País Presidente
A ausência dos “candidatos naturais” abre o espaço político a todas as figuras políticas que conheceram 15 minutos de fama.
O ruído branco toma de assalto a política portuguesa. A esquerda impotente e traumatizada explora todas as polémicas à superfície como se fossem a salvação do mundo. Na devastação do Gueto de Gaza, a esquerda é apenas vocal onde a direita é apenas venal. Sobram o sexo e a cidadania, as barracas, a imigração, o governador do Banco de Portugal, os alunos sem professor, a calamidade das urgências no SNS, os desvios de direita do Governo, os desvios erráticos do PS, o triunfalismo exótico do Chega.
É certo que o Chega é líder da oposição e aparece infectado pelo vírus da responsabilidade virtual nas acções e da agitação revolucionária nas palavras. O PS é o tenor de uma esquerda provinciana abafado pelo coro ruidoso de uma esquerda em peso e em pânico. A política portuguesa não é um ecossistema estratificado, mas uma dispersão programática de causas, de culpas, de cumplicidades. As cumplicidades disfarçam as culpas e as cumplicidades passam por causas. A esquerda perdeu as causas e anda à procura de uma função. Enquanto não tem função, a esquerda ocupa-se do escândalo do dia como se fosse a causa da Humanidade.
A política portuguesa não conhece o “bairro do amor”, mas delira com o bairro de Belém, a pátria do pastel de nata, e o novo inquilino do Palácio. Em plena crise de habitação nacional e internacional, o condomínio é cobiçado à dimensão de um desígnio redentor da Pátria e de um novo impulso nacional para o novo mundo com toda uma nova decoração de interiores. A proliferação de candidatos e de personalidades em reflexão rebentam com as meninges da nação até ao limite da indiferença. Ser candidato é uma decisão pessoal, mas ninguém é Presidente da República sem o beneplácito e sem os votos de um partido político. Esta é uma das grandes ficções fundadoras da política portuguesa – A independência do candidato e a virtude do Presidente de todos os portugueses.
Certamente que existem muitas e variadas teorias para a inflação de candidatos. A mobilização cívica da cidadania, a refundação do Regime, a consciência democrática, a situação internacional, a mudança de ciclo político, o novo século, a prosperidade do país, o fim do mundo. O que é mais evidente é a ambição pessoal e a presunção de se ser uma personalidade exemplar com encontro marcado com o destino. A situação assemelha-se a uma época histórica em que os títulos nobiliárquicos eram atribuídos por quase tudo e por quase nada – “Foge cão que te fazem Barão. Para onde se me fazem Visconde?”. A democracia portuguesa em matéria de candidatos não regista qualquer fuga de cérebros. Pelo contrário, os cérebros são tantos e tão excelentes que vão mobilizar toda a democracia para um autêntico festival de assinaturas. Mas de onde surge esta súbita presunção de competência para o lugar do mais alto Magistrado da Nação?
A grande responsabilidade repousa nas mãos do actual Presidente da República. O “Presidente dos afectos” afinal afectou a importância e a dignidade do cargo. Entre selfies, mergulhos, comentários, o ritual da instituição perdeu a relevância pública de um ritual com regras, com reserva, com distância. Aquilo que é demasiado próximo torna-se vulgar e sem mistério, logo acessível a um qualquer cidadão empenhado mas sem curriculum.
A Presidência da República tem uma função decorativa que não pode ignorar uma função política que existe como o último ratio do Regime. A Presidência da República é a peça política que marca o ritmo da nação governada – Modera os excessos da actividade executiva, acelera os excessos da estagnação executiva. Portugal teve nestes últimos 10 anos um Presidente hiperactivo que assistiu bem-disposto a um país estagnado. Um paradoxo que é um drama nacional.
Depois vem a deserção dos “candidatos naturais”. A ausência dos “candidatos naturais” abre o espaço político a todas as figuras políticas que conheceram 15 minutos de fama. Alguns dos candidatos artificiais nem cumprem os mínimos exigíveis para a enormidade das responsabilidades de um Presidente da República. Recorrendo à vox populi sempre imbatível de um taxista que presta serviço no aeroporto – “Sou taxista profissional e qualquer dia vou candidatar-se a comandante da TAP. A coisa não é muito diferente, deixo de conduzir um automóvel e passo a pilotar aviões, mas continuo a transportar passageiros.” Política pura.
E quanto ao Primeiro-Ministro? Recorro à metáfora do écran de cinema para dissertar sobre a governação – “Imaginem-se numa grande sala de cinema, sentados na última fila e, aproximando-se gradualmente até terem o nariz colado ao écran. Gradualmente os rostos das estrelas ir-se-ão dissolvendo em partículas dançantes; os mais pequenos detalhes assumem proporções grotescas; torna-se claro que a própria ilusão é a realidade”. Portugal é governado às fatias e em pedaços de cena.
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