Projecto Portugal 2034
As reformas do país não passam de um “formulário de inércias” que inclui soluções para todos os problemas sem solução.
Para reformar o país é preciso destruir o país. A razão pela qual Portugal resiste à mudança é porque Portugal nunca passou por uma revolução violenta nem por uma insurreição de veludo. O país desconfia do espírito de aventura liderado pelo destino ou pela ideologia. Portugal desconfia de todas as ideias importantes, como se as ideias fossem factor de obscuridade e não o sentido de uma luz. Quando o espírito de aventura invade as causas políticas, quando os líderes, governantes e outros representantes se abandonam à aventura, os resultados só podem ser uma catástrofe. Quando os reformistas chegam ao poder, quando os aventureiros ganham o poder, o resultado só pode ser o desastre infinito e a anulação da pátria. Portugal está confortável com a doutrina do “viver habitualmente” onde a política é a administração da banalidade e da vulgaridade que suporta toda a nação estagnada. Quando a calamidade destrói o cenário, vai o país reconstruir o cenário ou reformar o teatro?
A política tem uma importância residual no caos dos escombros de um país traumatizado. Pelos discursos políticos Portugal é uma nação na vanguarda da Europa e um exemplo para o Mundo. Nos discursos políticos as reformas fazem-se nas palavras tremendas que incham como balões de ar quente e que rebentam pela acção dos elementos naturais. Há o “socialismo que mata”, há a “beleza de matar fascistas”, há as “forças progressistas no limiar do século XXI”, mas o que não existe é a “força vital” que muda um país pela acção e pelo desígnio políticos.
A política em Portugal é a mais conformista das actividades nacionais. A política em Portugal é o primeiro e o último modo de promoção social. O Estado não governa o país, o Estado controla o acesso aos lugares da administração pública em nome de uma nação imaginária reduzida a um elenco de ficheiros partidários. Com o programa “Portugal, Transformação, Recuperação e Resiliência” 2034, o Estado vai sobrepor a catástrofe à reforma e garantir um Governo que se apresenta como uma “célula de crise”. Tal é a convicção no programa político inexistente que o Governo abandona o “viver habitualmente” e impõe ao país uma espécie de “estado de excepção” permanente. “Como é que a nação menos revolucionária do mundo” vai passar a viver numa “revolução permanente”?
A questão portuguesa não é liberal nem conservadora. A questão portuguesa não é social nem política. A questão portuguesa é sobretudo o conflito entre interesses opostos e não conciliáveis. A questão portuguesa é sobretudo uma questão económica e administrativa. Quando os interesses se cruzam com a economia e a administração, o país adquire o perfil de um labirinto impossível onde tudo se ganha e nada se transforma. Camadas e camadas de legislação avulsa e particular acumulam-se entre a boa governação e a respiração saudável do progresso material e da inteligência viva de uma nação civilizada.
A questão portuguesa é a de saber se a política é capaz de garantir vias de comunicação decentes, ajuda aos cidadãos em momentos de calamidade, mais as infraestruturas próprias de um país da Europa capaz de suportar a circulação de mercadorias e capitais capazes de contribuir para a riqueza da nação. A questão portuguesa é a de saber se os impostos servem apenas para manter a insaciável burocracia partidária que domina o Estado em vez de serem distribuídos pelos reais servidores do Estado. A questão portuguesa é a de saber se o Governo serve o país de modo independente e sério ou se continua dominado num labirinto de contratos e concessões que asfixiam o progresso da nação. A questão portuguesa é a de saber se o Governo deve integrar os mais inteligentes e íntegros ou apenas uma pequena elite moralizada pela ambição demagógica e pelo interesse próprio mal dirigido. A questão portuguesa é a de saber o que acontece aos cidadãos que não se resignam a ser funcionários. E quando nenhuma destas questões tem resposta na agenda reformista? Fica o país dos painéis solares com uma ligação Starlink em cada freguesia.
A política portuguesa é pródiga em perder tempo. Há aliás todo um programa político centrado na estética de iludir o tempo. As reformas do país não passam de um “formulário de inércias” que inclui soluções para todos os problemas sem solução. A estratégia reformista não desafia as conveniências sociais, mas contempla um sentimentalismo burocrático de conveniência. A estratégia reformista absorve a subserviência à normalidade para concretizar as novas regras da nação renovada. As reformas são um “código de inércia” que separa o país das grandes sociedades modernas. Portugal é uma utopia para irrealistas.
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