Produzimos mais, pensamos menos: o dilema da inteligência artificial

  • Jorge Esparteiro Garcia
  • 19 Agosto 2025

A inteligência artificial está a aumentar a produtividade e a acelerar o nosso ritmo, mas será à custa da nossa capacidade de pensar?

A inteligência artificial (IA) chegou para ficar. Integra-se de forma subtil, contudo cada vez mais invasiva no nosso quotidiano, ocupando papéis que antes estavam reservados exclusivamente à mente humana. Automatiza, acelera, recomenda, organiza. E, aos poucos, passamos de utilizadores a dependentes.

No entanto, nem tudo é progresso. A par da inovação tecnológica, cresce um fenómeno silencioso: a erosão das nossas capacidades humanas. A inteligência artificial, ao assumir tarefas do nosso dia-a-dia, traz consigo um custo que raramente é discutido, a perda gradual da nossa autonomia cognitiva.

Um cérebro cada vez mais preguiçoso

A primeira das consequências está relacionada com a nossa capacidade de pensar, memorizar e resolver problemas. Com o uso constante de assistentes virtuais, ferramentas de escrita automática e sugestões personalizadas, estamos a deixar de exercitar competências básicas que moldam a inteligência humana: a atenção, a memória e o raciocínio lógico.

Um estudo recente da Microsoft Research (“O Impacto da Inteligência Artificial Generativa no Pensamento Crítico: Redução Auto-Relatada do Esforço Cognitivo e Efeitos na Confiança, a Partir de um Inquérito com Trabalhadores do Conhecimento”), publicado em janeiro de 2025, revela que utilizadores que recorrem à inteligência artificial para responder a perguntas complexas tendem a confiar mais nas respostas geradas, mesmo quando estas contêm erros. Este comportamento reduz o esforço analítico individual e reforça a tendência de aceitação passiva da informação.

Já não precisamos de decorar datas, fazer contas de cabeça ou escrever mensagens inteiras. Os algoritmos fazem isso por nós. Um estudo da Universidade de Columbia identificou o chamado “efeito Google”: a tendência do cérebro humano em esquecer informações que sabe estarem acessíveis online. Ou seja, estamos a externalizar a memória. A inteligência artificial facilita, mas também enfraquece.

Tal como a prática leva à perfeição, a ausência dela leva à atrofia. Quanto mais delegamos, menos pensamos. E este é um caminho perigoso, sobretudo numa era em que o pensamento crítico é mais necessário do que nunca.

Trabalhar mais, e não menos

Um segundo impacto da inteligência artificial, talvez o mais paradoxal, é a aceleração do ritmo de trabalho. Ao contrário do que se poderia imaginar, a automatização não tem libertado os trabalhadores, mas antes aumentado a pressão sobre eles. Com sistemas inteligentes a otimizar rotinas e a identificar “ineficiências”, o que se espera dos colaboradores é que sejam tão produtivos quanto a própria máquina. A IA impõe métricas, vigia tempos de resposta, atribui tarefas com base em algoritmos que não dormem, não se distraem e não precisam de pausas. Não raras vezes, a promessa de um assistente digital transforma-se numa máquina de vigilância. E quem não acompanha o ritmo, fica para trás. Se antes falávamos de burnout digital, agora falamos de burnout algorítmico.

Algoritmos com opinião própria?

Outro problema crítico é a normalização do viés algorítmico. Os algoritmos não são neutros, reproduzem e amplificam preconceitos presentes nos dados com que são treinados. Seja na seleção de currículos, concessão de crédito ou decisões judiciais, a IA pode ser tão injusta quanto o mundo real. Só que em escala maior e com menos possibilidade de contestação.

Casos como o da IA da Amazon que discriminava candidatas mulheres em processos de recrutamento, ou sistemas preditivos de justiça nos EUA que penalizam desproporcionalmente minorias raciais, são apenas a ponta do iceberg. A automatização não é sinónimo de imparcialidade.

Perda de privacidade e autonomia

A inteligência artificial também levanta sérias questões sobre privacidade e liberdade individual. Vivemos num ecossistema de dados onde tudo é monitorizado, desde o que dizemos ao que pensamos em voz baixa, ou o que escrevemos e apagamos antes de enviar. Combinadas com reconhecimento facial, geolocalização e inferência de comportamento, as IA são ferramentas poderosíssimas de controlo social.

Não é exagero afirmar que muitos dos nossos comportamentos já não são espontâneos, mas moldados por sistemas que antecipam e influenciam as nossas escolhas. Isto coloca em risco a noção mais básica da democracia: o livre-arbítrio.

E agora?

A tecnologia, por si só, não é nem boa nem má. Mas, como em tudo, é preciso equilíbrio e consciência. A inteligência artificial pode, sim, tornar o nosso trabalho mais eficaz, ajudar-nos a tomar decisões e facilitar tarefas rotineiras. Mas também pode empobrecer o nosso pensamento, acelerar ritmos insustentáveis e promover desigualdades.

Não se trata de rejeitar a IA, mas de re-humanizar o seu uso. Fazer com que estas ferramentas nos ajudem a pensar, em vez de pensar por nós. E que sirvam para libertar, e não para controlar.

Mesmo rodeados por algoritmos e sistemas cada vez mais eficientes, é na lentidão de um pensamento consciente que continuamos a encontrar sentido, direção e humanidade. No meio da aceleração e da automatização, talvez o maior luxo contemporâneo seja o tempo de parar e pensar.

  • Jorge Esparteiro Garcia
  • Diretor do Adit-LAB - Instituto Politécnico de Viana do Castelo

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Produzimos mais, pensamos menos: o dilema da inteligência artificial

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião