Tem algum interesse? Vote dia 26premium

Os lisboetas devem pensar calmamente, “olhar” para os dois candidatos, comparar os prós e os contras de cada um e ponderar o seu voto.

No dia 26 de Setembro haverá eleições autárquicas. É um momento em que todos os que são maiores de idade podem expressar a sua escolha em simultâneo e em que os que têm algum interesse sentem que estão a participar na sua comunidade. Mas estas eleições também são importantes para os que não têm qualquer interesse. O resultado destas eleições afecta a vida de todos nós, em maior ou menor grau, pelo impacto nas nossas casas, nas nossas ruas, nos nossos bairros, nos nossos negócios e nas nossas terras.

Tal como Portugal, que precisa urgentemente de sair da estagnação que dura desde 2000, cada autarquia está num momento que é essencial para o seu futuro. E por isso esta é a melhor altura para que façamos uma escolha a pensar em nós e no nosso interesse. Não é, nunca é, um momento para deixar os outros decidir por nós. Todos temos as nossas preferências, e alguns limitam-se a defender o seu “clube”. Mas num momento em que se começa a definir o futuro não há nada mais importante do que ter uma pessoa séria e decente, que apresente resultados, à frente de uma autarquia. Esta pessoa irá tomar muitas decisões que afectam a vida de todos ao longo de 4 anos, e frequentemente com efeitos muito para além desse prazo.

O que se passa a nível nacional, em que há uma bipolarização e em que a esquerda se une temporariamente para governar, está também em causa em todas as autarquias. Apesar de as eleições autárquicas terem especificidades próprias, todas têm este ponto comum: em todo o país se defrontam esquerda e direita. Está na moda dizer que estes conceitos perderam razão de ser, mas a realidade é essa mesmo, trata-se apenas de uma moda passageira. A bipolarização da sociedade portuguesa é uma realidade desde o 25 de Abril, mesmo com a aberração de os nomes PSD e PS, que dividiram entre si o poder e representam a direita e a esquerda, serem ambos referentes a ideais sociais-democratas, como se houvesse algum exclusivo desta ideologia a nível nacional.

Lisboa comprova esta bipolarização e tem um peso especial por ser a capital e o concelho mais populoso do país. Em concorrência estarão uma coligação de direita e uma de esquerda, lideradas, respectivamente, pelo Eng.º Carlos Moedas e pelo Dr. Fernando Medina. Haverá ainda outras candidaturas que seguem os seus próprios interesses e que estarão à espreita de poderem ser necessárias para se juntarem a uma daquelas duas e formar maioria no executivo camarário. Mas mais do que siglas partidárias, são estes dois nomes que representam a direita e a esquerda na capital.

Dois candidatos opostos

Se pensarmos um pouco, facilmente concluímos que as diferenças entre os dois candidatos a Lisboa são abismais. De um lado temos uma pessoa séria e decente, Carlos Moedas, um profissional com ampla experiência em diferentes países e com provas dadas a todos os níveis: no sector privado, onde o enquadramento é muito exigente em termos de resultados, na governação, numa altura especialmente exigente quando o país estava em bancarrota, e numa organização internacional, quando se distinguiu como o melhor comissário europeu que Portugal teve até hoje.

Enquanto comissário, Carlos Moedas distinguiu-se pela aprovação e gestão do Programa Horizon de apoio à ciência e tecnologia e à inovação, que beneficiou muito as empresas portuguesas A visibilidade que deu a este programa funcionou como uma forma de promover o investimento das empresas portuguesas em ciência e tecnologia, como ficou demonstrado pelos muitos projectos participados por Portugal.

Moedas deixou um lugar seguro e muito bem remunerado na Administração da Fundação C. Gulbenkian, onde chegou por mérito próprio e não por carreirismo partidário. Não se “instalou”, como poderia ter feito, e veio lutar pela presidência da Câmara de Lisboa, o que é digno de admiração numa sociedade que premeia quem tudo acata e perante tudo se “encolhe”, e se limita ao “seguidismo” face ao poder do momento. Para isso reuniu um grupo alargado de pessoas que elaborou um programa com ideias novas e propostas destinadas a mudar a vida no concelho. São estas propostas que pretende implementar se ganhar as eleições.

Eu estou muito à vontade para fazer uma apreciação profissional sobre o percurso e as posições de Carlos Moedas. Apesar do que escrevi no parágrafo anterior, não concordo com a posição dele sempre que fala em transferir a nossa capacidade de decisão enquanto país para a União Europeia. Mas não é isso que está em causa nestas eleições e uma apreciação correcta requer normalmente o reconhecimento de vantagens e inconvenientes. Os aspectos positivos de Carlos Moedas são em muito superiores aos negativos.

Houve uma coisa que me impressionou especialmente em Carlos Moedas, e que tive ocasião de testemunhar pessoalmente: a forma inteligente, mas que muito ajudou Portugal, com que moderou as relações entre os governantes portugueses e os representantes da “troika”. Em reuniões negociais que foram longas e duras, quando o país estava à beira do precipício, pude observar como Carlos Moedas conseguia defender o interesse nacional e, em simultâneo, assegurar que a discussão sobre diferentes assuntos nunca passasse a um nível de intransigência. E acreditem que não foi fácil face a posições muito exigentes do FMI, e menos interventivas da Comissão Europeia e do BCE.

