Montenegro em risco de tropeçar nos seus próprios pés
O Governo pode cair por causa de uma coligação negativa do Chega e do PS no Parlamento? Aparentemente, Luís Montenegro pode cair por tropeçar nos seus próprios pés.
Maria Lúcia Amaral, uma jurista de méritos reconhecidos (é assim que se diz, não é), não resistiu à pressão política e mediática decorrente do falhanço óbvio na resposta à depressão Kristin e quando percebeu que não havia condições para uma remodelação imediata, bateu com a porta. Não estava disponível para esperar pelo Presidente-eleito. Na véspera de um evento extremo em Coimbra, com a evacuação potencial de cerca de três mil pessoas por risco de rebentamento de diques no Mondego, demite-se da Administração Interna e deixa a pasta nas mãos do primeiro-ministro, que a assume interinamente.
A ministra demissionária foi um erro no primeiro momento, quando foi convidada, e aceitou sair da Provedoria de Justiça, um órgão independente que defende os cidadãos perante os abusos do Estado, para o poder executivo do próprio Estado. A dúvida é legítima: Foi independente nos seus pareceres? Mas cedo se percebeu que não tinha o perfil para esta pasta: Foram os fogos do verão de 2025, foi a gestão desastrosa do caos no aeroporto de Lisboa, foi agora na resposta à depressão Kristin. Parem de justificar o falhanço com as dificuldades de comunicação, isso é uma consequência de sucessivos falhanços na coordenação e gestão política.
Não parece, mas a notícia não é Maria Lúcia Amaral, a notícia é Luís Montenegro. Depois dos resultados humilhantes do candidato apoiado pelo PSD nas presidenciais, o primeiro-ministro perdeu o controlo do Governo e atravessa, ao fim de dois anos, a maior crise da governação. Sobreviveu política e judicialmente ao caso Spinumviva, foi o próprio a liderar o calendário político que levou à queda do Governo. Geriu mal a derrota partidária de Marques Mendes, afastando-se da discussão. Agora, os acontecimentos ultrapassaram-no.
É possível arriscar uma fita do tempo. Coma depressão Kristin e o falhanço na resposta do Governo, a que se sucederam episódios como o vídeo de Leitão Amaro ou as respostas desastrosas de Castro Almeida, Montenegro percebeu que tinha de fazer uma remodelação alargada, mas perdeu o timing. Achou que a poderia fazer antes da tomada de posse do novo Governo, mas Marcelo Rebelo de Sousa travou essa possibilidade (e bem), remetendo essa iniciativa política para o ‘Presidente Seguro’. E isso precipitou a saída, inusitada no tempo e na forma, de Maria Lúcia Amaral. É isto que explica a decisão de Montenegro de assumir interinamente a pasta da Administração Interna.
Montenegro vai ter de fazer uma remodelação alargada do Governo, como é evidente. Vai ter de mudar nomes e de mudar a orgânica, para retomar a capacidade de iniciativa política e abrir mesmo um novo ciclo. Na saúde, a autoridade política está ferida, na Economia não há ministro, na administração Interna é o que se sabe, no Trabalho perdeu-se a oportunidade e as condições para uma reforma, as expectativas na Reforma do Estado criam uma desilusão, e poderíamos continuar…
Não basta a Montenegro anunciar na noite eleitoral, e em tom de provocação ao Presidente-eleito, que o país vai entrar agora num ciclo de mais de três anos sem eleições. Tem de governar, e para isso tem de começar por reforçar o seu núcleo político em São Bento, com um ministro-adjunto ou um secretário de Estado-adjunto que conheça a máquina governativa e tenha experiência de gestão política, e depois tem mesmo de governar.
O Governo pode cair por causa de uma coligação negativa do Chega e do PS no Parlamento? Aparentemente, Luís Montenegro pode cair por tropeçar nos seus próprios pés.
PS: No meio desta tempestade climática com consequências políticas, há sempre espaço para piorar: Enfermeiro sem currículo vai coordenar estrutura das energias renováveis. Ministério responsabiliza Manuel Nina. Quando é que a ministra do Ambiente anula a nomeação e demite Manuel Nina?
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