O preço de acreditar que “Logo se vê”

  • José Rodrigues
  • 19 Janeiro 2026

José Rodrigues, economista especialista em gestão de risco, conhece bem os comportamentos de empresas e famílias em Portugal. A sua experiência aconselha a não adiar decisões sobre seguros.

O “Logo se vê” tornou-se uma resposta socialmente aceite para quase tudo. Para decisões difíceis, para riscos incómodos ou para conversas que obrigam a escolhas. É confortável, evita conflitos e cria a ilusão de que ainda existe controlo. O problema é simples: quando chega a hora de ver, normalmente já é tarde.

Este comportamento não é apenas individual, repete-se em famílias e em empresas. Famílias que adiam decisões básicas de proteção porque “não é prioritário agora”, e empresas que crescem, investem e assumem riscos como se o contexto nunca fosse mudar. Portugal tem um problema de baixa literacia financeira (é verdade), mas isso não explica tudo. Existe também uma escolha consciente de adiar decisões incómodas.

Sendo o risco, por definição, incerto e alheio à vontade das partes, tendemos ainda assim a tratá-lo como um azar estatístico que só acontece aos outros. É a partir desse pressuposto que planeamos a nossa vida e os nossos negócios, assumindo que o amanhã será uma continuação quase linear do hoje. Quando não é, instala-se a surpresa e, logo de seguida, a urgência.

É muitas vezes, nesse momento que os seguros entram em cena. Não como parte de uma estratégia pensada, mas como reação a um problema que já existe. O seguro passa então a ser visto como solução para uma situação que, na realidade, começou muito antes.

Convém clarificar um ponto essencial. O seguro não elimina o risco. O tomador do seguro somente, transfere o impacto financeiro do risco para uma seguradora. Os eventos continuarão a acontecer; o que muda é quem suporta a conta quando se materializam. Quando esta distinção não é clara, o seguro é avaliado com expectativas erradas e a frustração surge inevitavelmente.

Na prática, o “Logo se vê” repete-se sempre nos mesmos exemplos.

Nas famílias, surge quando se adia um seguro de saúde porque “somos novos”, quando se evita falar de invalidez porque “isso é raro”, ou quando ninguém revê beneficiários e capitais porque “fica para depois”. Logo se vê. Até ao dia em que uma doença, um acidente ou uma morte inesperada transformam uma decisão simples numa urgência sem alternativas.

Nas empresas, o padrão é idêntico. O negócio cresce, a faturação aumenta, os ativos multiplicam-se e o risco acompanha esse crescimento. Ainda assim, a gestão do risco fica para segundo plano. Logo se vê quando houver mais margem. Logo se vê quando o negócio estabilizar. Logo se vê quando houver tempo.

O problema é que muitas destas decisões ignoram um princípio básico da gestão de risco: não é a probabilidade que destrói um negócio, é o impacto. Um sinistro pequeno e frequente é incómodo. Um evento raro com impacto elevado pode ser fatal. Ainda assim, é comum ver empresas e famílias excessivamente focadas em negociar franquias marginais ou copagamentos de valores residuais, enquanto descuram capitais adequados em coberturas críticas como hospitalização, responsabilidade civil ou interrupção de atividade.

Uma incapacidade prolongada, uma paragem operacional, um incobrável, um sinistro grave de responsabilidade civil ou a perda de uma função crítica são exemplos clássicos. Não são riscos teóricos. São riscos conhecidos, mensuráveis e, na maioria dos casos, seguráveis.

Mesmo com seguro e uma mediação proativa e tecnicamente preparada, que alerta para capitais desatualizados, limites inadequados, exclusões ou períodos de carência, o “Logo se vê” tende a prevalecer. Não é falta de conhecimento técnico. É falta de decisão no momento certo. É aqui que nasce a ideia de que “os seguros não funcionam”. Na realidade, o que falhou não foi o seguro. Foi a gestão do risco antes do seguro existir.

Ter um seguro automóvel não dispensa a manutenção do veículo, as inspeções em dia ou o uso do cinto de segurança. O seguro não substitui comportamentos responsáveis. Complementa-os.

A gestão do risco começa precisamente quando o “Logo se vê” termina. Começa na identificação clara dos riscos relevantes, na avaliação do seu impacto e na decisão consciente sobre o que faz sentido reter e o que deve ser transferido.

O preço de acreditar que “Logo se vê” raramente se paga, no momento em que a decisão é adiada.

O risco não espera que decidamos melhor; limita-se a cobrar a fatura quando já não há escolha.

 

  • José Rodrigues
  • Economista

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