IMEC, o paradoxo da autonomia europeia

A Europa não se tornará mais influente fechando-se sobre si mesma. Antes, deve abrir-se e multiplicar as suas parcerias.

Em setembro de 2023, à margem da cimeira do G20 em Nova Deli, foi apresentado ao mundo um dos projetos de infraestrutura mais ambiciosos da história recente: o IMEC — India—Middle East—Europe Economic Corridor. A proposta era simples na ambição, mas complexa na execução: criar um corredor comercial multimodal, combinando ferrovias, portos e rotas marítimas, que ligasse a Índia à Europa Ocidental através do Médio Oriente. O percurso atravessaria os Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Jordânia, Israel, Grécia, Itália e França, e ofereceria uma alternativa à Belt and Road Initiative (BRI) chinesa, reduzindo, ainda, a dependência do comércio mundial no Canal de Suez.

Na altura, o projeto foi saudado com entusiasmo. Benjamin Netanyahu elogiou-o publicamente como uma oportunidade histórica de integração regional. A Índia apresentou-o como peça central da sua estratégia de projeção global. A União Europeia viu nele uma forma de diversificar rotas comerciais e contrariar a influência chinesa. Havia momentum, havia capital político, havia vontade. Mas depois veio 7 de outubro de 2023, e o projeto morreu silenciosamente. Não houve anúncio formal, nenhuma declaração a enterrá-lo. Simplesmente deixou de fazer sentido. Um corredor comercial que passa diretamente por Israel torna-se inviável quando Israel está em guerra aberta com o Hamas. As rotas logísticas que dependem de estabilidade regional colapsam quando a região está em chamas. O IMEC foi arquivado sem cerimónia — mais uma vítima colateral do conflito israelo-palestiniano.

Agora, com as negociações de paz entre Israel e Hamas a ganhar tração, e com a possibilidade de alguma estabilidade na região, abre-se uma janela para ressuscitar o IMEC. E a Europa devia aproveitá-la. Não apenas porque funciona como contrapeso à China ou porque oferece uma alternativa ao Canal de Suez, mas porque representa uma oportunidade rara de construir autonomia estratégica duradoura. Mas há um problema: As economias europeias não têm capacidade, nem financeira nem logística, para o construir sozinhas. Para isso, precisam dos Estados Unidos, do seu capital financeiro, da sua influência regional, da sua capacidade de pressionar parceiros no Médio Oriente.

À primeira vista, seria difícil imaginar Donald Trump, o líder do movimento “America First”, a patrocinar um projeto desta natureza. De facto, o IMEC não oferece vantagens diretas e imediatas aos Estados Unidos. Mas o Presidente americano não é um isolacionista por natureza. A narrativa de que ele representa o fim do intervencionismo americano sempre foi excessivamente simplista. Na verdade, Trump tem tantos ou até mais impulsos intervencionistas que os ‘neocons’ agora expurgados do Partido Republicano. A diferença é que as suas intervenções não têm base ideológica. São pragmáticas, movidas por prestígio, lealdade pessoal ou interesse económico imediato. E Trump é particularmente vulnerável a projetos que aumentem o seu próprio status. Nas negociações entre a Arménia e o Azerbaijão, por exemplo, o corredor de Zangezur foi rebatizado “Trump Corridor for International Prosperity and Peace” a pedido dos governos envolvidos, um gesto que Trump abraçou entusiasticamente. O padrão é claro: Trump é previsível na sua vaidade, e se um projeto for suficientemente grande e visível, terá o seu interesse. E raramente calcula as consequências a longo prazo, quer apenas poder dizer que “fez acontecer”.

Mas o presidente americano, por maior que seja a sua húbris, não é totalmente ingénuo, e não seria sério reduzi-lo apenas a isso. Daí a importância de uma outra dimensão adicional. A administração Trump, com figuras como Elbridge Colby em posições-chave, tem como desígnio anunciado conter a expansão chinesa. Para os China hawks que povoam o gabinete, qualquer alternativa credível à teia da BRI chinesa é bem-vinda, e o IMEC é um contrapeso direto à influência chinesa no comércio global. Isto torna-o estrategicamente apelativo para Washington, mesmo que Trump pessoalmente esteja mais interessado no espetáculo.

