É dever da universidade formar melhores pessoas?

  • Miguel Copetto
  • 13 Maio 2026

Não se trata de moralizar currículos. Trata-se de integrar responsabilidade no próprio processo formativo. De discutir decisões reais e os seus impactos. De ensinar que cada escolha tem efeitos.

Num artigo recentemente publicado no jornal mexicano Milenio, Carlos Iván Moreno colocou uma pergunta que pode parecer filosófica, mas é estruturalmente económica: é dever da universidade formar melhores pessoas?

À primeira vista, a questão pertence ao domínio da ética ou da pedagogia. No entanto, num contexto em que o conhecimento é o principal ativo das economias avançadas, ela tem implicações diretas na qualidade das decisões que moldam mercados, instituições e políticas públicas.

A universidade é hoje um dos principais mecanismos de formação das elites técnicas que ocuparão posições de responsabilidade em empresas, administrações públicas, organismos reguladores e centros de inovação. Forma gestores que decidirão investimentos. Engenheiros que conceberão infraestruturas críticas. Especialistas em inteligência artificial que programarão sistemas com impacto sistémico. Juristas que interpretarão normas com efeitos distributivos significativos.

É, por isso, ilusório sustentar que a universidade se limita a transmitir competências neutras.

A neutralidade técnica é uma ficção confortável. Nenhuma decisão relevante é puramente técnica. Todas transportam pressupostos, prioridades e consequências.

A história económica recente é eloquente. Crises financeiras, colapsos empresariais, escândalos de governação e decisões tecnológicas com impactos sociais profundos raramente resultaram de ignorância técnica. Resultaram, muitas vezes, de uma racionalidade reduzida ao cálculo imediato, desligada de responsabilidade sistémica.

Formar profissionais altamente competentes, mas incapazes de enquadrar eticamente as suas decisões, não é apenas um problema moral. É um risco económico.

Num ambiente global marcado por volatilidade, transição energética, transformação digital acelerada e concentração tecnológica, a qualidade institucional tornou-se um fator central de competitividade. E a qualidade institucional depende, em larga medida, da qualidade das decisões humanas.

Não se trata de converter a universidade num espaço de doutrinação moral. Trata-se de reconhecer que a formação superior molda critérios de julgamento. Ensina a decidir. Ensina a hierarquizar prioridades. Ensina — ou não — a ponderar externalidades.

Perguntar “para quê?” e “com que consequências?” não diminui a competência técnica. Aperfeiçoa-a.

Historicamente, a universidade europeia não foi concebida como mera escola profissional. No modelo humboldtiano, a formação científica articulava-se com uma ideia de responsabilidade intelectual. O especialista era também cidadão. O saber implicava dever.

Hoje, sob pressão de rankings, métricas de empregabilidade e exigências de curto prazo, a tentação é reduzir o ensino superior a treino avançado orientado para o mercado. Essa redução pode produzir eficiência imediata. Mas empobrece a capacidade de visão estratégica. E transforma a universidade numa mera prestadora de serviços formativos, esvaziando a sua função civilizacional.

Economias sofisticadas exigem mais do que técnicos competentes. Exigem decisores com consciência das implicações sistémicas das suas escolhas. Exigem profissionais capazes de integrar risco, sustentabilidade e impacto social no cálculo económico.

Não se trata de moralizar currículos. Trata-se de integrar responsabilidade no próprio processo formativo. De discutir decisões reais e os seus impactos. De ensinar que cada escolha técnica tem efeitos económicos e sociais. De formar profissionais capazes de antecipar risco — não apenas de o calcular.

A pergunta, portanto, não é se a universidade substitui a família na formação ética. Não substitui. A pergunta é se pode abdicar da responsabilidade pelas consequências do conhecimento que certifica.

Em economias onde o capital é, sobretudo, conhecimento e reputação, a formação de profissionais tecnicamente competentes, mas moralmente indiferentes não é uma abstração académica. É um problema estrutural.

É dever da universidade formar melhores pessoas?

Talvez a formulação possa incomodar. Mas, para economias baseadas no conhecimento, ignorar essa dimensão pode sair caro.

  • Miguel Copetto
  • Diretor-executivo da APESP

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