Mais Execução Sintética

  • Nuno Oliveira Matos
  • 6 Junho 2026

Nuno Oliveira Matos acha que a inteligência artificial não chegou para salvar o setor segurador em Portugal. Chegou para expor a sua inércia.

Durante anos, o setor segurador convenceu-se de que transformação era sinónimo de tecnologia; mais sistemas, mais automação, mais dashboards; mais ilusão de progresso. Hoje, essa narrativa terminou. A inteligência artificial não está a transformar o setor; está a revelar tudo aquilo que ele evitou mudar. O problema nunca foi tecnológico. Nunca. O problema é que as empresas de seguros continuam desenhadas para um mundo que já não existe e, mais grave, continuam a ser lideradas como se esse mundo ainda estivesse intacto.

Esse mundo desapareceu no momento em que o risco começou a evoluir mais depressa do que os processos internos, quando os clientes passaram a exigir respostas imediatas e experiências fluidas, e quando a complexidade deixou de caber em organogramas rígidos e decisões em cascata. A inteligência artificial apenas tornou esta realidade visível e impossível de ignorar.

Hoje, praticamente todas as empresas de seguros dizem estar a investir em inteligência artificial, mas muito poucas conseguem explicar, com clareza, o que muda estruturalmente na forma como competem. Na maioria dos casos, a resposta honesta é desconfortável: não muda nada.

A inteligência artificial está a ser usada para acelerar processos antigos, digitalizar ineficiências e automatizar burocracia, como se fosse possível otimizar um modelo que já perdeu relevância. É o equivalente a instalar um motor de Fórmula 1 numa carroçaria construída para circular devagar. Não é inovação; é negligência estratégica.

O setor continua obcecado com eficiência operacional quando a verdadeira batalha já mudou. O futuro não pertence a quem faz mais barato, mas a quem decide melhor e mais depressa do que o risco evolui. Esta diferença é estrutural. Eficiência reduz custo; inteligência redefine posicionamento. Uma empresa de seguros eficiente pode sobreviver, mas uma seguradora com verdadeira inteligência de decisão pode dominar o mercado. E, neste momento, a maioria ainda está a jogar o jogo errado.

O erro mais perigoso é continuar a ver inteligência artificial como ferramenta de produtividade. Quem está a liderar já percebeu que inteligência artificial é infraestrutura de decisão. E isso altera tudo

A razão não está na tecnologia. Está dentro de casa. Inteligência organizacional implica redistribuir poder, eliminar silos históricos, redefinir responsabilidades e questionar estruturas que existem há décadas. É exatamente aqui que o setor bloqueia, não por incapacidade técnica, mas porque mexe onde dói: no poder instalado.

A arquitetura atual tornou-se difícil de defender. Os subscritores continuam afogados em tarefas administrativas, os gestores de sinistros permanecem presos em validações redundantes, e equipas comerciais ocupam-se com operações que pouco têm a ver com aconselhamento. A inteligência artificial expõe o absurdo disto. Quando uma máquina executa tarefas repetitivas em segundos, manter organizações inteiras desenhadas à volta dessas tarefas deixa de ser apenas ineficiente; torna-se indefensável.

O verdadeiro choque não é tecnológico; é humano. Durante décadas, o setor recompensou controlo, previsibilidade e estabilidade. A inteligência artificial valoriza exatamente o oposto: adaptabilidade, velocidade de aprendizagem e capacidade de mudar continuamente. Este desalinhamento explica porque tantas iniciativas acabam presas em pilotos intermináveis, “labs” de inovação irrelevantes e apresentações estratégicas sofisticadas que nunca chegam ao core do negócio. Será falta de visão ou resistência sistémica ou ambas?

Entretanto, a vantagem competitiva está a concentrar-se rapidamente. A inteligência artificial cria um efeito cumulativo difícil de travar: quem aprende primeiro melhora mais depressa; quem melhora mais depressa capta mais dados; quem tem mais dados toma melhores decisões; e quem decide melhor ganha quota. Este ciclo acelera e torna a distância entre líderes e seguidores não apenas maior, mas exponencial.

O erro mais perigoso é continuar a ver inteligência artificial como ferramenta de produtividade. Quem está a liderar já percebeu que inteligência artificial é infraestrutura de decisão. E isso altera tudo, da subscrição ao pricing, da fraude à gestão de sinistros, da distribuição à relação com mediadores. Não estamos perante melhoria incremental; estamos perante redefinição estrutural.

A empresa de seguros vencedora não será a que substituir mais pessoas, mas a que melhor combinar inteligência artificial com inteligência humana, ou seja, a melhor com execução sintética.

Existe ainda um paradoxo que poucos anteciparam. Durante anos, acreditou-se que a inteligência artificial iria reduzir a importância do fator humano. O que está a acontecer é o contrário. Quanto mais inteligência artificial existe, mais valioso se torna o julgamento humano de elevada qualidade.

O diferencial deixou de ser executar tarefas e passou a ser interpretar ambiguidade, desafiar modelos, contextualizar risco e decidir quando os dados são incompletos. A empresa de seguros vencedora não será a que substituir mais pessoas, mas a que melhor combinar inteligência artificial com inteligência humana, ou seja, a melhor com execução sintética.

Tudo isto exige mudanças que poucas organizações estão dispostas a fazer. Implica abandonar métricas obsoletas, redesenhar incentivos, eliminar silos e redefinir o papel das lideranças intermédias. Implica, sobretudo, aceitar que muitos processos internos existem apenas para proteger estruturas de poder que já não criam valor. E isso exige uma coisa rara: coragem.

O setor segurador habituou-se a pensar que os maiores riscos sempre vêm do exterior (v.g., catástrofes, alterações demográficas, ataques cibernéticos, inflação, volatilidade). Hoje, o maior risco está dentro das próprias organizações. Não será a ausência de inteligência artificial que vai destruir valor, mas a incapacidade de abandonar modelos mentais que já não acompanham a velocidade da inteligência.

No fim, esta não é uma questão tecnológica. É uma decisão executiva. A inteligência artificial não é a ameaça; é o espelho. E a pergunta que fica é simples: o que é que as lideranças estão, de facto, dispostas a mudar?! Em muitas empresas de seguros, a resposta continua perigosamente insuficiente.

  • Nuno Oliveira Matos
  • Sócio da Carrilho & Associados, SROC

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