Construir experiências: o novo desafio da retenção de talento
As pessoas querem sentir que estão a aprender, que estão a crescer e que o seu percurso faz sentido. Quando esse caminho é claro, a ligação fortalece-se.
Durante anos, as empresas aprenderam a falar bem. Aprenderam a comunicar propósito, cultura, benefícios e oportunidades de carreira. Investiram em campanhas apelativas, processos de recrutamento bem desenhados e discursos inspiradores para atrair talento. E, durante algum tempo, isso foi suficiente. Mas hoje já não é. Porque o talento, embora possa entrar pelo discurso, fica, ou sai, pela experiência.
É fácil esquecer que o momento mais decisivo da relação entre uma pessoa e uma empresa não acontece na entrevista final nem na assinatura do contrato. Acontece no primeiro dia. Na forma como alguém é recebido, orientado, acompanhado. Acontece quando percebe se aquilo que lhe foi prometido existe, de facto, na prática. É aí que começa a experiência de colaborador e é também aí que se começa a construir — ou a quebrar — a confiança.
O onboarding deixou de ser um momento técnico para se tornar um momento emocional. Não se trata apenas de explicar funções, processos ou ferramentas. Trata-se de integrar alguém numa cultura, numa forma de estar, numa dinâmica humana. Quando esse cuidado existe, a pessoa sente-se parte. Quando não existe, instala-se rapidamente uma sensação de distanciamento que, muitas vezes, nunca chega a ser corrigida.
Mas a experiência do colaborador não termina nas primeiras semanas. Pelo contrário, é um percurso contínuo, feito de pequenos momentos que, somados, definem a relação com a empresa. A forma como se dá feedback, como se reconhece o esforço, como se acompanha o crescimento e como se reage ao erro são peças fundamentais dessa experiência. E são precisamente esses detalhes, muitas vezes invisíveis, que determinam o nível de envolvimento e compromisso das equipas.
Ao longo do tempo, tornou-se claro que a retenção não depende apenas de condições competitivas. Depende, sobretudo, da sensação de evolução. As pessoas querem sentir que estão a aprender, que estão a crescer e que o seu percurso faz sentido. Quando esse caminho é claro, a ligação fortalece-se. Quando não é, surge a desconexão — mesmo nos contextos aparentemente mais atrativos.
Construir experiências exige intenção. Não acontece por acaso nem se resolve com iniciativas pontuais. Exige coerência entre o que se diz e o que se faz, exige líderes atentos e exige uma cultura que coloque as pessoas no centro das decisões. A experiência do colaborador constrói-se no dia a dia, na consistência e na forma como cada pessoa é tratada quando ninguém está a observar.
É também por isso que o desenvolvimento contínuo ganhou um peso tão relevante. Num mundo em constante mudança, o maior sinal de compromisso que uma empresa pode dar é investir no crescimento das suas pessoas. Organizações que criam espaço para aprender, experimentar e evoluir constroem equipas mais confiantes, mais preparadas e mais ligadas ao projeto coletivo.
Neste percurso, a liderança assume um papel central. Os líderes são, na prática, os principais responsáveis pela experiência vivida. São eles que dão o tom, que criam segurança psicológica, que promovem a escuta e que transformam intenções em ações. Não há política de recursos humanos que resista a uma liderança distante — nem cultura que sobreviva sem proximidade.
No fim, a diferença entre empresas que perdem talento e empresas que o fidelizam está raramente no que prometem. Está no que entregam. Está na experiência que constroem todos os dias, de forma consistente e verdadeira.
Porque atrair talento é um momento. Construir experiências é um compromisso. E são as empresas que entendem essa diferença que conseguem criar equipas que não só ficam — como crescem juntas.
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