa a ser substituído por um sistema baseado em CBS e IBS. A transição ganha força a partir de 2027. Se a implementação funcionar, poderá reduzir justamente um dos problemas que aparecem nos rankings internacionais: a extraordinária complexidade de operar uma empresa no Brasil. É provavelmente uma das reformas estruturais mais relevantes das últimas décadas.

  • Terceiro: produtividade

Aqui está a questão que atravessa todo este texto. A OCDE projeta crescimento brasileiro de apenas 1,6% em 2026 e 2,1% em 2027 e aponta juros elevados, baixo investimento e problemas de produtividade entre os obstáculos relevantes. O Brasil pode continuar crescendo 2% ao ano durante décadas. Não haverá necessariamente uma grande crise. Mas os países mais produtivos continuarão ficando mais ricos muito mais depressa. Esse é talvez o verdadeiro risco brasileiro. Não o colapso. A mediocridade prolongada.

  • Quarto: há oportunidades excepcionais

Ser pessimista em relação às instituições brasileiras não significa ignorar as vantagens do país. O Brasil possui uma agricultura extraordinariamente competitiva. Tem água, terras, minerais e energia. Possui uma matriz elétrica muito mais limpa que a de grande parte do mundo e baixa dependência de importações energéticas. A própria OCDE destaca essa vantagem e o potencial adicional em solar e eólica. Há oportunidades importantes em bioenergia, minerais críticos, inteligência artificial aplicada ao agronegócio, transição energética e infraestrutura. Poucos países grandes dispõem dessa combinação.

A questão é transformar oportunidade em investimento e investimento em produtividade. Este é um problema que tem atravessado gerações. Será que o futuro presidente terá condições e vontade para fazer essa transformação?

  • Quinto: as instituições

Há finalmente uma variável que não é econômica. O próximo presidente brasileiro terá enorme capacidade de influenciar instituições através de nomeações para o Supremo Tribunal Federal, Banco Central e diversos órgãos reguladores. Ao mesmo tempo, o novo Congresso saiu das eleições muito mais poderoso e mais à direita. Se Lula vencer, terá de governar negociando permanentemente com um Congresso hostil em várias áreas. Se Flávio Bolsonaro vencer, terá uma base política muito mais favorável, mas precisará mostrar se pretende usar esse capital principalmente para reformas econômicas ou para continuar o enfrentamento institucional que caracterizou o governo de seu pai. E não para distribuir benesses como tem sido o hábito na política brasileira.

Três futuros possíveis

É possível imaginar três cenários bastante diferentes.

No cenário favorável, o próximo governo faz um ajuste fiscal gradual e crível, executa bem a reforma tributária, avança numa reforma administrativa, melhora o ambiente de negócios, amplia investimentos privados em infraestrutura e preserva estabilidade institucional. O Brasil provavelmente não vira uma China. Mas pode passar a crescer mais depressa e, principalmente, de forma mais sustentável.

Num cenário intermediário, nada de dramático acontece. Também nada de importante muda. O país cresce 1,5% a 2,5% ao ano, continua convivendo com juros elevados, dívida crescente, educação medíocre e produtividade baixa. A renda aumenta lentamente e o Brasil continua perdendo posição relativa para países mais eficientes. Talvez este seja o cenário brasileiro mais familiar.

No cenário ruim, temos populismo fiscal, deterioração das contas públicas, conflitos institucionais e juros estruturalmente elevados. Nesse ambiente, o investimento cai e o crescimento potencial diminui ainda mais.

O risco mais brasileiro

Quando se fala sobre Brasil, costuma-se imaginar a próxima grande crise. Talvez esse não seja o risco principal. O maior risco brasileiro pode ser algo muito mais silencioso: continuar funcionando razoavelmente sem jamais resolver os problemas que impedem o país de enriquecer.

O Brasil não precisa de um milagre econômico. Precisa fazer durante vinte anos algumas coisas pouco espetaculares que evita fazer há quarenta: educar melhor, investir mais, simplificar o Estado, controlar as contas públicas, preservar instituições, aumentar a concorrência, e elevar a produtividade.

A pergunta desta eleição, portanto, não é apenas se Lula ou Flávio Bolsonaro será presidente a partir de 2027. É outra: Algum dos dois e, principalmente, o sistema político que estará ao seu redor está realmente disposto a enfrentar esses problemas?

Essa é a dúvida que fica.

  • William Eid Junior
  • Coordenador do FGVCEF

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