Paddy, de amado a cancelado
Quem ouviu Marcelo, Costa ou outros políticos em delírio no palco com Paddy Cosgrave hoje só ouve o som do silêncio, pois ninguém veio ainda falar de forma clara sobre o futuro da Web Summit.
Sentado ao lado de Paulo Portas, o jovem irlandês Paddy Cosgrave era um desconhecido para uma grande parte dos jornalistas presentes no Teatro Thalia a 23 de setembro de 2015. Os assessores do então vice-primeiro-ministro haviam convidado a comunicação social para um “importante anúncio internacional” com secretismo q.b. Rapidamente alguns dos repórteres especializados em tecnologia explicaram aos outros que a Web Summit era uma das principais cimeiras dedicadas ao digital na Europa, e que o anúncio da vinda do evento para Lisboa era, de facto, importante.
Nos meses até à primeira edição da cimeira na FIL em Lisboa em novembro de 2016, o empreendedor (de 32 anos na altura) foi aparecendo em entrevistas, dando-se a conhecer aos portugueses. Mostrava ambição e confiança que eram camufladas pela sua imagem nerdy — óculos pesados e uma camisola de lã que poderia ter sido feita pela avó, mas que depois esgotou numa edição limitada a um preço de 780 euros cada no site da cimeira.
Quando chegou a inauguração do evento, ficou tudo ainda mais claro. No centro daquele vendaval que tomava conta do Parque das Nações, no meio das estrelas dos negócios, da política e do desporto estava Paddy, a dominar o palco, a falar com Stephen Hawking, com Edward Snowden, a partilhar o centre stage com Marcelo Rebelo de Sousa, com António Costa ou outros políticos que queriam brilhar sob as luzes compradas pelo Estado português ao jovem irlandês. Não era um one man show, claro, mas era o homem no centro do espetáculo.
À medida que o tempo passava ficou mais claro que Paddy não era exatamente uma pessoa fácil, apesar do enorme sucesso do evento. Tinha reações nervosas e duras durante entrevistas, intervenções mais agressivas no palco e alguma dificuldade em lidar com as polémicas que iam surgindo.
A Web Summit atraía nomes grandes de várias áreas (embora ano a ano cada vez menos sonantes). Por outro lado, o evento foi sempre um íman para polémicas. Se algumas eram de propósito para chamar atenção (os temas disruptivos, a política sempre ao centro), muitas eram indesejadas.
O jantar de luxo com fundadores de empresas organizado no Panteão Nacional levou Paddy a escrever “dear Portugal, I apologize” e ao Governo a mudar as regras sobre os monumentos nacionais depois de uma utilização “absolutamente indigna”. Seguiu-se, em 2018, um convite a Marine Le Pen, que depois teve de ser revogado. No mesmo ano, a organização e o Governo chegaram a um acordo para manter a Web Summit em Lisboa por mais 10 anos, num contrato sigiloso mas que parece ter envolvido um total de 110 milhões de euros e a promessa (ainda incumprida) de aumentar o espaço da FIL. Em 2021 surgiu uma disputa legal com um co-fundador (sobre as famosas camisolas, que alegadamente beneficiavam a esposa de Cosgrave).
Mas nada disso se compara, no entanto, com a atual crise que afeta a cimeira. Depois de Paddy ter acusado os israelitas de cometerem crimes de guerra na Faixa de Gaza, nem um pedido de desculpa foi suficiente para evitar a hecatombe, ou seja, a saída do CEO da empresa.
Este incidente sublinha várias realidades. A primeira é que a internet é um espaço que não perdoa, simplesmente cancela os que dizem (bem ou mal) o que não é tolerado pelo mainstream. Paddy tem todo o direito à sua opinião nas redes sociais, mas como especialista do digital, devia saber que essa opinião tem consequências, especialmente quando estamos a falar de gigantes tecnológicas.
A segunda é que a debandada dessas empresas americanas não é surpreendente, a gravidade dos comentários de Cosgrave não lhes deixou opção, especialmente tendo em conta a aliança dos EUA com Israel. Principalmente, veio lembrar o poder que essas grandes corporações têm. Se não querem estar, o evento perde e provavelmente irá definhar nas próximas edições até deixar de existir. É pena, porque apesar da atitude blasé de muitos portugueses (as polémicas não ajudaram), o certame trouxe a Portugal pessoas e temas de interesse global que de outra forma não passariam por cá.
A última é que a culpa morre sempre solteira. Quem ouviu Marcelo, Costa ou outros em delírio no palco com Paddy hoje só ouve o som do silêncio, pois ninguém veio ainda falar de forma clara sobre o assunto. Só Carlos Moedas disse, de forma vaga, que o evento não é sobre geopolítica, sem comentar a demissão e a insistir que o evento é importantíssimo para a cidade. Nenhum político quer ser associado a comentários tóxicos, claro, mas também ninguém quer ver os líderes nacionais mostrarem tão abertamente que são interesseiros e que lhes falta a mínima coragem para explicar o que vai acontecer.
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