Quando a televisão não chega
Tempo de antena não é tempo de país, e a popularidade mediática não é mandato democrático.
Há uma tentação crescente na vida pública portuguesa: a de transformar presença televisiva em capital político automático. Como se a repetição em horário nobre substituísse pensamento, como se minutos de antena fossem o equivalente a legitimidade, como se notoriedade fosse sinónimo de autoridade.
A televisão tornou-se, para muitos, um atalho. Comentar é mais fácil do que governar, opinar é mais simples do que decidir, analisar à distância não exige o mesmo rigor que assumir responsabilidades. E ouvimos diariamente tantos exemplos disso mesmo. E, no entanto, criou-se a ilusão de que quem ocupa o espaço mediático acumula inevitavelmente crédito político junto dos eleitores.
O exemplo recente é particularmente elucidativo, mas não é o único caso. Marques Mendes esteve 14 anos consecutivos em direto, em horário nobre, aos domingos. Uma presença constante, quase ritualizada, numa das montras mais relevantes do espaço público nacional. Ainda assim, nas presidenciais, ficou pelos 11%. Em contraste, António José Seguro afastou-se do palco político durante 11 anos. Sem comentário semanal, sem exposição sistemática, sem “omnipresença mediática” e acabou eleito Presidente da República.
O que isto demonstra é simples: a notoriedade, por si só, não chega. A exposição não substitui a densidade. A visibilidade não cria, automaticamente, confiança. O eleitor distingue — mais do que muitos supõem — entre quem comenta e quem constrói, entre quem analisa à distância e quem assume percurso, coerência e consistência.
Há ainda outro problema na proliferação de comentadores que opinam sobre tudo: a superficialidade. A lógica televisiva privilegia rapidez, frases curtas, segurança performativa. Tudo certo, mas os temas públicos são complexos. Exigem estudo, contexto, prudência intelectual. Tudo o que tem desaparecido na ânsia de aparecer. Quando a opinião se transforma num produto instantâneo, há o risco de se comentar antes de compreender, de simplificar antes de aprofundar, de afirmar antes de refletir.
Isto não significa que o comentário político seja inútil. Pelo contrário, é essencial numa democracia saudável. Mas comentário não é carreira política por osmose. Não é certificado automático de liderança. Nem substitui projecto, estrutura, capacidade de mobilização e relação orgânica com o país real.
A Democracia não é um concurso de visibilidade. É um teste de confiança. E confiança constrói-se com coerência, trabalho, discrição estratégica e, sobretudo, com a capacidade de convencer fora do estúdio. O eleitorado pode ouvir comentadores durante anos, mas vota em quem reconhece como líder, não em quem simplesmente se habituou a ver na televisão.
Veja-se, por exemplo, Pedro Passos Coelho. Optou por uma postura discreta na vida pública, intervindo raramente e evitando a tal “omnipresença mediática” que hoje parece quase obrigatória. Ainda assim, continua a ser apontado por muitos como uma referência e como uma hipótese desejável, demonstrando que a reserva, longe de significar irrelevância, pode preservar e até reforçar capital político.
No fim, a lição é clara: Tempo de antena não é tempo de país, e a popularidade mediática não é mandato democrático.
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