Emails da PJ põem em causa explicações de Luís Neves

Decisão de deixar atrelado e bidões à guarda do amigo de Barcelos foi justificada pelo ministro com custo de 150 mil euros para destruir material. Emails sugerem que o preço real seria muito inferior.

O alegado orçamento de 150 mil euros referido por Luís Neves para a destruição de um atrelado e respetivo material apreendido, que foram encontrados à guarda da Construbarcelos, abrangeria, afinal, bem mais do que o sugerido pelo ministro da Administração Interna na conferência de imprensa em que prestou esclarecimentos sobre o caso, noticia esta sexta-feira o Nascer do Sol.

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O custo elevado e falta de “cabimentação orçamental” foi a principal justificação dada pelo atual ministro da Administração Interna para explicar a decisão de solicitar a guarda do atrelado ao empreiteiro João Carvalho, da Construbarcelos, que também realizou obras pessoais do governante. Luís Neves garantiu mesmo ter sido um “puro ato de boa gestão” que “poupou ao Estado muito dinheiro”.

No entanto, segundo uma nova investigação conjunta do semanário com a TVI/CNN, e-mails trocados entre elementos da então direção da PJ, liderada por Luís Neves, mostram que os 150 mil euros referidos pelo atual ministro visavam, na verdade, a destruição de todos os produtos e materiais armazenados em instalações da PJ no Seixal e em Tires, e não apenas do atrelado que acabou por ser deslocado para Barcelos.

De acordo com o jornal, a 23 de setembro, Álvaro Pires, então diretor financeiro da PJ — e que também terá tido obras na sua residência feitas pela Construbarcelos –, escreveu um email que já havia um orçamento para destruir tudo o que estava “em Tires e nas instalações da Polícia Marítima no Seixal”. Tratava-se de um “custo de 126.000 euros, acrescidos de IVA à taxa legal em vigor” — perfazendo os cerca de 150 mil euros (154.980 euros). O responsável avançou também, nesse email citado pelo Nascer do Sol: “Estamos a tentar encontrar uma solução mais económica para a PJ.O email dirigia-se ao então diretor nacional adjunto, Veríssimo Milhazes.

A publicação também contactou empresas especializadas na destruição de químicos para aferir o preço para destruir 62 bidões de 200 litros cada com acetato de etilo e hexano, as mesmas substâncias que foram enviadas para a Construbarcelos. Uma das empresas contactadas, a Ecodeal, entregou um orçamento de 3.150 euros por tonelada, perfazendo 38 mil euros.

Sobre o polémico atrelado utilizado para armazenar uma galera apreendida numa operação de combate ao tráfico de droga, durante a conferência de imprensa que realizou, no final de julho, Luís Neves assumiu integralmente a decisão, apesar de ter assinalado que a ideia foi de um alto quadro da PJ.

“Foi uma decisão minha e não dele. Não havia outra opção. Nas circunstâncias foi a decisão adequada e que eu voltaria hoje a tomar”, afirmou. Justificou-a como um ato de “boa” e “extraordinária gestão”, alegando que a destruição daquele material custaria cerca de 150 mil euros, verba que a PJ não tinha disponível, e que a solução adotada permitiu poupar recursos públicos.

O Nascer do Sol avança ainda que os bidões com produtos químicos apreendidos em Barcelos, no armazém do amigo de Luís Neves, estariam desselados e com evidências de terem sido utilizados.

Adicionalmente, a CNN/TVI noticiou, na quinta-feira à noite, que o ministro da Administração Interna está a usar fora de serviço um Volkswagen Golf GTD que pertence ao parque de veículos apreendidos da Polícia Judiciária (PJ). Luís Neves, depois de ser nomeado para o Governo, pediu para continuar a utilizar a viatura em regime de comodato, mantendo-a à sua disposição mesmo fora do horário de serviço.

A justificação apresentada pelo ministro é a necessidade de ter uma viatura disponível para poder responder rapidamente em caso de emergência. Contudo, de acordo com a TVI/CNN Portugal, Luís Neves está classificado com grau 3 de ameaça pública, numa escala de zero a cinco. A avaliação implica regras específicas relativamente às condições de segurança e às deslocações do governante.

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