Trump e a Nova Geopolítica da Energia
A energia assume-se, agora em definitivo, como um eixo central da política externa norte-americana.
I. “Diplomacia Transacional” e relevo dos Hidrocarbonetos
Na perspetiva da Economia da Energia, o regresso de Donald Trump à Casa Branca consolidou uma mudança de paradigma onde a energia se assume, agora em definitivo, como um eixo central da política externa norte-americana.
Alicerçada na controversa doutrina da “diplomacia transacional” (“transactional diplomacy”), a Administração Trump utiliza a capacidade excedentária dos EUA em petróleo e gás natural não apenas para sinalizar a respetiva autossuficiência, mas, sobretudo, para reforçar a política de multilateralismo seletivo que, em última instância, permite estabelecer um contrapeso definitivo face à OPEP+ (que inclui os membros da OPEP e, desde 2016, outros parceiros, incluindo Rússia, México ou Cazaquistão).
Este tipo de aproximação aos mercados de energia tem como objetivo primordial o aumento escalonado de oferta e a manutenção de preços baixos, em especial afetando as receitas de alguns concorrentes em situação económica mais débil (ex: Irão) ou oferecer uma alternativa (sobretudo, GNL) à Europa, que acaba por representar um reforço de vinculação e dependência face aos EUA.
Ao abrigo desta aproximação, que reforça a dimensão política dos hidrocarbonetos, as metas climáticas de longo prazo são largamente colocadas em causa em detrimento de prioridades de segurança no abastecimento e soberania energética.
II. O reposicionamento da importância do Ártico
Neste novo quadro da geopolítica energética, justifica-se dirigir alusão ao caso particular da Gronelândia – em especial, à luz dos mais recentes posicionamentos da administração Trump, que denunciam uma clara intenção de controlo da ilha que integra o Reino da Dinamarca (note-se que, no período anterior à Constituição Dinamarquesa, de 1953, a Gronelândia tinha apenas o estatuto de colónia).
Poderá o leitor perguntar-se: qual será o interesse de Donald Trump na Gronelândia (?)
De acordo com dados monitorizados pelo The Arctic Institute, o degelo da Passagem do Noroeste e da Rota do Mar do Norte poderá propiciar uma autêntica revolução logística que permite encurtar a distância entre portos da Ásia Oriental (como Yokohama ou Xangai) e a Europa do Norte (como Roterdão ou Hamburgo) em cerca de 7.000 a 8.000 quilómetros, por referência à rota do Canal do Suez.
Esta poupança de tempo, que, não obstante a existência de alguns desafios adicionais, pode chegar aos 15 dias de navegação, transforma a Gronelândia no novo sentinela do comércio global.
Não obstante – e aqui está justamente o foco do interesse da Administração Trump –, este atalho geográfico é vigiado de perto pela frota de quebra-gelos nucleares da Rússia (através da empresa estatal Rosatom) e pela presença indireta da China, que há muito procura uma penetração na região através (sobretudo) de investimentos em infraestruturas mineiras (em especial, terras raras), de que é exemplo o projeto Kvanefjeld.
Neste sentido, para Trump, o controlo da Gronelândia é a única forma de criar fricções ao claro monopólio chinês sobre as terras raras, essenciais para a indústria de defesa e para tecnologia de ponta, garantindo que o Ocidente (em especial, os EUA) não fica refém de Pequim na cadeia de abastecimento de minerais críticos.
III. O caso da Venezuela
O caso igualmente particular da Venezuela exemplifica, mais uma vez, os carateres da nova geopolítica energética da atualidade.
Com a intervenção militar especial que culminou com a captura de Nicolás Maduro, Trump conseguiu sedimentar as bases para um novo posicionamento das empresas americanas relativamente ao petróleo venezuelano – em especial, na bacia de Orinoco –absolutamente vital para as refinarias do Golfo do México.
Esta abordagem permite, simultaneamente, que o referido petróleo flua para os EUA e não para a China ou Rússia, enquanto reforça a posição americana como o único árbitro capaz de decidir a sobrevivência económica de Caracas.
Neste cenário, o reposicionamento americano na Venezuela serve igualmente como um estabilizador de preços no mercado interno americano, ao mesmo tempo que reforça a perda de influência de potências rivais na América Latina.
IV. Impactos regionais e o futuro da ordem energética internacional
Os efeitos da nova Geopolítica da Energia, tal como protagonizada pela Administração Trump, criam uma assimetria profunda entre os dois lados do Atlântico.
Para os Estados Unidos, sobretudo após as mais recentes ao Inflation Reduction Act (IRA), a energia barata funciona como um indutor à industrialização atraindo, inclusive, capitais que procuram fugir aos elevados custos energéticos (e regulatórios) da União Europeia.
Para a União Europeia, o cenário é de clara vulnerabilidade sistémica, exigindo-se a adoção de medidas que, sendo coerentes com os objetivos de liderança na transição energética e massivo investimento em renováveis, possam assegurar um realinhamento de competitividade face aos EUA – devendo salientar-se que, no caso americano, o reforço de aposta nos combustíveis fósseis, com a consequente queda de preços, acaba por funcionar como um verdadeiro subsídio (industrial) direto à respetiva economia, reforçando o incremento de competitividade face a mercados concorrentes.
O prognóstico de médio prazo aponta para uma fragmentação do mercado em blocos energéticos rivais, onde a eficiência logística do Ártico e o domínio dos recursos fósseis, bem como de alguns dos minerais críticos, ditarão quem detém a verdadeira soberania energética.
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