O Avô da Economia

A economia interessa-se por mecanismos de alocação, formação de preços e celebração de contractos. É plausível que o uso do humor seja passível de afectar o valor económico que deles resulta.

Este texto surge da descoberta inusitada de que o “avô da economia” formulou uma das principais teorias do humor: a teoria da incongruência.O que, já de si, parece uma incongruência. A teoria da incongruência propõe uma resposta à pergunta “O que é que nos faz rir?”. A resposta é simples: rimos da percepção de que duas coisas não fazem sentido juntas.

De acordo com esta teoria, a tarefa do humorista é conduzir-nos na criação de uma expectativa que depois é desvirtuada. Como no seguinte exemplo:

  • Eu queria viver para sempre. Até agora, está a resultar.”

A primeira frase guia-nos num determinado caminho de raciocínio, leva-nos para o plano da impossibilidade, quase do filosófico. A segunda frase, a chamada ‘punch line‘, é perfeitamente mundana e trivial. E, mais importante do que isso, é inesperada face ao contexto inicial.

Foi Francis Hutcheson, um filósofo irlandês nascido no século XVII, um dos primeiros autores a desenvolver de forma sistemática uma explicação do riso baseada na incongruência. Outros antes dele, como Aristóteles, já tinham feito referência a este mecanismo de expectativa e surpresa do humor, mas foi Hutcheson quem o enunciou mais formalmente pela primeira vez. Hutcheson foi professorde filosofia moral em Glasgow e teve uma influência profunda em Adam Smith, o senhor que, apesar da ausência de testes de ADN na época, é considerado o pai da economia.

Ora, se Adam Smith é o pai académico da economia, Hutcheson será muito naturalmenteo avô da economia. E isto é fascinante, tendo em conta que, desde o século XVIII, não há disciplina académica que tenha prestado tão pouca atenção ao riso e ao humor como a economia. E isso já é lamentável. Francis Hutcheson formulou a sua teoria em resposta à teoria da superioridade do riso de Thomas Hobbes. Hutcheson defendia que o riso resultava da percepção de uma incongruência, muito mais do que da ‘glória súbita’ e do sentimento de superioridade associado ao humor proposto por Hobbes.

O pressuposto de que somos benevolentes e de que queremos genuinamente saber do outro é central à filosofia de Hutcheson, também no que ao humor diz respeito. Hutcheson rejeitava que o ser humano fosse simplesmente motivado pelo seu interesse individual, ideia que está presente no trabalho de Hobbes e na sua teoria da superioridade do riso, mas também na “Fábula das Abelhas” de Mandeville, escrita na mesma época.

A teoria da incongruência de Hutcheson assenta numa ideia de humor mais benigna ena ideia de que o ser humano possui um sentido inato de moralidade. Para ele, somos instintivamente benevolentes e, desta forma, somos capazes de perceber o que está moralmente certo e errado. O pressuposto de que somos benevolentes e de que queremos genuinamente saber do outro é central à filosofia de Hutcheson, também no que ao humor diz respeito. Hutcheson rejeitava que o ser humano fosse simplesmente motivado pelo seu interesse individual, ideia que está presente no trabalho de Hobbes e na sua teoria da superioridade do riso, mas também na “Fábula das Abelhas” de Mandeville, escrita na mesma época.

A “Fábula das Abelhas” é uma obra que gerou alguma polémica e que propunha que uma sociedade pode prosperar ainda que os seus membros se comportem de forma individualista e imoral. A tese é a de que os vícios e pecados individuais (ou privados), como a ganância, a vaidade, o orgulho ou a inveja, podem, ainda assim, ajudar a economia como um todo a crescer, porque geram benefícios colectivos (ou públicos).

Francis Hutcheson horrorizou-se perante tal ideia, tendo até referido que esta era de tal forma inconcebível que nem lhe merecia uma resposta. O que é facto é queo fez nas“Reflexões sobre o Riso e Comentários à Fabula das Abelhas”, onde responde a Mandeville mas também a Hobbes, formulando uma das teorias do humor mais reconhecidas e que sobrevive até aos dias de hoje. É possível até que viva para sempre. Até agora, está a resultar.

