“It’s getting filmed”

  • Mónica Marques
  • 7 Junho 2020

Há de chegar o dia em que deixará de ser um sonho exótico, os brancos gostarem tanto de negros como gostam da música que eles fazem.

A minha avó, uma sardenta e ruiva alentejana de Vila Viçosa, aprendeu cedo a tocar piano e a dizer ter pavor de negros. E se, quando eu nasci, em 1970, ela já esquecera tudo o que dizia respeito ao piano, ainda não lhe tinha passado o preconceito “aos pretos” que alardeou vida fora, como se do assunto mais natural se tratasse.

Lembro-me muito bem das conversas comigo e com os meus primos acerca disso. Principalmente quando depois, no correr dos anos oitenta, vinha a Lisboa ver-nos e ficava instalada no apartamento que o meu avô lhe tinha comprado ao pé do Califa, e de vários acampamentos de ciganos. O seu outro medo assumido.

Conscientemente, em criança, tive de começar a desfazer o discurso da minha avó, de quem gostava desmesuradamente e de quem, ainda hoje, sinto falta.

Não tenho dúvida de que estes dizeres poderiam ter deixado eco em mim, não tivesse tido a sorte de ter à minha volta outras pessoas a alertar para o julgamento rápido e despido de especificidades, que é o julgamento dos básicos e dos racistas, dos apoiantes do Chega, de Bozo e de Trump que, depois do que se passou há dias, sequer fingiu tentar unir os americanos.

Dois mil e vinte está a ser um filme escrito pelo Stephen King e dirigido pelo Tarantino, onde não temos a sorte de ver aparecer a Uma Thurman, de macacão amarelo, para nos salvar.

Milhões de posts com quadrados pretos tomaram o Twitter, o Instagram, o Facebook, num movimento criado por duas músicas, Jamila Thomas e Brianna Agyemang, depois de vermos, quase em direto, o agente Dereck Chauvin ajoelhado no pescoço de George Floyd de mão no bolso, asfixiando-o até à morte.

Vivemos calmamente num mundo em que polícias treinados atuam, vezes sem conta, por impulso racista. Mas a um negro é sempre pedido manter a calma, mesmo com uma arma apontada à cabeça. Por isso, de quando em vez, ser negro é um espetáculo macabro a que todos, brancos e negros, nos habituámos. Mal.

Combater o racismo biológico e cultural que matou George Floyd, necessita mais do que hashtags. Partilhar, nas redes sociais, o nosso desencanto e revolta é a parte fácil, importante será aproveitarmos estes ciclos de revolta social para nos focarmos nos momentos in between. Aqueles em que o diabo continua no meio de nós, mas nos persuade de que não existe. Vamos deixar de ter ilusões, tudo se passa a um nível quase inconsciente. Por isso é absolutamente necessário reduzir os efeitos do racismo, com normas e legislação anti-discriminação. É a defensores de políticas dessas que devemos dar o nosso voto.

Em Portugal temos de falar muito mais em racismo, aprendermos a confrontar-nos com as nossas fragilidades muito brancas e bacocas, acabarmos com o mito do Luso Tropicalismo e da bondosa miscigenação, que mais não fazem que legitimar o nosso horrível passado racista. Isto, se enquanto nação, queremos ser cura e não problema. Há de chegar o dia em que deixará de ser um sonho exótico, os brancos gostarem tanto de negros como gostam da música que eles fazem. Até lá continuemos a lutar, com boicotes, marchas, de forma pacífica, ou menos pacífica, porque qualquer forma de luta será sempre permitida aos brancos.

*”Racism is not getting worse, it´s getting filmed” – Will Smith

  • Mónica Marques

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