República dos Três Países

O Governo tem nesta particular política da pandemia uma lógica não progressista e reaccionária, isto é, limita-se a reagir face às implicações sociais e políticas de um vírus.

Esta crónica deve ser dedicada aos portugueses que se deslocam em vagões de transporte, sufocados pelas máscaras obrigatórias, ventilados pela respiração de um qualquer companheiro de circunstância com o ombro de um bem comprimido contra o peito do outro. Esta crónica pode ser dedicada aos portugueses obrigados a trabalhar em condições de exposição e em pleno risco sanitário. Esta crónica não deve ser dedicada aos portugueses que se exibem nas festas ilegais. Esta crónica não pode ser dedicada aos portugueses que se abastecem de álcool em horário pós-laboral e partilham vapores e toxinas com outros portugueses irresponsáveis. E assim o covid cresce, cresce, como um animal em Portugal. E assim o covid voa, voa, como uma gaivota em Lisboa.

Devo desde já esclarecer que escrevo sem um milímetro de indignação, mas sim e apenas rasteirado por um gesto moral, pela tentação literária e por uma celestial fonte de inspiração. Escrever é por natureza uma provocação, um ponto de vista que nos eleva acima do que é e para além do que deve ser. É como fazer concorrência à insanidade política, pela virtude, pela insolência, pela intensidade, pela insanidade de quem promete o céu e conduz o País para o inferno.

É um clássico nacional, no País político esquizofrénico, está tudo bem apenas para poder ficar tudo mal. Para efeitos da pandemia e por efeitos do pandemónio, Portugal está dividido em três zonas distintas – o Portugal da Contingência, o País da Calamidade, a República do Alerta.

Recomendo aos portugueses atenção nas deslocações pois a Pátria está dividida em jurisdições pandémicas distintas. Um comportamento novo normal numa cidade representa um acto de desobediência na cidade mais próxima, o que implica atenção policial, uma coima punitiva e até uma estadia preventiva pelo tempo de um ano em estabelecimento prisional. Faz todo o sentido, sobretudo quando no início da pandemia se procedeu à libertação antecipada de reclusos em função da ausência de condições sanitárias nas prisões. No fundo, os portugueses estão invariavelmente condenados ao covid.

Tudo visto e revisto, a política do Governo relativamente à pandemia é uma espécie de palpite com certificação científica. A ciência, em vez de produzir conhecimento com certeza, emite opiniões ao estilo de um economista, ficando o Governo com o ónus da responsabilidade política e com o cálculo incompreensível de uma matriz que desconhece.

Tudo se compreende e tudo se explica, pois o vírus é novo, parece ter um comportamento codificado, complexo, inteligente face à estupidez humana. No entanto, o milagre também não se compreende e a miséria também não se explica. A política do Governo não se quer aproximar do “fascismo sanitário”, mas também não pretende confundir-se com o “fascismo securitário”. Como tal, vai fazendo zapping entre duas versões democráticas contraditórias – diminui a liberdade e a doença enfraquece; aumenta a liberdade e a doença fortalece. Este efeito político pendular é como uma batalha de rap entre gangs rivais, confrontam as letras em ambientes nocturnos duvidosos para recolherem aos cuidados intensivos na manhã asséptica seguinte. Entre a incerteza e o risco, o Governo apenas pretende ganhar tempo.

Mas é importante retomar a ideia de uma República e três Países, pois subjacente a esta regionalização sanitária estão três princípios políticos que podem iluminar o percurso do Governo, os mesmos princípios que o Executivo parece praticar de modo assimétrico, inconsciente, sistemático.

  • O primeiro é o “princípio da perversidade” e que estabelece que qualquer acção deliberada para melhorar as características da ordem social, política, económica, serve apenas para agravar o exacto aspecto que se deseja controlar.
  • O segundo é o “princípio da futilidade” e que afirma que as tentativas de transformação social são inúteis pois jamais conseguirão alcançar a diferença pretendida.
  • O terceiro é o “princípio do risco” e que sustenta que o custo da mudança ou da acção política necessária é demasiado elevado para poder ser pago, as eventuais melhorias não compensam o risco de pôr em causa as preciosas conquistas alcançadas.

Dito de outro modo, o Governo tem nesta particular política da pandemia uma lógica não progressista, pois assume com persistência uma lógica reaccionária, e reaccionária no sentido em que se limita a reagir face às implicações sociais e políticas de um vírus que é para todos os efeitos um vírus político. Esta lógica reaccionária infecta toda a Europa com a intensidade política de um episódio existencial.

Quanto ao comportamento dos portugueses pós-confinamento aproxima-se da irresponsabilidade pós-moderna do fim da História. Não gosto da metáfora, mas para efeitos de eficácia os portugueses têm de perceber que vivem num período onde se aplica a lógica de uma equivalência moral com um “estado de guerra”, um período em que todo o controlo racional não garante qualquer resultado. Existe a contingência do risco que se previne mas não se elimina, existe a necessidade de uma inteligência social, um híbrido entre a hostilidade e a amizade relativamente ao próximo. O vírus não se transmite sexualmente, por isso os portugueses não têm de dizer com quem dormem à noite. Mas o medo dorme com cada português e perturba a razão com o silêncio que fala e com o vaivém da solidão ao pé da ponte do fim. Acordem para a realidade.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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