Este percurso e esta experiência contrastam marcadamente com as do outro candidato. Fernando Medina apostou toda a sua vida numa carreira partidária e dela beneficiou sem que se lhe seja reconhecido qualquer mérito e sem se ter destacado em qualquer iniciativa ou acção que não esteja coberta pelo “chapéu” do partido. Se pensarmos nos grandes feitos de Fernando Medina após duas décadas de “colagem” partidária, a única coisa que conseguimos encontrar é um grande “nada”, um vazio completo de ideias e de resultados.

Medina não tem qualquer experiência profissional e nunca teve outro trabalho que não resultasse de assessorias a militantes do PS e do seu “carreirismo” político. Não tem qualquer experiência internacional, tendo estado toda a vida “fechado” em gabinetes em Portugal. Foi membro do governo até à bancarrota, não tendo ficado registo de nada que tenha feito. Os únicos destaques que teve foram pelas piores razões, por ter contribuído para dois “coros” surreais: “culpar” os alemães por terem baixado os salários, e como isso teria prejudicado Portugal e provocado a bancarrota; Defender Sócrates enquanto foi politicamente vantajoso, num calculismo hipócrita que atravessou todo o Partido Socialista (em sintonia com Augusto Santos Silva, Vieira da Silva, Ana Catarina Mendes, Galamba e outros que tais).

O seu currículo desinteressante estende-se a Lisboa. Chegou à câmara por via da cunha partidária, herdando o lugar de presidente e tornando-se uma imitação de Costa, para pior (no “carreirismo” e na câmara). Enquanto presidiu, beneficiou da venda dos terrenos do aeroporto, que reduziram a dívida da câmara para metade, mas sobre o qual os socialistas nunca prestaram contas sobre o uso que deram ao dinheiro originado pelo acréscimo de endividamento que se lhe seguiu. Aproveitou o fluxo de turistas trazido pelas companhias de aviação “low cost” sem para isso nada ter contribuído. Usou a “Websummit” como instrumento de propaganda para benefício próprio apesar de ela ter vindo para Lisboa por iniciativa do Governo de Passos Coelho, e até hoje ainda não teve a preocupação de apresentar uma análise custo-benefício que justifique os muitos milhões de euros que os lisboetas disponibilizam anualmente ao irlandês dono do evento. E até na Carris teve a protecção do governo socialista, pois recebeu-a “limpa” da enorme dívida acumulada. Como é que Medina usou esta dádiva? Promovendo o emprego para militantes socialistas de uma forma descarada, como mostra, sem margem para qualquer dúvida, o vídeo publicado pelo Correio da Manhã (onde há jornalistas que não estão ao serviço do PS).

A falta de ética na sua gestão camarária foi uma constante a vários níveis. Não foi só a partilha de listas com nomes de pessoas a regimes autoritários e, em alguns casos, sanguinários - o que seria uma vergonha para qualquer pessoa decente - e o posterior despedimento de um bode expiatório (onde é que está o inquérito independente?). Também são as “sombras” que pairam sobre a gestão de Medina na câmara, como a compra de casa, os negócios do vereador do Bloco de Esquerda que o apoiou, os negócios do vereador Salgado que nomeou, os negócios do vereador que substituiu Salgado, e agora os negócios da candidata número dois da sua lista a estas eleições. Ou a ausência frequente da Assembleia Municipal onde as regras de democracia exigem que preste contas. Ou ainda o uso de dirigentes do PS a fingirem ser “pessoas comuns” para propaganda e o transporte de idosos do Alentejo para um piquenique em Lisboa, para serem usados numa campanha socialista. Tudo isto só pode levar a uma conclusão – as suas reduzidas virtudes - e à prova definitiva de que Medina não tem a sólida base ética que é necessária para o lugar que ocupa.

A habitação e o imobiliário são, aliás, uma evidência da sua incapacidade. Como é que se compreende que um mandato de 4 anos não seja suficiente para cumprir a promessa de disponibilizar casas a renda acessível quando a Câmara de Lisboa teve acesso a recursos muitos maiores do que qualquer outra câmara do país e possui um enorme património imobiliário que está desaproveitado? Resto saber se, nestas eleições, Medina repete a mesma promessa ou apresenta outra diferente.

As sondagens parecem indicar que os lisboetas julgam que teve um papel positivo na gestão da pandemia, mas quem se dê ao trabalho de aprofundar a questão rapidamente conclui que Medina e a Câmara de Lisboa andaram sempre “atrás” das medidas implementadas por outras autarquias. Basta pensar na produção e distribuição de máscaras feita pela Câmara de Cascais através de IPSS (17 milhões de máscaras disponibilizadas desde o início da pandemia. Em Lisboa, quantas foram produzidas e distribuídas?) ou a organização de espaços para a realização de testes ao Covid-19, que o primeiro-ministro dizia, na sua ignorância sobre as diferentes realidades locais, deverem ser feitos nos centros de saúde. Medina aplicou soluções que já estavam implementadas noutros municípios, mostrando pouca capacidade para inovar e reagir a situações inesperadas que exigiam ideias novas e uma resposta rápida.

Perante isto, os lisboetas devem pensar calmamente, “olhar” para os dois candidatos, comparar os prós e os contras de cada um e ponderar o seu voto. Mas é preciso que votem no dia 26, que não fiquem em casa e não se deixem vencer pelo imobilismo. A única sondagem que conta é a das urnas, e o seu resultado será diferente quanto maior for o número de votantes. Aqueles que habitualmente não votam têm aqui uma ocasião para, saindo de casa nesse dia, dar um contributo decisivo no sentido de os habitantes e os utilizadores do concelho serem beneficiados com uma melhor vivência futura. Tal como Portugal, Lisboa precisa do seu voto para mudar e ter um futuro com esperança.

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