O peixe palhaço e a anémona
Os apoios pro bono de que as IPSS beneficiam são um dos pilares para a profissionalização do terceiro setor. Se tivessem de pagar todos os serviços de que necessitam, teriam de racionar investimento.
Parece uma brincadeira, mas ao procurar exemplos de relações de simbiose, percebi que o caso do peixe palhaço e da anémona é um dos exemplos em que há uma relação em que os dois organismos beneficiam. O peixe palhaço ganha proteção dos tentáculos da anémona e a anémona ganha a limpeza que o peixe palhaço faz!
O apoio pro bono é também uma relação de simbiose. As instituições ganham uma qualidade de trabalho inimaginável (ou inatingível, caso tivessem de o pagar) e as empresas ou os particulares que oferecem as suas competências (quer sejam serviços ou produtos, no caso das empresas, ou consignação do seu IRS ou mesmo tempo, no caso dos particulares) podem apoiar a comunidade através do envolvimento em causas que se identificam, sem que isso implique um investimento difícil de gerir ou mesmo impossível de atingir.
É fácil concluir que os apoios pro bono de que as instituições sociais beneficiam são um dos grandes pilares para a profissionalização do terceiro setor e uma grande ajuda para o aumento de eficiência no cumprimento da sua missão.
Conseguem imaginar que fatia de um orçamento teria de ser alocada se as IPSS tivessem de pagar aos seus gabinetes de advogados, à sua agência de publicidade ou de meios, à gráfica que imprime todas as suas publicações ou materiais de comunicação, ao serviço de apoio de informática, ou mesmo se tivessem de pagar renda para assegurar as suas instalações (e tantos outros)?
Também é fácil imaginar que, se estas instituições tivessem de pagar todos os serviços de que necessitam, teriam de racionar o investimento e nunca conseguiriam contratar os serviços de topo que acabam por ter ao dispor. E, para além disso, teriam de “desviar” mais investimento do centro das suas missões…
Assim, com estas relações de simbiose, os apoios pro bono, vão-se construindo instituições fortes e mais sustentáveis ao longo dos anos.
No entanto, há um momento em que, por vezes, o pro bono pode trazer alguns efeitos perversos:
- O custo de oportunidade — para conseguir uma oferta de serviços e produtos pro bono por vezes têm de ser investidos mais recursos que o próprio valor do pro bono. Defendo que, numa instituição de caráter social, devemos sempre tentar em primeiro lugar o pro bono. Mas também sei que, se estiver a ser muito difícil, há um momento em que devemos saber desistir e em que decidimos alocar o nosso tempo de forma mais eficiente.
- A rapidez e a qualidade da resposta – compreensivelmente, quem oferece os serviços pro bono tem, por vezes, outras prioridades e não consegue responder às solicitações em tempo útil. Também pode acontecer que não tenham disponíveis os recursos de maior qualidade para alocar às causas sociais.
Estas são aquilo a que costumo chamar as dores de crescimento de uma organização. Com o crescimento, há cada vez mais trabalho e mais exigência de qualidade que, às vezes, não se coadunam com apoios pro bono.
Na nossa casa de palhaços, o nosso peixe palhaço limpa com muita dedicação as anémonas e estas dão-nos boa proteção. A Operação Nariz Vermelho tem a sorte de ter muitos apoios pro bono de grande qualidade e alguns que vêm desde a sua fundação. Um grande bem-haja a todos!
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