Editorial

É preciso uma Operação Integrada de Desenvolvimento da região Centro

O Governo anunciou um plano de apoios às famílias e empresas que servem para uma situação de emergência, mas será necessário ir mais longe para reconstruir uma região que vale cerca de 14% do PIB.

No início da década de 90, perante uma crise económica e social sem precedentes, o Governo de Cavaco Silva avançou com uma Operação Integrada de Desenvolvimento (OID) do Vale do Ave. Hoje, após mais uma catástrofe na região Centro do país, é necessário desenhar um plano integrado daquela região. As medidas de urgência anunciadas são mesmo importantes para responder de imediato às necessidades de empresas e famílias, mas é preciso ir mais longe, de forma estruturada, para dar outra perspetiva a uma região que envolve mais de 100 concelhos e cerca de 14% do PIB nacional (valores de 2024).

O que é a economia da região Centro? A Região Centro (NUTS II) abrange 100 municípios e representa 13,7 % do PIB de Portugal. Segundo o INE, em 2024 a economia regional gerou 39,654 mil milhões de euros e cresceu 6,7% em termos nominais (crescimento real de 2,1%, alinhado com o país). O dinamismo deveu‑se sobretudo ao aumento do valor acrescentado da indústria e energia (+3,2 %) e dos sectores de comércio, transportes, alojamento e restauração (+2,6 %). A produtividade, essa, ficou ainda abaixo da média europeia (PIB per capita ajustado a paridade de poder de compra de 70,7 % do valor da UE27).

A catástrofe decorrente da Depressão Kristin apanhou o país de surpresa. A verdade é que só na quinta-feira começou a ser clara a extensão dos estragos na região Centro e em alguns concelhos em particular, como Leiria, a gravidade económica e social — além, claro, das vidas perdidas –, e passados estes dias, é possível antecipar que vai ser pior. Na quinta-feira, dois repórteres do ECO estiverem em concelhos do Centro, em Leiria e na Marinha Grande, e ficou claro para quem leu esta reportagem: A reconstrução vai demorar meses… o que puder ser reconstruído.

O que fica evidente, já, é que o país não está preparado, nem ao nível central nem local para responder a catástrofes desta magnitude. Não é possível evitá-las, mas tem de ser possível outra resposta, outra coordenação. Nos últimos dias, torna-se evidente a falta de informação aos cidadãos, uma resposta política tardia do Governo, uma ministra da Administração Interna manifestamente deslocada da função, mas também é preciso saber como responderam os planos locais de emergência, a resposta dos municípios, num momento em que se discute tanto a descentralização e alguns querem mesmo a regionalização.

O plano anunciado pelo Governo, avaliado em 2.5 mil milhões de euros, é ‘apenas’ uma primeira resposta de emergência. Tem medidas de carácter social, apoios à tesouraria das empresas, fundos para apoiar entidades públicas, moratórias. São os primeiros apoios, que têm de chegar já nas próximas semanas, para evitar a falência de empresas, a destruição de capacidade instalada, a perda de empregos e a consequente crise económica e social. Mas esta catástrofe está para lá disso. Há uma parte do Portugal, o Centro, que recuou anos em apenas uma noite de depressão. Não é exagero, é um segundo Covid, centrado em cerca de 70 municípios.

Hoje, dia 2 de fevereiro, o país já tem informação sobre o que se passou naquela noite, mas ainda não existem dados nem informação para avaliar todas as consequências da catástrofe. A economia vai abrandar, as contas públicas vão ser pressionadas, não vai ficar tudo bem. E o Estado, se serve para alguma coisa, é para dar segurança e condições aos cidadãos. Há meses, o Governo anunciou um plano de investimento em infraestruturas para a Grande Lisboa e o objetivo de avançar para a requalificação de 4.500 hectares. Depois dos incêndios em 2017 e da Depressão Kristin neste início de 2026, será tempo de apresentar ao país um plano de infraestruturação e requalificação da região Centro, em parceria com as empresas e o setor privado.

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