Palavra de Primeiro-Ministro

O discurso do primeiro-ministro é prosa de férias, vulgaridade do lar, quotidiano materno, o apelo para subir às montanhas pela felicidade do ar puro e a inspiração da paisagem.

O primeiro-ministro falou ao país. Falou ao país e disse nada de politicamente importante. Para além do discurso de circunstância e das banalidades obsoletas, o discurso serve apenas como abcesso de fixação para toda a oposição. Na oposição estão também os candidatos presidenciais que criticam o discurso com a propriedade de quem nada tem a declarar. A situação política do país cai neste grau mínimo da política em que se critica politicamente o que não existe politicamente.

É o lugar-comum de que a política não conhece o vazio nem aprecia o silêncio. É quando a política se transforma no debitar de palavras sem sentido ou significado para parecer que a política está a agir em nome do país. Mas não está. O discurso do primeiro-ministro é uma espécie de espelho de narciso em que desfilam todas as imagens do elogio em causa própria. A “ambição”, o “espírito positivo”, o “optimismo”, são tudo palavras redondas que perfazem o círculo político da propaganda pura. É a política new age em tom paroquial e sem objecto, sem propósito, sem capacidade de realização política. Do discurso do primeiro-ministro fica na memória dos portugueses a indiferença das palavras brancas na grande prateleira do supermercado político.

A democracia portuguesa não tem grandes oradores ou virtuosos da palavra política. Convém não esquecer que a palavra tem uma dimensão performativa em política pois marca o ar do tempo, mais o tempo histórico, mais a imaginação que inspira o movimento colectivo de um país. Um bom discurso político escapa à lei do tempo porque antecipa o sentido do tempo. Que ideia de Portugal se liberta do discurso do primeiro-ministro? A omissão no retrato de um país confinado 12h na urgência de um hospital até ter a felicidade de ser visto por um médico. E crianças a nascer em ambulâncias nas grandes circulares externas à política. Brilha o ranking da revista The Economist em que Portugal é considerado uma referência para a Europa e um exemplo para o mundo. Esta é uma constante da cultura política portuguesa – a indiferença perante as manifestações de miséria e indignidade humanas e o deslumbramento perante a pequena nação à beira mar plantada e que dá mundos ao mundo. No discurso do primeiro-ministro não há crime nem castigo apenas a infinita sequência da esperança. Os políticos só receiam dois demónios – As eleições e o regresso ao anonimato de um cidadão comum com o rótulo de um político falhado. O primeiro-ministro não inspira a nação, não convence o país, não revela a força das convicções no Portugal alternativo que espera por um país adiado.

Quando se observa e se lê o sentido do tempo político destaca-se uma atmosfera metálica que incomoda o presente e que anuncia dificuldades para o futuro próximo. O ar do tempo político está saturado de medo, de um medo transformado em arma política por excelência. Nunca nos últimos 75 anos se respirou este ar turvo e vermelho que marca a Europa e o mundo com o anúncio de um novo futuro incerto e não a continuidade de um futuro razoável. Quando a política está tomada pelo regresso dos homens providenciais que estão acima da política e da democracia, o lugar da esperança tem de ser reinventado com a imaginação dos tempos de crise e com o talento político próprio dos tempos de incerteza absoluta. A Europa e o mundo estão infectados pelo regresso da política hegemónica centrada no populismo, no proteccionismo, no nacionalismo. A política está a ser tomada por uma versão autocrática da “masculinidade tóxica” que orienta a acção política no sentido da competição, na direcção da pureza étnica, na lógica da agressão. A violência pode ainda ser simbólica inscrita no discurso político, mas a promessa da violência física não é um espectáctulo estranho à política. Os tempos não são tempos normais que estejam em linha com discursos indigentes em divergência com as dificuldades oblíquas que esperam a Europa e o mundo.

Se as autocracias inspiram as democracias, a economia está transformada numa arma ao serviço da hegemonia política. A ideia comum de que o comércio aproxima as nações e evita as guerras é um pensamento obsoleto. A economia associa-se à cultura como factor identitário e factor de supremacia política. A nova “geoeconomia” é a subversão de uma economia liberal no centro de uma política multilateral. A nova “geoeconomia” está a criar uma nova realidade transaccional baseada no unilateralismo de uma lógica imperial e na definição de esferas de influência. O discurso anacrónico do primeiro-ministro não contempla estas variáveis e representa um desserviço ao país.

O discurso do primeiro-ministro é prosa de férias, vulgaridade do lar, quotidiano materno, o apelo para subir às montanhas pela felicidade do ar puro e a inspiração da paisagem. E onde fica a presciência da paisagem política?

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