Pode um País ser quem não é?
O Governo viaja num carro-eléctrico que o transporta a regiões exóticas e distantes. Quando sai do carro-eléctrico, o Governo está exausto e sonâmbulo. Parece que governou uma vida inteira.
E a discussão política dispersa-se pelas franjas oportunistas à esquerda e à direita. E por vezes a esquerda e a direita surgem numa “convergência objectiva” contra a situação. Mesmo que a situação do Governo tenha 40 dias, com todas as hesitações, confusões, substituições de altos cargos públicos, negociações com a elite dos sindicatos. Existe apenas a circunstância de que ninguém está empenhado no progresso do país. Nem na melhoria das condições de vida de uma população de figurantes que não riscam uma linha na concertação da nação. Que o Governo não está preparado é mais do que óbvio, só que ninguém esclarece sobre os detalhes políticos da impreparação do Governo. Que a esquerda e a direita convergem num ressentimento sem fronteiras é uma evidência que aquece Portugal. O PS está exuberante na oposição, o Chega está eufórico na oposição, os pequenos partidos invisíveis estão felizes na oposição, o Bloco rebenta moralismo político em cada palavra na oposição. Com tanta oposição, o fraco Governo faz fraca figura porque é um Governo fraco. E fraco não porque a “minoria é grande”. Mas fraco porque não faz ideia do que deve fazer com o país que lhe caiu nas mãos.
Portugal parece que está sempre perto do abismo e parece sempre que vai dar o passo em frente. Mas não. Politicamente com este Governo é a melodia de sempre, uma espécie de “bailecore” em que a política roda sem parar numa espiral imensa sem nunca sair do mesmo lugar. É brilhante esta capacidade que o país político tem para a acção sem consequência ou para a inconsequência da não acção. É como se o país fosse uma realidade paralela à política e que existe indiferente à indiferença da política. Fala-se que não estamos em “tempos normais” e que a democracia portuguesa está numa fase de transição, num segmento temporal em direcção a uma “nova versão” do regime. Talvez. A democracia portuguesa está numa fase eleitoral de largo espectro, um leilão de palavras sem ideias políticas que se revelam alguma coisa é a imaturidade do regime. A “nova versão” do regime nem é nova nem é versão, mas são sim os velhos hábitos de uma cultura política que adora os extremos e que descobre em democracia o charme indiscreto dos radicais. É o “radical chic” que domina a política portuguesa. É a política portuguesa com histórias contadas em hip-hop e políticas em flip-flop. Quanto ao quadro de excedentários que perfazem a totalidade dos portugueses têm o direito constitucional à “solidão dos números primos”.
Parece que o grande problema do Governo é a ausência de uma “estratégia de comunicação”. O Governo é bom, mas a comunicação é má. Logo o problema do país pode ser resolvido com uma máquina de promoção política em que, de novo, se cria uma realidade política paralela à realidade política que já é paralela ao país real. Entregues aos encantos da comunicação de massas e preocupados com as sondagens, vai o Governo convocar conferências de imprensa e emitir comunicados para divulgar as suas propostas. Com estatísticas e orçamentos à mistura é a máquina da propaganda ao serviço da “política do espírito”. É a política do jogo de espelhos e das cortinas de fumo. Onde governam os espelhos e o fumo não há necessidade de uma visão política real para os problemas do país. Portugal é o país da fantasia política, o último paraíso da Europa, o destino dos navios de cruzeiro e 4 euros de taxa turística.
Vejam-se os temas, as questões, as reflexões, os debates que enchem Portugal com um ruído insuportável. O Presidente da República é acusado de “traição à Pátria” por levantar a questão das reparações pelo colonialismo e pela escravatura. O colonialismo rebenta no discurso público como a essência do país, uma nação de escravocratas sem moral e consciência da necessidade de uma reparação histórica em nome da Humanidade. Uma nação de racistas que se refugiam no relato de um colonialismo de brandos-costumes onde o Sol brilha sobre um luso-tropicalismo eterno.
Junta-se a questão da devolução das obras de arte espoliadas mundo fora por séculos de dominação. Com excepção do exorbitante delírio do Chega sobre o Presidente da República, todas as questões são objecto de discussão e de debate nas nações europeias com passados coloniais. Mas como em Portugal não se quer em rigor debater nada, a solução é lançar todas as teorias e todos os ressentimentos para a esfera pública precisamente para não se esclarecer nada. E as teorias e os ressentimentos acontecem na esquerda pós-colonial e na direita cripto-colonial. “O passado é um país distante onde tudo se faz de outro modo”. As fotografias da época colonial quase que invertem esta ideia. Afinal parece que é o presente que é estranho e estrangeiro e que o passado é que é o país real e verdadeiro – um país perdido, numa cidade perdida, algures num tempo perdido. Perdido entre nós.
Pode um país ser quem não é? O Governo viaja num carro-eléctrico que o transporta a regiões exóticas e distantes. Quando sai do carro-eléctrico, o Governo está exausto e sonâmbulo. Parece que governou uma vida inteira. Perdido entre nós.
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