Neste ponto, podemos perguntar o seguinte: porque é que, sendo filho do pai de uma das principais teorias do humor, Adam Smith não se dedicou tambéma este tema? Na verdade, antes de escrever “A Riqueza das Nações”, o seu trabalho mais conhecido, escreveu“A Teoria dos Sentimentos Morais”, onde faz referência ao riso e ao humor como forma de interacção humana e desenvolve algumas das ideias de Hutcheson como, por exemplo, a de moralidade.

Smith transforma a ideia de moralidade inata noutra mais próxima do que hoje chamamos “empatia”: a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro. Tal como Hutcheson, Smith rejeitava a ideia de Hobbes e de Mandeville de que o ser humano é, na sua essência individualista, e da sua motivação essencialmente egoísta. Ainda assim, propõe que existe uma necessidade de aprovação social ou de uma entidade abstracta a que chama “espectador imparcial” e que, segundo ele, julga moralmente as nossas atitudes e cuja perspectiva interiorizamos.

É neste contexto que fala do riso: “Aquele que se ri da mesma piada e se ri comigo dificilmente pode negar que a minha reacção seja adequada. Pelo contrário, a pessoa que, nessas diferentes ocasiões, não sente nenhuma emoção semelhante à que eu sinto, ou não sente nada que tenha alguma proporção com a minha, não pode deixar de desaprovar os meus sentimentos, por estarem em desacordo com os seus“.

O humor é frequentemente mencionado como facilitador de relações sociais, ‘social glue’, na expressão inglesa, mas a ideia de Adam Smith parece ir para além dessa constatação. E trata-se de uma ideia bastante ‘económica’: a de que o humor é uma forma de comunicação que pode gerar informação para além da que é gerada através de uma forma de comunicar literal.

Adam Smith refere-se ao riso e ao sentido de humor como uma medida de moralidade e de partilha de sentimentos e valores comuns. O humor é frequentemente mencionado como facilitador de relações sociais, ‘social glue’, na expressão inglesa, mas a ideia de Adam Smith parece ir para além dessa constatação. E trata-se de uma ideia bastante ‘económica’: a de que o humor é uma forma de comunicação que pode gerar informação para além da que é gerada através de uma forma de comunicar literal. Ou seja, podemos aprender alguma coisa sobre os valores do outro pela forma como reage a uma piada, porque existe uma boa dose de espontaneidade no riso.

Não é de todo óbvio que o humor seja mais do domínio das emoções do que do domínio da razão, uma vez que há uma lógica subjacente aos mecanismos do humor. Mas o que é certo é que a economia evoluiu assente muito mais na racionalidade e individualidade dos agentes do que nas suas emoções. Há uma continuidade intelectual em Hutcheson e Smith em torno de benevolência, sentimentos, sociabilidade e julgamento moral que contrasta bastante com a imagem posterior do ‘homo economicus’.

Talvez o pressuposto de racionalidade tenha ‘ganho’ por ser mais fácil traduzir formalmente o comportamento dos agentes económicos com recurso à linguagem matemática e a modelos formais. As emoções introduzem comportamentos menos previsíveis e mais susceptíveis de desvio e, por isso, mais difíceis de explicar e formalizar.

Da mesma forma que na física os fenómenos turbulentos resistem a soluções matemáticas simples e gerais, também os fenómenos do plano das emoções foram, decerta forma, ignorados pelos economistas. É certo que a economia tem evoluído bastante no domínio da economia comportamental. Mas note-se que, mesmo quando esta considera a existência de vieses de comportamento, estes não são considerados simplesmente desvios, mas desvios que ocorrem de uma forma sistemática.

É esta sistematização do comportamento, ainda que enviesado, que ajuda ao seu entendimento e formalização. Ainda que a economia, enquanto disciplina mais geral, tenha ignorado as suas raízes epouco tenha estudado o humor como forma de interacção entre agentes, o que é certo é que estas interacções recorrem ao humor de forma muito frequente.

A economia interessa-se por mecanismos de alocação, emparelhamento, formação de preços e celebração de contractos. É bastante plausível que o uso do humor seja passível de afectar o valor económico que deles resulta. Talvez seja um artifício preguiçoso evocar o processo dos Anjos contra Joana Marques e a indemnização pedida para convencer os economistas de que o humor merece a sua atenção. Mas, a ser necessário atribuir-lhe um valor para demonstrar que este não é um tema pouco sério, dificilmente arranjaria melhor exemplo. O avô ficaria orgulhoso.

  • Colunista convidada. Professora Catedrática de Finanças no Imperial College

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