O Brasil de 2030 é o Brasil de 2002, com rugas
Lula caminha a passos tranquilos para 16 anos no poder como a figura mais influente da democracia brasileira. E o Brasil freudiano, por sua vez, parece ainda não ter conseguido matar o pai.

- A rubrica Geração de Ideias dá voz aos distinguidos com o Prémio Professor Jacinto Nunes, atribuído pelo Banco de Portugal, e que distingue os melhores alunos da licenciatura em Economia. Isaac Laschewitz Cicatto foi distinguido enquanto aluno da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, relativamente à edição de 2023/2024.
As eleições presidenciais no Brasil aproximam-se e Lula já aparece como o grande vencedor, qualquer que seja o resultado nas urnas. A oposição não conseguiu alinhar-se para emplacar um candidato conciliador e permanece fragmentada, às sombras do bolsonarismo. Mesmo os mais ferrenhos críticos começam a concordar que a continuidade é o cenário base. Somente no primeiro mês de 2026, a bolsa e o real brasileiros acumulavam valorizações de 12,56% e 5,21%, respetivamente, sinais de precificação e neutralização de risco por parte do mercado financeiro.
Demos, entretanto, um passo atrás, a começar por entender quem é Lula. Ex-operário e líder sindical durante a ditadura militar, tentou o pleito por quatro vezes até ser eleito em 2002. Reelegeu-se, e conseguiu dar continuidade ao seu projeto com Dilma Rousseff. Foi preso durante a Operação Lava Jato e não pôde concorrer às eleições de 2018. Há quatro anos, já livre, lançou-se como alternativa ao populismo autoritário e pseudoliberal de Bolsonaro e reconquistou o cargo. O seu novo lema de governo? União e reconstrução.
Facto é que mesmo nesse Brasil polarizado, os dados não mentem. O Governo Lula III terá cumprido, em quatro anos, alguns feitos interessantes. Deverá ter registado o maior crescimento acumulado do PIB desde Lula II (2007-10), acima de 10%. Terminará com a menor inflação acumulada desde o fim da hiperinflação, cerca de 19%. Terá sido capaz de reduzir o desemprego para o mínimo histórico, próximo de 5%. Ademais, está a conciliar o crescimento à sua agenda social ao isentar do imposto de rendimento aqueles que recebem até cinco salários mínimos e reatar a política de valorização real do mesmo. Para compensar, aprovou um imposto mínimo de 10% para rendimentos anuais superiores a 600.000 reais (cerca de 95.000 euros).

Qual é, então, o calcanhar de Aquiles de Lula? Como no corpo humano, são dois. Na economia, Lula III registou défices nominais vultuosos de mais de 1 bilião de reais, ou 8% do PIB, enquanto os défices primários foram ligeiramente negativos. Em quatro anos, dever-se-á ter pagado mais de 4 biliões de reais em juros da dívida, mais de duas vezes o valor do PIB português. O governo, contudo, parece mais preocupado em culpar o banco central por manter taxas diretoras em 15% ao ano do que em reduzir estímulos fiscais que sobreaqueceram a economia, elevando os riscos para o investidor estrangeiro.
Politicamente, o problema segue a ser o bolsonarismo. A realidade é mais surreal que uma pintura de Dalí: em diversas sondagens, Michelle, esposa do ex-presidente agora presidiário, e Flávio, um dos filhos, têm mais de 30% das intenções de voto. Quais são os seus planos de governo? Ninguém sabe, nem mesmo eles. Esta é a força do nome Bolsonaro.
Enfim, o que queremos saber é: Lula já ganhou? No país dos contrastes a resposta é cinzenta. Sim: finalizará o seu mandato como o mais estável dos últimos anos, e provavelmente reeleito. Não: o legislativo continuará dominado pela direita (ou aquilo que se autodenomina tal, como argila mole que se diz cerâmica) e, mais importante, Lula não conseguirá emplacar um sucessor daqui a quatro anos. Não à altura da sua reputação e capacidade de mobilização.
A esperança? Que o Brasil continue no seu processo de amadurecimento democrático, seja por via da social-democracia ou por via do liberalismo económico. Já provamos que um ex-operário com formação escolar primária pode chegar ao poder democraticamente. Provamos também que um militar de baixa patente acusado de terrorismo e com desígnios golpistas acaba atrás das grades (metafóricas, neste caso). O mundo levou-nos a sério, resta-nos agora provar, a nós mesmos, que não somos mais os adolescentes na sala.
Nota: o texto acima exposto reflete apenas as opiniões pessoais do autor, sem quaisquer relações às instituições com que se encontre envolvido.
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O Brasil de 2030 é o Brasil de 2002, com rugas
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