Levantar-se-ão as vozes que vêm neste projeto uma renovada forma de aprofundar a dependência da Europa em relação aos EUA. Dirão que a UE deve procurar autonomia, construir os seus próprios corredores, diversificar sem precisar do apoio de Washington. E essa crítica não está errada. Mas assume falsamente que há contradição entre trabalhar com os EUA agora e emancipar-se deles depois. O IMEC é precisamente o tipo de projeto que permite à Europa fazer as duas coisas simultaneamente.

A curto prazo, o envolvimento dos Estados Unidos é inevitável, assegurando financiamento inicial, estabilidade política em Israel e nos países do Golfo e mobilização de capital privado através de mecanismos de mitigação de risco. Mas a médio e longo prazo, o IMEC constrói precisamente aquilo que reduz o peso americano na economia europeia. O corredor oferece à União Europeia uma rota comercial alternativa ao Canal do Suez — vulnerável a bloqueios e tensões regionais —, reduzindo em cerca de 40% os tempos de transporte entre a Ásia e a Europa. Abre um eixo euro-asiático direto e energeticamente integrado, que liga a Europa à Índia, ao Médio Oriente e aos estados do Golfo, regiões com as taxas de crescimento mais elevadas do mundo.

Para além da vertente comercial, o IMEC é uma infraestrutura de conectividade estratégica: Cabos de fibra ótica interligando centros de dados europeus, árabes e indianos, integração elétrica transregional que reforça a segurança energética da UE e corredores para o transporte de hidrogénio e hidrocarbonetos do Médio Oriente. Ao diversificar rotas e fornecedores, a Europa ganha acesso privilegiado a recursos energéticos e mercados emergentes, reduzindo simultaneamente a sua dependência de Pequim, de Moscovo e até de Washington. O IMEC é, por isto, o projeto que permitirá à Europa ampliar o seu alcance económico e político no Indo-Pacífico, consolidando-a como ator comercial independente num mundo cada vez mais fragmentado.

Há ainda a dimensão da estabilidade regional. O IMEC força uma integração económica profunda entre Israel e os estados árabes, podendo, por isso, ser o catalisador para uma eventual expansão dos Acordos de Abraão, ao mesmo tempo que cria interdependências que tornam conflitos futuros mais custosos. Esta lógica é particularmente importante para a Arábia Saudita.

Para Riade, com o seu Vision 2030, o corredor é a peça central na estratégia de diversificação económica que Mohammed bin Salman preconiza. Riade quer reinventar-se como um hub logístico, tecnológico e financeiro global, e o IMEC posiciona-a geograficamente no centro de um dos corredores comerciais mais estratégicos do mundo. Sem uma Europa forte, o equilíbrio global desaparece. A política mundial fica entregue à disputa entre potências revisionistas ou protecionistas. Potências essas que, apesar dos seus objetivos profundamente patológicos, têm sabido jogar o jogo da geopolítica melhor. Têm sabido projetar a sua dominância e estabelecer os seus polos de influência. E o Velho Continente ainda não percebeu como se reposicionar neste mundo onde ficar preso à fórmula de antes significa ficar para trás. Tornou-se um espectador, assoberbado pela velocidade da mudança, incapaz de assumir a iniciativa.

Talvez por isso, o benefício maior de projetos como o IMEC para a Europa seja simbólico: mostra que ainda é capaz de ser proativa, de moldar o futuro em vez de se limitar a reagir a ele. Mas aproveitar a oportunidade que agora se abre, exige mais do que as declarações de apoio e entusiasmo diplomático nas quais Bruxelas se tornou já especialista. Exige uma visão ambiciosa que coloque, sem pudores, a Europa no centro do comércio e da política global.

Passamos demasiado tempo em introspeções lamentosas sobre a nossa crescente irrelevância geopolítica. O IMEC é a oportunidade de reverter esse processo. Porque a Europa não se tornará mais influente fechando-se sobre si mesma. Antes, deve abrir-se e multiplicar as suas parcerias. O acordo com a Mercosur daria acesso a mercados sul-americanos, a CPTPP posicionaria a Europa no Indo-Pacífico, o IMEC criaria alternativas ao Canal de Suez e faz uma ligação direta aos mercados indianos e do Golfo. Cada parceria, ironicamente, aumenta a autonomia. Os Estados Unidos decidiram seguir o caminho oposto, procuram autonomia e prestígio através do isolamento e protecionismo. Falharão. E deixarão um vazio que a Europa, se souber ser ágil, pode aproveitar.

  • Colunista convidado. Estudante Faculdade de Direito Universidade de Lisboa, Membro da direção do Centros Estudos Políticos FDUL

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