Paraíso Presidencial
O Presidente da República em final de mandato enfrenta o “deserto eterno”. A melancolia nacional penetrou lentamente no espírito do Presidente e levará o tempo de uma vida para se dissipar.
As presidenciais estão mais perto de Ronaldo ou de Eça de Queirós? Ronaldo está na Arábia Saudita, Eça de Queirós repousa no Panteão Nacional. Todos os portugueses conhecem o Bola de Ouro da Selecção Nacional e todos os portugueses conhecem Eça de Queirós da escola pública. A Selecção Nacional é um símbolo vivo da identidade portuguesa, o último reduto de uma nação unida e patriótica, o ponto de convergência de um país que encanta o mundo e como Portugal adora quando encanta o mundo. O Panteão Nacional é um monumento distante onde repousam para glória nacional as personalidades que marcam a ideia de ser português ao longo do tempo. Para o português comum, o Panteão Nacional é um lugar que aponta para um passado histórico marcado pelo domínio de uma certa elite política e cultural. Se a Selecção Nacional é a afirmação individual aberta ao talento desportivo, o Panteão Nacional é último reduto de uma elite superior que sempre dominou o país longe dos portugueses. A Selecção Nacional é a celebração de todos nós no presente. O Panteão Nacional é a consagração de alguns entre nós no passado. Nem a presença de Amália e de Eusébio no Panteão Nacional conseguem devolver o lugar ao imaginário nacional. Alguém imagina que daqui a cem anos o país poderá estar a discutir o lugar de Ronaldo no Panteão Nacional?
O elenco de candidatos presidenciais não é uma Selecção Nacional nem representa o olimpo de um Panteão Nacional. Neste sentido, os candidatos são cidadãos normais nas suas capacidades e vulgares nos seus talentos, não se distinguem do português médio no cálculo utilitário da ambição e da vaidade. Na banalidade pouco estudada com que vão percorrendo as feiras e os mercados de Portugal representam o país de cima que desce ao país de baixo porque é nesse lugar profundo que repousam os votos para Belém. Cada candidato procura o sucesso de Ronaldo no Portugal de Eça de Queirós. O sucesso de Ronaldo é o símbolo do domínio das adversidades do presente. O Portugal de Eça de Queirós é a persistência das dificuldades do país de sempre. Os dois países tocam-se com a violência de dois mundos incompatíveis, mas que para todos os efeitos são as duas metades de um país indivisível.
Os candidatos às presidenciais pensam que a vida política é apenas o comentário casual ao assunto do dia, mais a denúncia das reticências burocráticas que param um país adiado, enquanto recusam os legalismos permissivos numa luta constante contra os instalados na vida. Mas Portugal vive instalado na vulgaridade de uma pequena vida que apenas se movimenta pelo sucesso de Ronaldo. Ronaldo venceu a vida, mas Portugal pertence aos “Vencidos da Vida”.
Não há vestígio de pessimismo nestas reflexões políticas, mas sobram sopros de optimismo no discurso dos candidatos presidenciais. Cada candidato sofre do síndroma do herói porque todos os candidatos se apresentam para salvar o Portugal ideal do Portugal real. Cada candidato tem um país ideal no horizonte imediato e temos tantos países ideais quanto as matrizes ideológicas dos potenciais Presidentes. Logo existe o país da esquerda de Abril, mais o país da esquerda ao centro, mais o país da direita ao centro, mais o país da direita radical, mais o país puro saído da messe de um Almirante perdido. Por entusiasmo, idealismo ou desleixo o país multiplica-se em modelos abstractos que apenas servem para contornar a persistência de um país real que sabe resistir à mudança como factor de identidade nacional. A imaginação sobre o futuro transporta em Portugal todos os exageros da mentira.
Perante a negação do país real, perante a pulverização de pequenas nações políticas no seio da grande nação política, os candidatos repetem até ao limite do suportável o lugar-comum do “Presidente de todos os Portugueses”. As presidenciais dividem os portugueses para depois unir os portugueses. A lógica das legislativas domina o discurso das presidenciais porque o país não se sabe pensar a partir de Belém. O paradigma político dominante é o de São Bento – Vencer a vida, ser Bola de Ouro, mudar Portugal.
Perante esta perspectiva sobre o momento político, percebe-se o discurso do Presidente da República. Marcelo fala com o espírito no Panteão Nacional. O Presidente dos afectos, falador e sociável revela um fundo de melancolia que se liberta da experiência de uma década em Belém. Marcelo, o comentador optimista, dá lugar ao cidadão consciente do realismo histórico de um país que adora desiludir quem nele acredita. O brilho de Ronaldo transforma-se em energia e calor que se dissipa na solidão do tempo político.
O Presidente da República em final de mandato enfrenta o “deserto eterno”. A melancolia nacional penetrou lentamente no espírito do Presidente da República e levará o tempo de uma vida para se dissipar. Portugal é uma infelicidade para quem sente e uma desilusão para quem pensa.
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