Entre o impulso verde e o alerta climático
António Rito Batalha lança o desafio às seguradoras portuguesas de rever carteiras, ajustar prémios em zonas críticas e criar produtos que incentivem a prevenção e adaptação.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) deixou uma mensagem clara: o mundo está a avançar rapidamente na transição energética, mas demasiado devagar para conter o aquecimento global. A capacidade instalada de energias renováveis cresceu 582 gigawatts — o maior aumento de sempre — enquanto a concentração de dióxido de carbono na atmosfera atingiu um novo máximo histórico, com uma subida sem precedentes de 3,5 partes por milhão num único ano1.
Apesar do progresso, a Agência Internacional de Energia alerta que o ritmo atual não chega para cumprir as metas do Acordo de Paris2. Para triplicar a capacidade global de renováveis até 2030, seria necessário manter um crescimento médio anual de 16,6 %, um objetivo ameaçado por limitações nas redes elétricas, nas cadeias de fornecimento e no financiamento. O resultado é uma corrida contra o tempo, em que mitigação e agravamento climático avançam lado a lado.
O boletim da OMM confirma que os principais sistemas naturais de absorção — florestas e oceanos — estão a perder eficiência, agravando o efeito estufa e potenciando fenómenos extremos. Secas, tempestades e inundações estão a tornar-se mais frequentes e severas, elevando a sinistralidade e a incerteza para o setor segurador e ressegurador.
A intensificação dos eventos catastróficos continua a pressionar os resultados técnicos das seguradoras, mas o mercado de resseguro mostra agora sinais de maior flexibilidade. Após dois anos de endurecimento, a abundância de capital e a ausência de grandes catástrofes no Atlântico contribuíram para um regresso a um “soft market”, com taxas mais estáveis e maior capacidade disponível.
O setor enfrenta, contudo, novos riscos de transição e reputacionais. As seguradoras que continuem a apoiar projetos intensivos em carbono podem sofrer pressões regulatórias ou de mercado, enquanto aumenta a procura por seguros que sustentem a nova economia verde — desde parques solares e eólicos até redes inteligentes. O equilíbrio entre proteger ativos fósseis e financiar a descarbonização é hoje uma questão central de estratégia.
Ao mesmo tempo, ganham espaço soluções paramétricas baseadas em índices meteorológicos, que oferecem rapidez de compensação e maior previsibilidade. Mas a sua eficácia depende de dados fiáveis e de sistemas de monitorização avançados — áreas em que o investimento continua insuficiente.
Para o mercado português, particularmente exposto a incêndios, secas e cheias urbanas, o desafio passa por rever carteiras, ajustar prémios em zonas críticas e criar produtos que incentivem a prevenção e adaptação. As parcerias público-privadas e o reforço da modelação climática serão determinantes para garantir estabilidade e capacidade de resposta.
O duplo recorde recente — o avanço das renováveis e o aumento histórico de CO₂ — mostra que a transição está em marcha, mas o relógio climático não abranda. No fim, o seguro não é apenas um amortecedor financeiro: é um espelho da nossa capacidade de antecipar o futuro. E o futuro, como o clima, já começou a mudar.
1 Aumento sin precedentes de la concentración de dióxido de carbono en 2024 y nuevo máximo histórico
2 Record global renewable energy growth remains short of climate target, report says
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