Davos 2026: IA a escalar — a revolução industrial do nosso tempo
O último encontro do Fórum Económico Mundial trouxe menos foco no hype da IA e sim na discussão sobre implementação concreta, com desafios nos processos e para a liderança.
Quase 1,5 triliões de dólares. Esta é a dimensão do investimento global em IA projetado para 2025. Um sinal claro de que já ultrapassámos largamente a fase dos protótipos experimentais.
Este ano, no Fórum Económico Mundial, senti uma mudança clara: menos “hype da IA” e mais implementação à escala industrial, mais saturação de casos de uso, e muito mais tendência para repensar processos de forma transversal. O foco deixou de estar no que é possível e passou a estar em provar o que funciona e mostrar resultados; essencialmente o que gera valor para as pessoas, para as empresas e para a sociedade. A IA está também a tornar-se a “mãe de todas as revoluções industriais”, uma história de investimento massivo em infraestruturas tecnológicas, valorização e proteção de dados, que faz emergir a necessidade de energia e de recursos naturais como nunca. Tudo isto com a geopolítica como pano de fundo.
Para onde vamos?
Para escalar a IA é necessário conceber uma arquitetura completa: investimento massivo em infraestruturas, chips, recolha de dados, energia e cadeias de abastecimento de suporte. É uma corrida intensiva em capital, limitada por realidades físicas (eletricidade, redes, materiais) e pela nossa capacidade de construir de forma sustentável. É por isso que a IA é hoje um tema de infraestruturas e de geopolítica: o jogo de poder é tanto sobre energia e recursos como sobre algoritmos. Queremos os ganhos de uma “era inteligente”, mas a direção é clara: escala sem sustentabilidade não se mantém por muito tempo.
É também por isso que a soberania em IA está a ganhar destaque na agenda. Trata-se de saber quem (região ou empresa) é dono do modelo, quem detém os dados e quem controla o pipeline de treino que molda o que um sistema “sabe”. À medida que tomamos consciência de quão decisivos são os dados de origem e os materiais de treino, mais regiões investem em capacidade e fazem escolhas locais.
Um exemplo útil veio de Ashwini Vaishnaw (Ministro da Eletrónica e Tecnologias da Informação da Índia). Ele argumentou que depender de um único “mega-modelo” é uma estratégia frágil, porque qualquer modelo pode tornar-se indisponível, ser restringido ou simplesmente desligado. A resposta da Índia, explicou, é um “bouquet” de modelos capazes de cobrir a grande maioria das necessidades nacionais, garantindo resiliência mesmo que uma opção desapareça.
"Em Davos, uma ideia surgiu repetidamente: a Europa não vai ganhar copiando a escala de modelos genéricos. Pode ganhar ao colocar a IA a trabalhar onde já lidera — na economia física. Fábricas, logística, sistemas energéticos, operações industriais — áreas onde a profundidade da engenharia e as restrições do mundo real são uma vantagem, não um obstáculo”
E onde fica a Europa em tudo isto? Em Davos, uma ideia surgiu repetidamente: a Europa não vai ganhar copiando a escala de modelos genéricos. Pode ganhar ao colocar a IA a trabalhar onde já lidera — na economia física. Fábricas, logística, sistemas energéticos, operações industriais — áreas onde a profundidade da engenharia e as restrições do mundo real são uma vantagem, não um obstáculo.
Esta mudança já está a tomar forma. A soberania em IA está a passar da teoria para a realidade operacional e, acredito, define o tom do que vem a seguir: não apenas construir sistemas mais inteligentes, mas construir fundamentos nos quais podemos confiar.
A camada da responsabilidade
Neste momento, estamos a “construir o avião enquanto voamos”. E, nesse processo, estamos a aprender algo importante: o nosso trabalho não é automatizar o mundo. É redesenhar a forma como o trabalho é feito: os fluxos, os incentivos e as salvaguardas que ajudam os humanos a manterem-se na liderança à medida que o paradigma muda. A IA vai assumir tarefas e apoiar todas as decisões. Esse é o objetivo.
A questão de liderança passa então a ser: se as tarefas são cada vez mais tratadas por máquinas, o que estamos a proteger e a valorizar nas pessoas? Propósito. Julgamento.
Responsabilidade, ligação emocional. E a capacidade de ajudar equipas a navegar a incerteza sem paralisar ou fragmentar.
Como Jensen Huang (CEO da Nvidia) tem referido, há alguns anos assumia-se que os radiologistas estariam entre os primeiros profissionais a desaparecer, dado que os primeiros avanços da IA eram fortemente baseados em imagem. Avançando para os dias de hoje, não é isso que estamos a ver. A procura por radiologistas mantém-se elevada e, em muitos mercados, os salários estão a subir. Porquê? Porque isto evidencia a diferença entre uma tarefa e um propósito.
Analisar uma imagem é uma tarefa e a IA consegue fazer partes dela com uma eficiência impressionante. Mas o propósito de um radiologista é fornecer um diagnóstico preciso e orientar decisões que moldam o plano de tratamento de um paciente. Quando a tarefa se torna mais rápida, o que ganha importância é o propósito: julgamento, contexto, colaboração com outros médicos e cuidado humano. O resultado pode ser um saldo positivo: mais pacientes apoiados, melhores resultados e uma função que se torna mais humana, não menos.
Isto é o que significa “human-in-the-lead” e também redefine o que a liderança exige. O QI ajuda no “o quê”: estratégia, precisão técnica, velocidade. Mas em momentos de transição, o QE define o “como”: resiliência, empatia, influência e confiança.
Num estilo de liderança centrado nas pessoas, reconhecemos que a tecnologia pode ser difícil, mas as pessoas são mais. A inteligência bruta pode criar uma ferramenta brilhante, mas não consegue fazer uma equipa sentir-se segura para inovar ou manter-se leal durante uma mudança difícil. As empresas de alta tecnologia são movidas por talento humano, e o talento não responde apenas à lógica; responde à consistência, à escuta e a um propósito partilhado.
A visão do FMI é clara: cerca de 40% dos empregos a nível global poderão ser afetados pela IA, valor que se aproxima dos 60% nas economias avançadas. A direção é inequívoca — precisamos de planos de transição, não apenas de planos de adoção.
O teste à liderança
Temos de construir a adoção como se fosse um produto. Não apenas “capacitar”, mas ajudar as equipas a desenvolver a mentalidade necessária para orquestrar bem estas
ferramentas. A vantagem não é apenas a escala; é a velocidade de aprendizagem e a consistência da execução.
Davos tem uma forma particular de funcionar. Não é um lugar para procurar uma única “verdade” sobre a IA, ou sobre qualquer coisa, na verdade. É um lugar para alargar perspetivas fazendo melhores perguntas. E isso é especialmente relevante agora, à medida que continuamos a maturar esta tecnologia no nosso trabalho, nas nossas instituições e na nossa vida quotidiana. Afinal, o “espirito de Diálogo” esteve presente na grande maioria dos participantes, e isso tem um valor único de futuro.
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