Indústria de impacto local

  • Rui Duarte
  • 9 Agosto 2017

No setor das bebidas espirituosas, cada vez mais, o valor acrescentado dos produtos está no imenso potencial endógeno a extrair de cada região.

A indústria das bebidas espirituosas representa hoje para a economia portuguesa um impulso de qualidade, inovação e diferenciação em toda a sua cadeia de valor, desde o agro-negócio aos bens e serviços associados ao turismo. A energia criativa e o sentido de oportunidade sem fronteiras de uma nova geração de empresários está a maximizar o potencial desta indústria no nosso país.

A prova mais evidente é que entre 2009 e 2013, anos da grande recessão, a produção nacional cresceu a uma taxa de 5% ao ano face a um crescimento de 1% da indústria como um todo. No quadro europeu, as espirituosas representam já a maior exportação de produtos agroalimentares: €10 mil milhões em 2016, com um excedente comercial superior a €9 mil milhões.

Em 2019, o mercado europeu de bebidas alcoólicas deverá ascender a um valor de 408 mil milhões de euros, o que significará um crescimento de 9,6% desde 2014. Esta projeção é particularmente relevante para o trajeto das exportações portuguesas que têm hoje como principais mercados externos a Espanha, França e Alemanha. Entre 2010 e 2016, as nossas exportações registaram um crescimento médio de 2,8%, significando já em 2016 cerca de €50 Milhões.

Este movimento de crescente competitividade é no entanto mais interessante e impactante do que aquilo que aparenta. Desde logo porque tem na sua base o aproveitamento da cultura e produtos endógenos das regiões do nosso país. Os exemplos são inúmeros e vão desde o Gin do Gerês que incorpora os botânicos da serra do Gerês ao Gin Sharish que “lentamente destilado” em Reguengos de Monsaraz já exporta para Londres – a terra do gin. Do Gin Tinto de Valença, único no mundo, ao Limontejo – Limoncello do Alentejo, o mote é a qualidade e exclusividade de produtos que engarrafam o melhor de Portugal na sua diversidade.

Em maior detalhe, vejamos o caso da ginjinha que antes de chegar à mesa começa na mobilização de cerca de 113 trabalhadores para a cultura e campanhas do fruto da ginja, em Óbidos e Alcobaça, sendo depois transformada no icónico licor de ginja. Esta dinâmica significa não apenas um aproveitamento do potencial endógeno, regra geral fixado em territórios de baixa densidade, como o reinventar de uma indústria cada vez mais “made in Portugal” que tira partido do momento atual da economia.

Em 2016, contribuiu com 238 Milhões de euros na aquisição de bens e serviços (matéria-prima, vidro, cartão, serviços, etc.) e foi responsável por 5940 postos de trabalho (diretos e indiretos)1. Falamos de um setor maioritariamente composto por PME’s que procura afirmar-se cá dentro e lá fora pela qualidade dos ingredientes, pela exclusividade dos saberes e pela originalidade dos costumes tradicionais das nossas gentes e regiões.

Para mais, é na mistura do engenho dos produtores locais com a mundividência dos produtores globais que este mercado ganha escala de oportunidades. Neste setor, cada vez mais, o valor acrescentado dos produtos está no imenso potencial endógeno a extrair de cada região. É notório desde logo, na proposta de valor de Portugal como destino turístico, através da valia de produtos destilados das nossas raízes como a ginjinha, a aguardente de medronho ou os nossos inconfundíveis licores: parte indissociável da nossa “mesa portuguesa”.

A marca de originalidade e inovação em produtos profundamente alicerçados nas raízes históricas das nossas regiões torna este setor uma força de diferenciação positiva dos territórios de baixa densidade. Há assim uma sinergia interessante, de manifesto interesse nacional, entre o crescimento desta indústria e o potencial endógeno dos nossos territórios.

O valor que este setor aporta à economia nacional é cada vez mais saliente em todos os seus indicadores (emprego, bens e serviços, exportações, investimento, etc.) e não menos importante na sua localização geográfica e capacidade de impacto direto local.

1 Conforme apurado no recente estudo da EY (Abril 2017): “Indústria das Bebidas Espirituosas: um contributo para a análise do impacto económico e fiscalidade”.

  • Rui Duarte
  • Secretário-geral da ANEBE (Associação Nacional de Empresas de Bebidas Espirituosas)

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