Para onde foram os trabalhadores?premium

Quer as empresas quer os trabalhadores vão ter de se fazer à vida. As empresas porque os salários vão aumentar, os trabalhadores porque vão ter de investir em novas competências.

Where did all the workers go?” perguntava há dias o Financial Times, apontando os diferentes exemplos dos mercados de trabalho na América e na Europa. Enquanto na América a taxa de participação diminuiu na sequência da pandemia, na Europa a participação aumentou ainda que a par de persistentes queixas quanto à falta de trabalhadores disponíveis. Na América há hoje menos 4 milhões de trabalhadores activos do que antes da pandemia. Há quem fale na “Grande Demissão” (“The Great Resignation”), em referência aos que decidiram voluntariamente abandonar o mercado de trabalho. O fenómeno estará concentrado nos quadros médios-altos com algum nível de senioridade. Na Europa, de um modo geral, tem sucedido tendencialmente o contrário: há agora tantos ou mais trabalhadores activos do que antes da pandemia.

Portugal está em linha com o padrão europeu: em Outubro, a taxa de participação no mercado laboral – a relação entre a população activa e a população em idade activa – estava em cerca de 67,2% e encostada ao máximo registado em Setembro passado (67,4%), o valor mais elevado da última década. Mas há lacunas relevantes. Segundo o INE, no último ano, a população activa em Portugal aumentou em todos os escalões etários, excepto no escalão dos jovens. Trata-se da confirmação de que este país não é um país para jovens, entre os quais a taxa de participação se situa em apenas 32%. Não só a taxa de participação dos jovens no mercado de trabalho é baixa, o que talvez se justifique pelo facto de muitos estarem ainda a estudar, mas também a taxa de desemprego é significativamente mais alta (22,8%) do que a média nacional (6,4%).

A integração dos jovens no mercado de trabalho, a par de uma menor subutilização do trabalho, poderia contribuir para aliviar as restrições que os empregadores dizem sentir. Em Portugal, existem mais de 600 mil empregados subutilizados. A população desempregada, um conjunto de 337 mil pessoas, constitui mais de metade daquele universo. Os trabalhadores a tempo parcial, mas com disponibilidade para trabalharem mais horas, representam um outro conjunto de 137 mil pessoas. Depois, há ainda um outro grande grupo que conta com 139 mil indivíduos, no qual os trabalhadores, apesar de inactivos e disponíveis para trabalhar, não procuram emprego. Este último grupo é especialmente enigmático. Por que razão não procuram emprego? A resposta não se afigura imediata. Será porque os apoios sociais desincentivam à procura de trabalho, ou porque a ausência de qualificações os torna não-empregáveis?

O desajustamento entre a oferta e a procura de trabalho está a aumentar. Não é só na questão das qualificações que isso se sente. De facto, as diferentes transições que o mundo atravessa, designadamente a digital e a energética, estão a tornar obsoletas aptidões e competências que até há pouco eram muito valorizadas. Ao mesmo tempo, estão a criar procura por outras para as quais a oferta não se ajustou ainda. Todavia, há outros elementos que contribuem para o desajustamento. A conciliação do emprego e da vida pessoal é um deles. O teletrabalho, em particular, veio para ficar para muita gente, sobretudo para aqueles que têm poder negocial junto dos empregadores e podem trabalhar a partir de casa para qualquer parte do mundo. E depois há ainda tipos específicos de empregos, como os fabris, que já não enchem o olho aos jovens, mais atraídos pela economia estritamente digital do que pelo chão de fábrica.

Os salários estão destinados a aumentarem. Em parte, respondendo aos desequilíbrios descritos antes. Em parte, em consequência do aumento do custo de vida. Em Portugal, será um desafio adicional para a generalidade das empresas. Apesar de os gastos com pessoal das empresas do sector não financeiro não chegarem a 15% dos proveitos totais, a verdade é que os resultados líquidos não chegam sequer a 4% dos mesmos proveitos totais. Ou seja, face ao custo de vida, o nível salarial é baixo. Mas face à rentabilidade das empresas a margem de ajustamento dos salários é igualmente baixa. Não é por acaso que 25% dos trabalhadores por conta de outrem em Portugal auferem o salário mínimo, sendo que entre os jovens a proporção aumenta para 40%. Em geral, não dá para muito mais, o que é dramático. E não é porque os patrões estejam a lucrar de forma exorbitante; a rentabilidade sobre capitais próprios entre 2015 e 2019 não foi além de 8%. O problema está antes no valor acrescentado bruto das empresas, que é baixo e que precisa de aumentar para aguentar salários estruturalmente mais elevados.

A fiscalidade sobre os rendimentos do trabalho também não ajuda. De resto, é paradoxal a relação que a generalidade dos portugueses tem com o IRS. As pessoas queixam-se de salários baixos, mas quando se referem a eles falam sempre de salários líquidos, ignorando também o custo total do trabalho suportado pelas empresas (i.e., incluindo as contribuições sociais). Se a coerência primasse, a discussão incidiria sobre os salários antes de impostos, sobre o total de encargos pagos pelas empresas, e também no desincentivo que a actual progressividade produz sobre a obtenção de salários mais elevados. Talvez a taxa única de IRS possa um dia fazer o seu caminho em Portugal, quando o eleitorado despertar do seu estado de estupor fiscal. A fiscalidade deveria contribuir para celebrar o emprego e os salários, não para os penalizar.

A maior garantia de empregos de qualidade é a existência de muitos empregos disponíveis. Não é o caso de Portugal, onde a taxa de participação no mercado de trabalho é estruturalmente baixa. Trata-se, aliás, de um dos seis desequilíbrios macroeconómicos apontados pela Comissão Europeia a Portugal, o que demonstra estarmos ainda longe do dinamismo sugerido pela baixa taxa de desemprego.

Quer as empresas quer os trabalhadores vão ter de se fazer à vida. As empresas porque os salários vão aumentar e o valor acrescentado bruto terá de acompanhar. Os trabalhadores porque vão ter de investir em novas competências para acompanharem os empregos de amanhã. Volto, pois, ao início deste artigo: para onde foram os trabalhadores? A resposta é que eles continuam por aí, mas muitos estão a equacionar o futuro e, entretanto, como está tudo mais caro, também querem salários mais altos.

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